Redução de CO2 precisa superar 7% ao ano para conter aquecimento global em 1,5ºC

Ritmo atual de ações dos países para conter emissões de gases de efeito estufa colocam o planeta no rumo de um aumento de temperatura de 3,2ºC em média até o final do sécula, aponta relatório da ONU

Giovana Girardi

26 de novembro de 2019 | 06h00

Ao mesmo tempo que as concentrações de gases de efeito estufa aumentam na atmosfera do planeta, os países ficam cada vez mais distantes de cumprirem a meta de conter o aquecimento do planeta a 1,5ºC até o final do século.

É o que mostra a nova edição do Emissions Gap Report, do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), que todos os anos faz a conta de quanto os países já estão fazendo para conter suas emissões de gases de efeito estufa e qual é a lacuna (o gap) para atender o necessário para cumprir o Acordo de Paris.

Greta Thunberg segura seu cartaz de ‘greve escolar climática’ em frente ao parlamento sueco. Crédito: Reuters

O tratado, de 2015, estabeleceu um compromisso dos países para conterem o aumento da temperatura a bem abaixo de 2ºC, com esforços para que o aquecimento fique no máximo a 1,5ºC. De acordo com o cálculo da ONU, a não ser que as emissões globais de gases de efeito estufa diminuam 7,6% ao ano entre 2020 e 2030, o mundo perderá a oportunidade de conseguir isso.Para chegar a essa redução, o nível de ambição coletiva dos países precisaria aumentar em mais de cinco vezes em relação aos níveis atuais.

O que existe hoje em termos de promessas por parte dos governos, porém, levam o planeta a um cenário de aquecimento de 3,2ºC.O relatório foi divulgado na manhã deste terça-feira, 26, em Genebra, a seis dias do início da Conferência do Clima (COP) que será realizada em Madri, quando as nações vão se reunir para ajustar os últimos ponteiros antes do início de 2020, quando começa a valer o Acordo de Paris.

Daqui um ano, na COP de Glasgow, no Reino Unido, os países deverão intensificar seus compromissos – ou seja, dizerem quanto mais eles se propõem a reduzir de suas emissões além do que foi apresentado junto ao Acordo de Paris. Com base no que dizem os gap reports da ONU e o que apontam as pesquisas científicas – de que um mundo 3ºC mais quente pode ser bastante perigoso –, espera-se que os países comecem a fechar a lacuna no ano que vem, mas o mais provável é que isso não ocorra.

O principal sinal disso vem dos Estados Unidos, maiores emissores históricos de gases de efeito estufa, que saem do Acordo de Paris no ano que vem. Do Brasil tampouco há sinais de compromissos mais ousados. Pelo contrário, o País, que viu um aumento de 29,5% no desmatamento da Amazônia neste ano – justamente sua maior fonte de emissões de gases de efeito estufa – tem indicado que quer cobrar recursos dos países desenvolvidos por um suposto cumprimento de metas, o que é questionável.

Além disso, as emissões do Brasil pararam de cair no ano passado, como mostrou o novo relatório do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito de Estufa (Seeg), do Observatório do Clima. Em 2018, a taxa ficou praticamente estável em relação ao ano passado, mas deve voltar a subir neste ano com a alta do desmatamento.

“Por dez anos, o Relatório sobre a Lacuna de Emissões tem soado o alarme, e por dez anos o mundo só aumentou suas emissões”, disse o secretário-geral da ONU, António Guterres, em comunicado à imprensa divulgado pelo Pnuma. “Nunca foi tão importantedar ouvidos à ciência. Não observar esses aviso nem tomar medidas drásticas para reverter as emissões implica que continuaremos a testemunhar ondas de calor mortais e tempestades e poluição catastróficas”, alertou.

Fracasso coletivo

Para Inger Andersen, diretora executiva do Pnuma, houve um “fracasso coletivo” em agir cedo e com firmeza contra as mudanças climáticas. “Agora precisamos realizar grandes cortes nas emissões, de mais de 7% ao ano, se forem distribuídos uniformemente na próxima década”, disse, pedindo que novos compromissos não sejam adiados até o final do ano que vem.

“Precisamos de vitórias rápidas para reduzir as emissões o máximo possível em 2020, e Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs – as metas do Acordo de Paris) mais fortes para iniciar as principais transformações em economias e sociedades. Precisamos compensar os anos em que procrastinamos”, complementou.

Ano após ano, os cientistas que trabalham no relatório apontam que a situação está ficando mais complicada. O relatório deste ano apontam que houve um aumento de 1,5% das emissões de gases de efeito estufa por ano na última década. No ano passado, elas alcançaram 55,3 gigatoneladas de CO2 equivalente.

Para conter o aumento de temperatura a 2ºC até 2100, em 2030 as emissões mundiais precisariam ser 15 gigatoneladas de CO2 equivalente mais baixas do que as NDCs atuais. Para conter o aquecimento em 1,5ºC, as emissões teriam de ser de 32 gigatoneladas maisbaixas. Daí se chega a conta de uma redução necessária de 7,6% por ano nos próximos 11 anos.

Nesta segunda-feira, 25, um outro órgão da ONU, a Organização Meteorológica Mundial apontou que as concentrações de gases de efeito estufa na atmosfera bateram um novo recorde no ano passado – 407,8 partes por milhão (ppm). É um valor 147% mais alto que as concentrações antes da Revolução Industrial. Em relação a 2017, a alta foi de 0,56%.

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