Giovana Girardi/Estadão
Da esquerda para a direita, o diretor do Inpe, Darcton Policarpo Damião, o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e o diretor do Ibama, Olivaldi Azevedo, durante a apresentação dos dados sobre o desmatamento na Amazônia Giovana Girardi/Estadão

Desmatamento da Amazônia sobe 29,5% no ano e chega perto de 10 mil km²

Valor ficou pelo menos 1.500 km² acima da tendência de aumento que vinha sendo observada desde 2012 no bioma

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2019 | 10h35

SÃO JOSÉ DOS CAMPOS - O desmatamento na Amazônia subiu 29,5% entre 1º de agosto do ano passado e 31 de julho deste ano, na comparação com os 12 meses anteriores, atingindo a marca de 9.762 km². É a mais alta taxa desde 2008. Porcentualmente, é também o maior salto de um ano para o outro dos últimos 22 anos. Entre agosto de 2017 e julho de 2018 o corte raso da floresta tinha atingido 7.536 km².

Essa é a análise preliminar do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite (Prodes), o sistema do Inpe que fornece a taxa oficial anual de desmatamento da Amazônia. Os dados foram divulgados na manhã desta segunda-feira, 18, na sede do Inpe, pelos ministros do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes.

O diretor interino do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Darcton Policarpo Damião, e Salles destacaram que o desmatamento está em tendência de alta desde 2012, a uma taxa média de aumento de 11,4% ao ano.

O desmatamento observado no último ano, porém, ficou pelo menos 1.500 km² acima da tendência de aumento do desmatamento que vinha sendo observada a partir de 2012. Segundo técnicos do Inpe, se a taxa seguisse a tendência dos últimos anos, teria ficado em torno de 8.278 km².

O Estado com maior taxa de desmatamento foi o Pará, respondendo por 39,5% da perda observada em toda a Amazônia, seguido de Mato Grosso, com 17,2%. Os dois Estados, juntamente com Amazonas e Rondônia, representaram 84% de toda a devastação. Chamou a atenção também o Estado de Roraima, que teve uma alta de 216,4% de desmate no período.

"Pode significar que está se tornando uma nova fronteira de desmatamento e merece atenção", disse Damião.

O Acre teve a 2ª maior taxa desde 2004. Já Roraima e Amazonas, a maior desde 1990.

O ministro do Meio Ambiente não rejeitou os dados, como tinha acontecido anteriormente, e disse que eles mostram que os governos federal e estaduais têm de adotar uma "estratégia diferente para a contenção do aumento do desmatamento". 

Ele lembrou que esse é o terceiro ciclo de aumento do desmatamento ao longo da série histórica – houve um aumento médio por ano de 27,4% entre 1991 e 1994, e de 11,2% entre 1997e 2004.

"Os dados indicam que houve uma redução em relação à média histórica de 13.938 km² que precisa ser perseguida."

Salles afirmou que haverá na quarta-feira, 20, uma reunião em Brasília com os governos da Amazônia Legal para definir medidas para promover uma redução "de maneira sustentável". Sem dar mais detalhes, o ministro afirmou que será definido um rol de medidas que vão incluir ferramentas tecnológicas, como o trabalho do Inpe com Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e Polícia Federal para a análise de imagens de alta resolução para ajudar na tarefa de fiscalização. 

O ministro  também citou que vai atuar em regularização fundiária e pagamentos por serviços ambientais, além do aumento do comando e controle e o que ele chama de  "agenda da bioeconomia". 

Questionado sobre os motivos do aumento atual e sobre se as mensagens passadas pelo governo Jair Bolsonaro – que várias vezes pregou o fim do que chama de "indústria da multa",  desautorizou a ação de fiscais, e incentivou mineração em terra indígena – teriam ajudado no avanço da devastação da floresta, o ministro rejeitou a conexão. 

Disse que são os "motivos conhecidos" de sempre.

"De 2012 para frente, é por pressão das atividades econômicas – grande parte delas ilegais – sobre a floresta e por isso precisamos justamente de estratégias de alternativa econômica para a região. Está demonstrado com sete anos de aumento de desmatamento que alguma coisa estruturante precisa ser feita e nós vamos discutir isso na quarta", afirmou.

Ele citou como exemplo as atividades de garimpo ilegal, extração de madeira ilegal e ocupação do solo de maneira ilegal, que, segundo ele, estão na floresta e acontecem há muitos anos.

"São ações que precisam ser atacadas em sua origem e entender qual é a questão estrutural que está por trás delas", disse. "Os garimpos que foram autuados neste ano foram os mesmo autuados em anos inteiros, o que mostra que essa colocação de que atividades ilegais tenham começado agora por causa de discurso, seja ele qual for, não é verdade", justificou. Questionado mais uma vez sobre as mensagens passadas pelo governo, em especial sobre a ação do Ibama, Salles colocou a culpa em governos anteriores.

"Grande parte do problema que temos de fiscalização vem de deficiências orçamentárias de quadro de pessoal que são anteriores a nossa gestão, então não tem nada a ver com o que você está colocando. Ao longo do ano o que se fez foi, sim, combater atividade criminosa, autuar inclusive com os mesmos instrumentos que se usava antes. Não houve nenhuma determinação em contrário. Mas tivemos, e os Estados também, problemas de quadro de pessoal, orçamento, apoio logístico, que foi suprido em grande medida pela GLO."

Confrontos com o Inpe, questionamento dos números e demissão de diretor

Havia uma grande expectativa em torno desses números depois de vários indicadores apontarem que o primeiro ano do governo Jair Bolsonaro reaqueceu o avanço da motosserra sobre a floresta.

O principal deles foi o Deter – outro sistema do Inpe de análise de imagens de satélite e que fornece dados em tempo real a fim de orientar a fiscalização –, que havia indicado para uma alta de quase 50% no desmatamento no período, na comparação com os 12 meses anteriores. Os alertas do Deter mostraram uma perda de 6.840 km² de floresta neste intervalo, ante 4.571 km² entre agosto de 2017 e julho de 2018.

Esses números vinham sendo desacreditados pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, desde o início do ano, e desencadearam uma crise no governo no final de julho, quando o presidente Jair Bolsonaro, em um café da manhã com a imprensa estrangeira, disse que os dados eram mentirosos e insinuou que o então diretor do Inpe, Ricardo Galvão, estaria "a serviço de alguma ONG".

Em entrevista ao Estado, Galvão reagiu, afirmou que a atitude do presidente era "pusilânime e covarde" e disse que os dados do Inpe são transparentes, confiáveis e confirmados por outras instituições em todo o mundo. 

Bolsonaro chegou a dizer que queria ver os dados do desmatamento antes de sua divulgação, ao mesmo tempo em que Salles anunciou que o governo contrataria outro sistema de monitoramento da Amazônia. O desgaste levou à exoneração de Galvão e a um clima de desconfiança de que os dados do Prodes poderiam sofrer algum tipo de censura.

A crise foi agravada no mês seguinte, quando intensos focos de queimada da Amazônia chamaram a atenção de todo o mundo e renderam críticas a Bolsonaro. Em agosto, o número de focos foi 196% superior ao observado no mesmo mês no ano passado. 

Cientistas de várias instituições, inclusive da Nasa, alertaram que boa parte do fogo estava relacionada justamente ao desmatamento que tinha ocorrido nos meses anteriores. Depois de derrubada, a floresta estava sendo queimada para a limpeza do terreno.

A pressão nacional e internacional fez o governo reagir, enviando as Forças Armadas para a região. Em setembro, o fogo diminuiu bastante, chegando ao menor valor da série histórica em outubro, mas o desmatamento, por outro lado, não arrefeceu, como continuam indicando os alertas do Deter.

Mesmo durante a vigência da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) na Amazônia, a devastação cresceu, conforme revelado pelo Estado em setembro.

O Prodes apresenta o cenário na Amazônia até julho, mas o Deter indicou desmatamento em forte alta ainda em agosto e setembro. Em outubro, o ritmo diminuiu, mas ainda assim registrou a sétima alta consecutiva. De acordo com o Deter, o acumulado do ano (de 1º de janeiro até 31 de outubro), já chegou a 8.409 km² – aumento de 83% em relação ao mesmo período do ano passado, que teve uma perda de 4.602 km².

Salles destacou durante a coletiva a redução das queimadas com a GLO, mas ao ser questionado sobre por que houve alta no desmatamento no período observada pelo Deter, o ministro não respondeu e somente comparou o observado pelo Prodes com indicativos mensais feitos anteriormente pelo Deter e destacados pela imprensa. Somente o mês de julho, por exemplo, teve alta de 200%.

“(A taxa do Prodes) ficou longe do que gostaríamos de ver, mas longe também de três casas decimais como usado para manchetes. O que temos é de olhar para frente para fazer uma estratégia de desenvolvimento sustentável. Um ambientalismo de resultados que queremos ter em prática, melhorando a vida das pessoas na Amazônia. Sem isso vamos continuar vendo aumento”, afirmou.

O Deter é um sistema em tempo real que vale para orientar a fiscalização e não serve como taxa oficial do desmatamento. Em geral, comparar somente a taxa mês a mês não é recomendado pelos técnicos, porque o sistema tem muitas imprecisões por causa de nuvens. Mas os consolidados de vários meses dão uma boa ideia do tamanho do problema.

O sistema mais rápido, além disso, acaba funciona como um indicativo do que está ocorrendo em campo e, em geral, a tendência que ele aponta, de alta ou baixa, é confirmada depois pelo Prodes. No entanto, como “enxerga” mais, o Prodes sempre acaba indicando números ainda maiores.

Evolução do desmatamento

O desmatamento da Amazônia começou a ser monitorado oficialmente pelo Inpe com o Prodes em 1988, quando a destruição da floresta começou a ser criticada internacionalmente. Na época, a floresta perdia cerca de 20 mil km² por ano. A maior taxa registrada foi em 1995, primeiro ano do governo Fernando Henrique Cardoso, quando chegou a 29,1 mil km².

Na ocasião, o governo reagiu fortemente, aumentando o tamanho da Reserva Legal – área de propriedades privadas que tem de ser mantida protegida, de acordo com o Código Florestal, de 50% para 80% na Amazônia. A taxa do desmatamento caiu, mas voltou a subir no começo do anos 2000, alcançando um novo pico em 2004, segundo ano do governo Luiz Inácio Lula da Silva: 27,8 mil km². 

Marina Silva, então à frente do Ministério do Meio Ambiente, iniciou uma série de ações para combater o desmatamento, fortalecendo principalmente a fiscalização e a criação de novas unidades de conservação. Foi com ela, também, que o Deter começou a fornecer os alertas, ajudando o Ibama, e o Fundo Amazônia começou a operar, em 2008.

A estratégia funcionou. Em 2012, o Prodes registrou a menor taxa de sua história – 4,6 mil km². O País parecia no caminho para conseguir alcançar uma meta estabelecida em 2009 de chegar a 2020 com um desmatamento de 3,9 mil km². A partir do ano seguinte, porém, com um novo Código Floresta em vigor, menos rígido do que o anterior, a taxa de desmatamento começou a flutuar na Amazônia em uma tendência de alta. 

Veja a evolução do desmatamento da Amazônia:

  • De 2012 para 2013, a alta foi de 28,9%
  • De 2013 para 2014, houve queda de 14,9%
  • De 2014 para 2015, o desmatamento voltou a subir: 23,8%
  • De 2015 para 2016, nova alta, de 27,7%
  • De 2016 para 2017, houve um recuo de 11,9%
  • De 2017 para 2018, a taxa voltou a crescer: 8,5%

Ambientalistas culpam gestão Bolsonaro e Salles

Ambientalistas que vinham alertando desde o começo do ano para o risco de aumento do desmatamento lamentaram o resultado.

"O dado é decorrência direta da estratégia implementada por Bolsonaro de desmontar o Ministério do Meio Ambiente, desmobilizar a fiscalização, engavetar os planos de combate ao desmatamento dos governos anteriores e empoderar, no discurso, criminosos ambientais", afirmou, em nota, o Observatório do Clima, organização que reúne ONGs. "O próprio presidente já declarou, com orgulho, que havia mandado seu antiministro do Ambiente, Ricardo Salles, 'meter a foice no Ibama'. Salles obedeceu."

"Diferentemente do que aconteceu em anos anteriores de elevação da taxa, desta vez não foi anunciado pelo governo federal nenhum plano crível para reverter a situação. O antiministro Salles anunciou uma reunião com governadores da Amazônia na quarta-feira (20) na qual seriam apresentadas medidas para conter a crise", disse a organização lembrando os atos anteriores de FHC e Lula.

"O dado divulgado pelo Inpe é o indicador mais importante do impacto da gestão Bolsonaro/Salles para o meio ambiente do Brasil até agora: um imenso desastre. E propostas como legalização da grilagem de terras públicas, mineração e agropecuária em terras indígenas, infraestrutura sem licenciamento ambiental só mostram que os próximos anos podem ser ainda piores", disse Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima, na nota. 

"O governo Bolsonaro é responsável por cada palmo de floresta destruída. Este governo hoje é o pior inimigo da Amazônia", disse Marcio Astrini, coordenador de Políticas Públicas do Greenpeace, também na nota do OC.

Adriana Ramos, diretora de Políticas Públicas do Instituto Socioambiental, lembrou que o governo ainda desmobilizou neste ano o Fundo Amazônia.

"Não é de se estranhar que isso aconteça tendo em vista que desde a campanha eleitoral o presidente defende ilegalidade ambiental e promove a impunidade. O governo também tem uma imensa responsabilidade por ter paralisado o único instrumento de financiamento voltado a redução do desmatamento na Amazônia, que era o Fundo Amazônia."

Para o diretor-executivo do WWF-Brasil, Mauricio Voivodic, "é inaceitável que a Amazônia continue sendo destruída".

"Cerca de 20% da Amazônia já foi destruída e a floresta se aproxima do ponto de não retorno, em que a Amazônia se transformará em uma savana. A ciência já mostrou o papel fundamental desempenhado pela Amazônia no fornecimento de água para outras regiões - tanto cidades, como para o agronegócio."

Para ele, "se o governo federal não modificar profundamente sua postura em relação ao tema, ele tende a crescer ainda mais no próximo ano, fazendo com que o país retroceda 30 anos em termos de proteção à Amazônia". 

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Análise: Precisamos identificar e punir os bandidos na Amazônia

A destruição ambiental não interessa à sociedade. É importante deixar claro que o setor produtivo, a academia e as organizações ambientais estão juntos na certeza de que a região precisa de segurança e respeito às leis

André Guimarães e Marcello Brito, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2019 | 18h27

O Brasil precisa zerar imediatamente o desmatamento ilegal da Amazônia. A destruição ambiental não interessa à sociedade. É importante deixar claro que o setor produtivo, a academia e as organizações ambientais estão juntos na certeza de que a região precisa de segurança e respeito às leis. Uma das principais chagas da Amazônia é o roubo de terras públicas, também chamado de grilagem. Trata-se de um processo em larga escala de apropriação indevida do patrimônio de todos nós, que envolve quadrilhas organizadas e leva ao desmatamento criminoso. De acordo com o Deter, 40% do total que foi desmatado na Amazônia nos primeiros seis meses de 2019 ocorreu em terras públicas. Todo o desmatamento ali é ilegal.

O que são essas terras públicas? Elas incluem uma imensa área de florestas ainda não destinadas para nenhum uso, sob responsabilidade da União e dos Estados, além de áreas que o governo não tem nenhum tipo de informação sobre o que são. Juntas, somam cerca de 114 milhões de hectares, área maior do que toda a Região Sudeste. Essas terras são as mais vulneráveis às quadrilhas que invadem, roubam a madeira, expulsam os moradores e derrubam a floresta para tentar falsificar documentos e vender lotes irregulares ou aguardar anistia. Essa atividade criminosa cria violência e traz insegurança para as populações, para os investidores, para os produtores rurais e para as empresas que operam legalmente. A prática dos criminosos na Amazônia, que visa a especular com terras públicas roubadas, suja a imagem do agro no Brasil e no exterior.

Essas quadrilhas de ladrões de terras públicas prejudicam diariamente o produtor rural. Os produtos que as quadrilhas vendem a partir de sua ocupação ilegal de território não rendem riquezas para o Estado e ainda criam um ambiente de competição desleal com os produtores de verdade.

A grilagem também está associada a outros crimes, como corrupção de autoridades, lavagem de dinheiro, falsificação de documentos, assassinatos, tráfico de armas e trabalho em condições degradantes. Um dos desafios para combater a grilagem na Amazônia é reduzir a impunidade. Dados do Ministério Público Federal divulgados em 2019 mostram que as dez maiores operações de combate ao roubo de terras públicas feitas no Brasil de 2014 a 2019 não resultaram na condenação de nenhuma pessoa.

Foi por causa disso que formamos uma coalizão de organizações da sociedade, associações empresariais e do agronegócio para promover a campanha Seja Legal com a Amazônia. A iniciativa, lançada no dia da Amazônia, 5 de setembro, deste ano, tem dois objetivos principais. O primeiro é informar a população brasileira e os tomadores de decisão sobre a gravidade do roubo de terras públicas na Amazônia. E pedindo apoio para ações do Ministério Público Federal, como a Força Tarefa Amazônia, e da Justiça para identificar e punir os bandidos.

*ANDRÉ GUIMARÃES É DIRETOR EXECUTIVO DO INSTITUTO DE PESQUISA AMBIENTAL DA AMAZÔNIA. MARCELLO BRITO É PRESIDENTE DO CONSELHO DIRETOR DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DO AGRONEGÓCIO. SÃO PORTA-VOZES DA CAMPANHA SEJA LEGAL COM A AMAZÔNIA.

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Conter desmate na Amazônia passa por monitoramento e fiscalização, dizem especialistas

Para cientistas e ambientalistas, declarações e atos do governo federal atual contribuíram para o aumento no desmatamento. Os pesquisadores acreditam que o caminho para conter o desmatamento já é bem conhecido

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2019 | 05h00

SÃO PAULO - Para cientistas e ambientalistas, declarações e atos do governo federal atual contribuíram para o aumento de 29,5% do desmatamento entre agosto do ano passado e julho deste ano, na comparação com os 12 meses anteriores, como anunciado nesta segunda-feira, 18, pelo Inpe.  Eles citam como exemplo os discursos do presidente Jair Bolsonaro – que desde as eleições disse que acabaria com o que ele chama de "indústria da multa” e que desautorizou a fiscalização do Ibama a destruir equipamentos de infratores –; os incentivos à mineração em terras indígenas; a redução nas multas, entre outros.

“De janeiro a setembro, o número de autuações de crimes contra a flora na Amazônia Legal caiu 40% com relação ao mesmo período de 2018. O que vemos é consequência direta do desmonte da política ambiental”, disse o pesquisador Raoni Rajão, da Universidade Federal de Minas Gerais. 

Especialistas lembram também que o Grupo Especializado em Fiscalização (GEF), conhecido como a tropa de elite do Ibama, só foi chamado a campo no final de agosto. E o Fundo Amazônia – recurso proveniente de doações de Noruega e Alemanha justamente para ações de combate ao desmatamento – foi desmobilizado este ano.

Para os pesquisadores, o caminho para conter o desmatamento já é bem conhecido – tanto que o governo federal conseguiu reduzi-lo ao menor nível da série histórica em 2012 (taxa de 4.571 km²). 

A fórmula está estabelecida no Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAM), criado em 2004 e que deveria agora estar em sua quarta fase. Mas além de retomar essas atividades (regularização fundiária; monitoramento e controle; fomento a atividades produtivas sustentáveis e incentivo econômico para a floresta ficar em pé), é preciso também modificar a forma como o governo se relaciona com o que está acontecendo em campo, apontam os especialistas.

“O que até hoje mostrou ter efeito foi o monitoramento e controle. Na hora que se alivia isso, não tem jeito, o desmatamento vai subir. A gente já sabe que tem de botar dinheiro nisso e que é prioridade. A gente sabe que a grilagem ocorre nas terras públicas sem destinação. O controle tem de estar lá”, diz a pesquisadora Thelma Krug, do Inpe, uma das responsáveis pela implementação do Prodes e pelo PPCDAM. Ela também critica a potencial expansão da cana na Amazônia e no Pantanal, com a revogação de decreto que vetava esse tipo de cultivo nos dois biomas. 

“O que é preciso fazer? É pensar duas vezes antes de falar as coisas para que isso não dê conotação de que esse governo está estimulando o desmatamento. Se ele não está fazendo isso, há necessidade de parar de indicar isso. Há necessidade de recuperar a força do Ibama, que já estava frágil, a governança da questão do desmatamento que acabou sendo desmantelada nesse governo, em especial no Ministério do Meio Ambiente, responsável pelo PPCDAM”, continua a pesquisadora. 

O procurador da República Daniel Azeredo, que há anos atua com crimes ambientais na Amazônia, concorda que os caminhos são bem conhecidos. “Temos um histórico de medidas de mais de dez anos que mostram o que funciona. O primeiro e mais básico e óbvio é ter equipes de fiscalização de maneira permanente nos municípios que mais desmatam, exercendo o poder de atuação de modo completo, tanto multando e embargando quanto fazendo a retirada e apreensão de produto ilegal, como gado, grão, madeira. Isso é roubo produzido em área ilegal em patrimônio público”, diz.

“Com os números anunciados agora, fica clara a urgência. O governo precisa mostrar que não tem tolerância e que isso seja dito para a sociedade: quais são as ações efetivas que serão tomadas para que o desmatamento caia.” Neste ano, força-tarefa de investigação do Ministério Público sobre crimes ambientais na Amazônia revelou que há elaboradas organizações criminosas por trás do desmatamento, que têm ganhos milionários e envolvem corrupção, formação de quadrilha, trabalho escravo, violência, grilagem, roubo de madeira.

A pesquisadora Mercedes Bustamante, da Universidade de Brasília (UnB), pondera que a série histórica de desmate indica que, mesmo com todo o sucesso dos mecanismos de comando e controle, ainda se permanecia com uma taxa residual de supressão da floresta, o que já indicava a necessidade de avançar mais nos mecanismos de desenvolvimento sustentável.  “Os dados recentes, infelizmente, mostraram claramente o efeito do relaxamento nos mecanismos de comando e controle e nenhum avanço em novos instrumentos que pudessem avançar além dos patamares anteriores de redução”, comentou. Para ela, a gestão federal "destruiu importantes relações de confiança com várias partes interessadas", que poderiam trabalhar em "soluções inovadoras".

“No entanto, o primeiro passo para trabalhar o futuro é indicar clara vontade política de priorizar e implementar ações concretas de conservação da floresta, restabelecer e aprimorar os espaços de diálogo e de proposição de ações. Sem isso, e sem uma liderança com capacidade técnica e de coordenação, dificilmente vamos mudar o quadro instalado”, afirmou Mercedes.

O economista Ricardo Abramovay, da Universidade de São Paulo (USP), concorda com Mercedes: “A grande chance de mudar o jogo está numa aliança entre ativistas, populações tradicionais, empresários que já investem na economia da floresta em pé e governadores que percebem o imenso prejuízo para seus Estados da economia da destruição da natureza”, disse. “Enquanto a Mesa Redonda da Soja Responsável (organização internacional que reúne 7 mil produtores no Brasil, na Argentina, nos EUA, na China, em Moçambique, entre outros países) preconiza desmatamento zero (inclusive desmatamento legal zero), aqui a Aprosoja recebe apoio do governo (do secretário especial para Relacionamento Externo da Casa Civil) ao entrar no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (o Cade) contra a moratória da soja. Ao mesmo tempo, o governo quer rever o zoneamento da cana-de-açúcar permitindo sua implantação no Pantanal e na Amazônia (o que é técnica e economicamente inviável)”, enumera. 

“Isso se soma a um discurso em que protagonistas de atividades ilegais, como invasão de terras indígenas e de unidades de conservação (garimpeiros, grileiros e madeireiros ilegais) são recebidos por autoridades governamentais como se fossem empreendedores e não autores de delitos”, pontua o pesquisador.

“Não há a menor dúvida de que esse desmatamento, ao contrário do que disse o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente), foi incentivado, sim, pelo posicionamento do governo. É só notar que a taxa do Deter de janeiro a setembro deste ano foi quase o dobro do mesmo período do ano passado. O governo claramente deixou de agir como deveria”, afirmou Ricardo Galvão, ex-diretor do Inpe. Galvão esteve no centro da crise internacional gerada no final de julho, quando o Deter, sistema em tempo real do Inpe indicava para o aumento e Bolsonaro disse que os dados eram mentirosos e que Galvão estaria “a serviço de alguma ONG”.

Ministro nega elo entre desmate e declarações do governo Bolsonaro

Na coletiva em que apresentou os dados nessa segunda, o ministro Salles rechaçou a conexão entre o aumento do desmate e as declarações de integrantes da gestão Bolsonaro, entre elas as acusações de existir uma "indústria da multa" e prometer liberação de mineração em terras indígenas. Disse que são os "motivos conhecidos" de sempre que levaram à perda da floresta.

"De 2012 para frente, é por pressão das atividades econômicas – grande parte delas ilegais – sobre a floresta e por isso precisamos justamente de estratégias de alternativa econômica para a região. Está demonstrado com sete anos de aumento de desmatamento que alguma coisa estruturante precisa ser feita e vamos discutir isso na quarta", afirmou. Ele citou como exemplo as atividades de garimpo ilegal, extração de madeira ilegal e ocupação do solo de maneira ilegal, que, segundo ele, estão na floresta e acontecem há muitos anos.

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