Emissões de gases de efeito estufa do Brasil ficam estáveis em 2018

Emissões de gases de efeito estufa do Brasil ficam estáveis em 2018

Apesar de o desmatamento da Amazônia ter subido, o que colabora com o aumento das emissões em uso da terra, houve redução na área de energia; expectativa para 2019, porém, é de retomada do crescimento

Giovana Girardi

05 de novembro de 2019 | 10h00

As emissões de gases de efeito estufa no Brasil ficaram praticamente estáveis no ano passado, com flutuação de apenas 0,3% em relação a 2017. Apesar de ter ocorrido um aumento no desmatamento da Amazônia, que colaborou para a liberação de mais gás carbônico (CO2) no setor de uso do solo, houve queda nas emissões provenientes de energia, equilibrando a conta.

É o que aponta o mais recente relatório do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (Seeg), do Observatório do Clima, divulgado nesta terça-feira, 5. O cálculo anual, feito por cientistas de diversas instituições, é independente das contas oficiais do governo, mas considera a mesma metodologia.

Em 2018 as emissões brutas, de acordo com o levantamento, foram de 1,939 bilhão de toneladas de CO2, ante 1,932 bilhão em 2017. O aumento da concentração de gases de efeito estufa na atmosfera é o que está promovendo o aquecimento global e as mudanças climáticas.

Aumento do uso do etanol colaborou com a redução das emissões do setor de energia em 5% em 2018. Crédito: Tiago Queiroz / Estadão

O ano foi marcado por altas de um lado, mas reduções por outro. As emissões resultantes do aumento de 8,5% no desmatamento da Amazônia observado entre agosto de 2017 e julho de 2018 – na comparação com os 12 meses anteriores – foram em parte compensadas pela redução de cerca de 10% na destruição do Cerrado, o que fez as emissões por mudança de uso da terra crescerem somente 3,6%. O setor, porém, continua respondendo pela maior parte das nossas emissões – 44%.

Já em energia, o aumento de 13% no uso de etanol no Brasil – combustível mais limpo, que zera suas emissões quando a cana-de-açúcar cresce e consome o CO2 da atmosfera –, acabou resultando numa queda de 5% nas emissões do setor. “É segunda maior queda de um ano para o outro no setor na última década”, diz o engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador do Seeg. Em 2016, a queda foi de 7%, mas foi no auge da recessão brasileira.

Ainda no transporte, foi importante o aumento da presença de biodiesel, cujo consumo subiu 26% no ano passado. Acrescentado ao diesel, ele acabou reduzindo as emissões dos caminhões em 1,4%.

Estimativa de emissões brutas por setor no Brasil entre 1990 e 2018 de acordo com o Seeg

Também contribuiu para essa redução um aumento na presença de fontes renováveis, especialmente eólica, na geração de eletricidade. O ano teve mais chuvas, o que também favoreceu as hidrelétricas, de modo que o governo não teve de acionar muito as termelétricas.

Houve também uma leve queda nas emissões provenientes da agropecuária, de 0,7%, promovida pela diminuição do rebanho nacional que, segundo o IBGE, se deve ao aumento do abate de matrizes, em função do alto preço da carne no mercado internacional. Mais abate significa menos gado em campo, reduzindo as emissões. O setor, porém, representa a segunda maior fatia das emissões brasileiras – 25%.

E para o ano que vem, ainda não é possível saber se a tendência de queda vai se manter, uma vez que alguns Estados já estão aumentando seus rebanhos para continuar atendendo a essa demanda.

Boa ou má notícia?

Para Azevedo, a estabilidade das emissões brasileiras, se por um lado significa uma boa notícia, por outro lado indica um mau sinal. “Comparando com a trajetória do mundo, que é de alta, esta é uma boa notícia. Vários países estão com emissões ainda crescendo, EUA voltaram a subir um pouco, China também”, explica.

“Mas olhando as emissões per capita, nossa contribuição segue maior do que a global”, comenta. A do Brasil, em 2018, foi de 9,3 toneladas de CO2 por habitante por ano, enquanto a taxa mundial é de 7,2. “Nesse sentido, o Brasil piora a média global.”

Azevedo explica que em todo o mundo, para alcançarmos a meta de conter o aquecimento global a 1,5ºC até 2100, seria necessária uma emissão per capita de 1 tonelada por habitante por ano.

O pesquisador pondera ainda que as condições brasileiras permitiriam emissões menores. “Se olharmos o potencial da matriz energética, que está se limpando, nossas florestas e a agricultura, o País poderia estar em condição muito melhor do que a atual. Se zerasse o desmamento e as florestas estivessem em processo de recuperação, os pastos bem manejados, as emissões poderiam ser um terço das que temos hoje.”

Metas para 2020

Os pesquisadores do Seeg estimaram ainda se o Brasil deve chegar perto de cumprir sua meta de emissões para 2020, que foi estabelecida de modo voluntário pelo Brasil em 2009, por organização da Conferência do Clima de Copenhague. O objetivo é chegar, em valores totais, a algo em torno de 2 gigatoneladas de carbono, o que deve ocorrer. Mas uma análise por setor mostra que o cumprimento não será total.

Principal responsável pelas emissões brasileiras, o desmatamento da Amazônia deveria fechar 2020 em menos de 4 mil km2. Para este ano os números ainda não fecharam – o que deve ser fornecido pelo sistema Prodes, do Inpe, somente em dezembro –, mas a estimativa, com base nos dados de outro sistema, o Deter, que faz alertas de perda de floresta em tempo real, é de que a destruição da Amazônia tenha passado de 10 mil km2 entre agosto do ano passado e julho deste ano.

Para 2020, cujos valores começaram a ser contados em agosto deste ano, o cenário também é ruim. Em agosto, setembro e outubro (até o dia 24), o mesmo Deter já fez alertas para cerca de 3.555 km2.

“Como o Prodes sempre traz um valor maior, a não ser que o corte da floresta zere nos próximos meses, certamente não vamos cumprir essa meta”, disse Azevedo. Também devem contar negativamente as queimadas da Amazônia, que em agosto deste ano foram 196% mais altas que agosto de 2018.

Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima, ponderou que as reduções de emissões energia neste ano mostram que algumas políticas públicas têm o potencial de ajudar nas metas. É o caso de resolução da Agência Nacional do Petróleo (ANP), que estabelece um aumento gradual da presença de biodiesel no diesel.

Por outro lado, vem ocorrendo uma redução no programa que prevê ações na agricultura para que ela seja menos emissora, o chamado ABC (Agricultura de Baixo Carbono). “Em 2019, chegamos ao mais baixo repasse para o ABC. Apenas 0,9% do crédito agrícola destinado ao Plano Safra foi para o ABC. E esse programa é um ganha-ganha: o produtor ganha mais, reduz as emissões, diminui a pressão sobre a floresta.”

Rittl estima que o cenário para o ano que vem é muito ruim. “Desmatamento vai passar de cinco dígitos, o que não ocorre desde 2008, as queimadas da Amazônia agora caíram, mas o Pantanal está queimando como nunca. E não temos mais governança de clima no Brasil. Tudo isso ruiu, às vésperas de 2020, quando já deveríamos ter avançado na estratégia para cumprir as metas do Acordo de Paris”, diz.

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