DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO
DANIEL TEIXEIRA/ESTADÃO

Chuva escura em SP tem relação com queimadas, dizem especialistas

Fuligem e substância que só é produzida na queima de biomassa foram encontradas em amostras coletadas por moradores no dia em que capital teve 'anoitecer' às 15h30

Redação, O Estado de S.Paulo

21 de agosto de 2019 | 17h31

A água cinza e com forte cheiro de fumaça, coletada com a chuva no mesmo dia em que o céu de São Paulo escureceu às 15h30, foi resultado de queimadas das regiões Norte, Centro-Oeste e de países vizinhos. A conclusão é de duas pesquisadoras, que analisaram a água escura entregue por moradores da capital, e encontraram fuligem e uma substância que só é produzida com a queima de vegetação.

Para a professora Pérola de Castro Vasconcellos, pesquisadora do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), não há dúvida de que a coloração foi causada pela fumaça de incêndios em florestas. Isso porque na amostra havia quantidade importante de reteno, material que só é formado quando há queima de biomassa – árvores, troncos e matas, por exemplo.

“Se eu encontro o reteno em uma amostra, aquela amostra tem influencia de queimada”, diz Pérola. “Isso não vai vir da indústria, nem da queima de combustível.” 

A professora não mediu a quantidade do material na água – o que pode levar mais de um mês. Mas, segundo Pérola, a presença do componente e a coloração tão fora do comum deixam pouca dúvida de que o escurecimento da chuva tenha sido provocado pela queima de vegetação. 

A conclusão da professora Marta Marcondes, da Universidade de São Caetano do Sul,  é semelhante. Ela analisou quatro amostras coletadas no mesmo dia – duas em São Mateus, na zona leste da capital, uma em São Bernardo do Campo e outra em Diadema.

Apesar de não ter isolado o reteno, a análise de Marta encontrou outras evidências: altos índices de sulfetos – que são indicadores de queima – e também alta quantidade de material particulado, a fuligem. A quantidade de sulfetos na água era dez vezes maior do que o normal, segundo a professora.

“Aliado o resultado que eles tiveram lá ao que a gente viu aqui no laboratório, nós estamos acreditando que, realmente, esse material veio dessas queimadas”, disse Marta.

Mesmo após filtrar a água duas vezes, a amostra continua contaminada e com forte cheiro, dada a quantidade de material composto. Ela ainda deve analisar a quantidade de compostos com carbono e a presença de microorganismos, que podem indicar a origem da fumaça. 

Um relatório do Instituto Nacional de Metereologia (Inmet), divulgado na terça-feira, 20, diz que a névoa de fumaça tinha origem em queimadas que ocorrem simultaneamente em diferentes pontos da América do Sul. 

“Parte deste material é de origem local e oriundo da Amazônia, mas outra parte considerável, talvez a predominante, de queimadas de grandes proporções, originadas nos últimos dias perto da tríplice fronteira da Bolívia, Paraguai e Brasil, próximo da região de Corumbá, no Pantanal Sul-Matogrossense”, diz o relatório. O número de focos de queimada no País já é o maior desde 2013.

O relatório registra, ainda, que a fumaça pode ter contribuído para a escuridão em plena tarde. O documento cita dois estudos científicos sobre o efeito da fumaça na formação das nuvens. Elas provavelmente ficam mais espessas e refletem mais luz. 

Antes mesmo da formação de nuvens de chuva, uma claridade alaranjada na atmosfera já havia sido observada em cidades do interior, como Bauru, Botucatu, Presidente Prudente e Ribeirão Preto. Segundo o Inmet, isso também foi causado pela passagem da fumaça das queimadas. Na capital, o encontro das nuvens terminou no anoitecer precoce e na chuva contaminada. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.