‘Apontar erro no Inpe não significa que todo o sistema está errado’, diz Carlos Nobre

Principal climatologista do Brasil defende monitoramento do Inpe durante lançamento de relatório da Coalizão Brasil Clima Florestas e Agricultura que diz que sistema é o melhor do mundo

Giovana Girardi

09 de agosto de 2019 | 21h23

O climatologista Carlos Nobre, um dos maiores especialistas em Amazônia e em mudanças climáticas do Brasil, defendeu nesta sexta-feira, 9, o monitoramento feito pelo Inpe do desmatamento na Amazônia destacando que o País tem o melhor sistema do mundo para monitorar as florestas e o uso da terra.

A declaração foi feita durante lançamento de relatório “Brasil: inteligência e dados sobre cobertura e uso da terra”, organizado pela Coalizão Brasil Clima Florestas e Agricultura para avaliar a inteligência e os dados sobre cobertura e uso da terra no Brasil. O documento traz a mensagem dita pelo pesquisador e aponta ainda que o País não precisa de um novo sistema de monitoramento, mas de fortalecer os já existentes.

A coalizão reúne cientistas, ambientalistas e representantes do agronegócio em busca de conciliação entre proteção e produção.

O trabalho, iniciado durante um seminário sobre o tema em maio do ano passado, tinha como objetivo checar as tecnologias de sensoriamento remotos disponíveis no País e confrontar dados que vinham sendo divulgados na época e que apontavam para uma taxa de proteção de florestas no Brasil maior do que a observada pelos sistemas oficiais.

O lançamento ocorreu agora em meio a um intenso conflito do governo Bolsonaro contra os dados do desmatamento informados pelo Inpe, que culminou com a demissão de Ricardo Galvão do cargo de diretor do instituto. Alertas do sistema Deter, que detecta em tempo real a perda florestal para orientar a fiscalização do Ibama, indicam uma alta de 49,45% no consolidado de desmatamento dos últimos 12 meses, na comparação com os alertas registrados entre agosto de 2017 e julho de 2018.

“Há um ano, estávamos avaliando números falsos que estavam surgindo nas redes sobre o quanto tem de produção e quanto tem de proteção no País. Não imaginávamos que esse assunto estaria agora nesse nível de discussão”, disse Nobre, hoje ligado ao Instituto de Estudos Avançados da USP e membro do grupo estratégico da Coalizão.

Para ele, os questionamentos feitos na semana passada pelo ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles – que apontou em entrevista coletiva e num vídeo na internet possíveis falhas do Deter –, não possibilitaram uma resposta adequada por parte do Inpe.

“Em uma apresentação de power point, não dá para identificar onde são aqueles pontos (que ele está questionando). O Inpe já solicitou ao ministro que forneça os dados sobre onde são aquelas imagens para que possa dar uma resposta”, disse.

“De todo modo, é uma desinformação. O Deter coleta algumas dezenas de milhões de pontos por dia com os satélites que usa e essas informações são processadas por um algoritmo muito bem calibrado desenvolvido ao longo de 15 anos pelo Inpe e são enviadas imediatamente para o Ibama poder atuar”, explicou.

“Então existe uma margem de incerteza, que no sistema Deter é de 10% a 12%. É perfeitamente exequível que alguém mostre que o Deter não capturou corretamente um ponto, uma área que diz que foi desmatada e não foi e vice-versa, uma área que foi desmatada e ele não captou. Isso tudo está dentro dessa margem de incerteza. Mas não é correto pegar alguns pontos a posteriori, com uma análise refinada, com bastante tempo e dizer que o Deter não estava correto”, complementou o pesquisador.

Nobre defendeu ainda que os dados do Prodes, outro sistema do Inpe, mais preciso, que fornece a taxa anual oficial de desmatamento da Amazônia, deve confirmar a alta. “É muito provável que seja acima de 20% a 30% em relação aos 12 meses anteriores. Todos os sistemas, não só o Deter, estão mostrando um aumento na velocidade do desmatamento”, continuou.

Ele lembrou ainda que de fato o Deter não foi feito para dizer que o desmatamento foi algumas horas antes. “Ele pode realmente captar um desmatamento que ocorreu antes, porque havia cobertura de nuvens, mas é muito difícil negar que está havendo um aumento no ritmo do desmatamento.”

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