Ricardo Galvão é exonerado do Inpe após críticas de Bolsonaro a dados do desmatamento

Decisão ocorre após duas semanas de intensas críticas do governo federal aos dados do Inpe que mostram alta do desmatamento na Amazônia a partir de maio; alertas indicam aumento de 40% na perda da floresta em um ano

Giovana Girardi

02 de agosto de 2019 | 12h10

O diretor do Inpe, Ricardo Magnus Osório Galvão. Crédito: Divulgação / Inpe

O diretor do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), Ricardo Galvão, que esteve no centro da polêmica com o presidente Jair Bolsonaro sobre os dados que mostram alta do desmatamento da Amazônia, foi exonerado do cargo nesta sexta-feira, 2. A publicação ainda não foi feita em Diário Oficial, mas cientistas e a Procuradoria do Meio Ambiente já reagiram à exoneração.

O pesquisador estava no Inpe desde 1970 e cumpria mandato à frente do órgão até 2020. Ele deixa a direção do instituto após duas semanas de intenso bombardeio por parte do governo às informações do instituto que mostram que desde maio os alertas de desmatamento da Amazônia dispararam, atingindo em julho o valor mais alto desde 2015 para um único mês. O desmatamento observado pelos alertas entre agosto do ano passado até 31 de julho é 40% maior do que o período anterior.

A decisão, que já era esperada, foi anunciada por ele mesmo após reunião que teve com o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes.  “Diante da maneira como eu me manifestei com relação ao presidente, criou um constrangimento, ficou insustentável e eu serei exonerado”, afirmou Galvão a jornalistas que estavam em frente ao ministério após a reunião.

Em sua conta no twitter, Pontes mandou “abraços espaciais” a Galvão. “Agradeço, pela dedicação e empenho do Ricardo Galvão à frente do Inpe. Tenho certeza que sua dedicação deixa um grande legado para a instituição e para o país. Abraços espaciais”, escreveu.

No final da tarde, o ministério divulgou uma nota dizendo que agradece a Galvão “pelo profissionalismo à frente do instituto, pela condução dos projetos que gerenciou” e que “destaca o seu alto gabarito e currículo exemplar”.

A pasta afirma ainda que, para Pontes, “o Inpe é um instituto de grande relevância para sociedade brasileira, com imenso prestígio no Brasil e exterior, mantendo seu compromisso com as pesquisas e projetos que desenvolve”. E informou que a escolha do novo diretor “se dará de acordo com o mérito necessário ao cargo”.

Bolsonaro x Inpe

A polêmica começou com declarações de Bolsonaro no dia 19, quando, em encontro com jornalistas estrangeiros, ele acusou os dados do Inpe de serem “mentirosos” e insinuou que Galvão estaria “a serviço de alguma ONG”. Em entrevista ao Estado no dia seguinte, o pesquisador reagiu afirmando que a atitude do presidente foi “pusilânime e covarde”.

Os dias seguintes foram marcados por várias outras manifestações de Bolsonaro questionando as informações e dizendo que sua divulgação prejudica a imagem do País. Ele também afirmou que queria receber as informações antes de elas serem tornadas públicas.

Pontes também endossou o chefe e afirmou que compartilhava o estranhamento sobre os dados. Ele convocou Galvão a dar explicações, mas a reunião entre os dois só aconteceu nesta sexta.

Na quarta, técnicos do Inpe estiveram reunidos com Pontes e também com o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, para explicar como é feito o monitoramento. Após a reunião, Salles admitiu pela primeira vez, desde o início do imbróglio, que o desmatamento está em alta na Amazônia, mas voltou a falar que havia problema com os dados, como uma suposta duplicação de alertas e desmatamentos mais antigos que estariam sendo vistos somente agora.

Para fazer tais afirmações, Salles comparou os dados do Deter, o sistema de detecção em tempo real do desmatamento, com imagens de um outro sistema, chamado Planet, que foram compradas pelo Ibama. Os técnicos do Inpe explicaram como funciona a coleta de informações, que servem para nortear as ações de fiscalização do Ibama, e reafirmaram sua transparência e correção.

Mas na quinta Salles, dessa vez ao lado de Bolsonaro, voltou a falar que havia inconsistências, que poderiam ter como significado uma alta menos significativa do que a mostrada. E disse que vai contratar um novo sistema de monitoramento. Na entrevista coletiva, o presidente afirmou que poderia tomar uma decisão mais drástica.

“Se quebrar confiança vai ser demitido sumariamente, não tem desculpa para nenhum subordinado ao governo divulgar dado com esse peso de importância para o nosso Brasil. A questão de perder a confiança, no meu entender é uma pena capital. Nem na vida particular convivemos com pessoas que perdemos confiança. Temos muita responsabilidade em identificar se houve má fé ou não”, disse.

O Inpe em nenhum momento divulgou os dados para a imprensa. As informações de alertas do Deter podem ser vistas no site Terrabrasilis depois que são encaminhadas para o Ibama.

Em nota divulgada após a coletiva, o instituto afirmou que “reafirma sua confiança na qualidade dos dados produzidos pelo Deter”. Informou ainda que “os alertas são produzidos seguindo metodologia amplamente divulgada e consistentemente aplicada desde 2004” e que “é amplamente sabido que ela contribuiu para a redução do desmatamento na região amazônica, quando utilizada em conjunto com ações de fiscalização”.

Na nota, o órgão afirmou também que não teve acesso prévio à análise feita por Salles, mas que seus técnicos responderam a todas as questões apontadas na apresentação. “De antemão, o Inpe avalia que o estudo apresentado corrobora a metodologia do Deter, pois os alertas de desmatamento mostrados se tratavam de fato de áreas desmatadas. Qualquer comparação dos resultados do Deter com resultados de metodologias ou imagens distintas deve ser aprofundada, e requer uma avaliação mais completa.”

Após o encontro com Pontes nesta sexta, Galvão disse que concordou com a decisão pela sua saída e que sua maior preocupação no encontro era que a crise não respingasse no Inpe. “Isso não vai acontecer. Discutimos em detalhes como vai ser a continuação da administração do Inpe.” Segundo o pesquisador, ele não precisou defender os dados o Inpe diante do ministro. “Ele concorda com os dados do Inpe, sabe como funciona.”

(Atualizado às 17h32 com posicionamento do MCTIC)

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