Desastres naturais custaram ao Brasil R$ 182 bi em 20 anos
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Desastres naturais custaram ao Brasil R$ 182 bi em 20 anos

Estudo calculou os prejuízos causados por secas, estiagens, inundações e enxurradas que atingiram o País entre 1995 e 2014, uma média de R$ 800 milhões por mês. Crescimento desordenado das cidades e aquecimento global, que aumenta a frequência e intensifica eventos extremos, são possíveis causas

Giovana Girardi

10 Março 2017 | 03h00

A cidade de Teresópolis foi uma das mais afetadas pelas fortes chuvas que atingiram a região serrana do Rio, matando mais de 900 pessoas. Crédito: Fabio Motta / Estadão

A cidade de Teresópolis foi uma das mais afetadas pelas fortes chuvas que atingiram a região serrana do Rio, matando mais de 900 pessoas. Crédito: Fabio Motta / Estadão

Prejuízos causados por desastres naturais no Brasil custaram pelo menos R$ 182,8 bilhões – uma média de R$ 800 milhões por mês –, entre 1995 e 2014. Os números fazem parte do mais completo mapeamento da quantidade de eventos meteorológicos, como secas, estiagens, inundações e enxurradas, que atingiram o País nesse intervalo de 20 anos e o impacto financeiro que eles tiveram.

Estão incluídas na análise tragédias como as enchentes e deslizamentos de terra que atingiram a região serrana do Rio de Janeiro, em 2011, deixando 918 mortos, além das inundações no Vale do Itajaí (SC), em novembro de 2008; em São Luiz do Paraitinga (SP), em janeiro de 2010 e a seca que atinge várias cidades do Nordeste brasileiro desde 2013. Minas Gerais foi o Estado com mais registros e o Rio Grande do Sul, o líder em prejuízos (leia mais sobre o que faz da região tão vulnerável).

Os autores do trabalho, realizado pelo Centro de Estudos e Pesquisas sobre Desastres (Ceped) da Universidade Federal de Santa Catarina, com apoio do Banco Mundial, afirmam, no entanto, que os resultados são reconhecidamente subestimados. Isso ocorre porque os dados disponíveis sobre os eventos climáticos e seus possíveis danos materiais são limitados.


Para este estudo, os pesquisadores levaram em conta as informações reportadas pelas Defesas Civis municipais aos Estados e à União, que em geral só são feitas nos casos mais graves, em que o município sozinho não consegue lidar com o desastre e precisa de ajuda financeira. E consideraram somente impactos diretos.

“É só a ponta do iceberg e ainda assim estamos falando de uma média de R$ 800 milhões por mês. Que é, para se ter uma ideia, mais ou menos o gasto que se tem com caminhão pipa por ano no Nordeste. É um número que deveria chamar a atenção do poder público”, afirma Frederico Ferreira Pedroso, especialista do programa de Gestão de Riscos de Desastres do Banco Mundial.

Uma outra pesquisa feita pelo Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, lançada no final de 2015, havia estimado os custos dos desastres naturais entre 2002 e 2012 em até R$ 355 bilhões. A metodologia foi um pouco diferente, explica Carlos Eduardo Young, que liderou o trabalho, uma vez que se baseou nos prejuízos totais de quatro desastres de alta gravidade no Rio, em Alagoas, em Pernambuco e em Santa Catarina e os extrapolou para o resto do País.

Young reconhece que, por causa disso, o resultado pode ter sido superestimado. “Mas esse trabalho de agora me deixa muito feliz porque tem muito mais informações que o nosso. E apesar de trazer uma subestimativa, é coerente com as nossas conclusões e confirma que os danos estão crescentes e são mais relevantes”, explica Young.

Mais frequentes e intensos. De acordo com o estudo do Ceped, o problema vem se intensificando. Do total de 22.810 registros do Sistema Integrado de Informações de Desastres da Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil que foram analisados, 76% são referentes à segunda década de estudo (veja infográfico abaixo), que também concentrou 82% do valor dos danos e prejuízos.

Custos_desastres

Os autores ponderam que houve uma melhoria na notificação dos desastres, mas defendem que isso explica apenas em parte o aumento dos registros ao longo dos anos. A conclusão é que a frequência dos eventos e as perdas também estão aumentando.

“Num horizonte de apenas 20 anos, verificamos que a primeira década teve menos eventos e, proporcionalmente, eles foram menos danosos que na segunda”, afirma Rafael Schadeck, pesquisador do Ceped e organizador do levantamento. Enquanto na primeira década o valor por evento, em média, foi de R$ 5,84 milhões, na segunda década do estudo essa relação aumentou para R$ 8,71 milhões.

Para os autores, um dos motivos para isso é o crescimento desordenado das cidades e o que eles chamam de “aumento da exposição” aos riscos. “O problema é que as cidades estão crescendo para onde não deveriam. A gente vai se colocando em uma situação cada vez mais complicada. O planejamento urbano tem de levar isso em conta para permitir uma efetiva prevenção”, defende Pedroso.

Não é à toa que um dos principais prejuízos contabilizados no trabalho são os que ocorreram nas moradias das pessoas, Ao longo dos 20 anos, em todo o País, mais de 1,8 milhão de habitações foram danificadas e mais de 185 mil foram destruídas, com Santa Catarina liderando no primeiro caso e o Rio, no segundo. Os prejuízos desses danos superaram R$ 16 bilhões.

Planeta quente. Além da melhora da notificação e do aumento da exposição das cidades, para completar o quadro do problema também é fato que os eventos extremos – como tempestades intensas e concentradas e secas severas e duradouras – estão mais frequentes. É uma tendência em todo o mundo e está cada vez mais relacionada com o aquecimento global e as mudanças climáticas, como apontou o relatório O Clima Global 2011-2015, divulgado pela Organização Meteorológica Mundial no final do ano passado.

Outros levantamentos mostram que o problema é global. No final do ano passado, o Banco Mundial estimou em US$ 520 bilhões os custos anuais em todo o mundo com desastres naturais. A Noaa (agência americana para oceanos e atmosfera) calculou que de 1980 a 2016 os EUA tiveram 203 eventos extremos que resultaram em custos de US$ 1,1 trilhão.

A atmosfera mais quente atrapalha o complexo regime de interações de ventos e correntes que vêm da Antártida e da Amazônia e acaba por provocar os eventos extremos de calor e frio, de seca e de chuva. Os últimos três anos bateram recordes consecutivos como os de maior temperatura média desde o início dos registros, em 1880. Dos 16 anos mais quentes da história, com exceção de 1998, todos estão nos anos 2000.

A tendência para o futuro, explica o climatologista Francisco Aquino, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Estado que liderou os prejuízos no País –, é que com o planeta mais quente esses eventos extremos fiquem mais intensos e frequentes. “Considerando o cenário atual de emissões de gases de efeito estufa (que são os responsáveis pelo aquecimento do planeta), a próxima década deverá ser ainda mais intensa em desastres naturais”.

Daí a recomendação do relatório do Ceped: “É de vital importância a inserção, de forma ativa e articulada, da gestão de riscos e de desastres na agenda dos governos e da sociedade”.

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