Eventos extremos estão cada mais relacionados às mudanças climáticas

Eventos extremos estão cada mais relacionados às mudanças climáticas

Segundo a Organização Meteorológica Mundial, de 79 eventos extremos que ocorreram de 2011 a 2015, mais da metade foi relacionada em algum grau às mudanças climáticas; no Brasil, foi apontada a seca da Amazônia entre 2014 e 2015 como um exemplo, já para a seca em São Paulo o estudo apontou que não há evidências claras, mas ela foi piorada pelo aumento da vulnerabilidade na região

Giovana Girardi

08 Novembro 2016 | 09h02

(Atualizada às 18h06)

Uma das previsões dos cientistas para um mundo mais quente é que serão cada vez mais frequentes e intensos os chamados eventos extremos – muito frio ou muito calor; chuvas e nevascas intensas ou secas severas. Mas já podem ser atribuídos às mudanças climáticas alguns desses eventos que têm ocorrido em uma quantidade maior do que antes? A Organização Meteorológica Mundial (OMM) acaba de dar um parecer positivo neste sentido.

Represa seca no sistema Cantareira, em 2014. Impacto do evento foi maior pelo aumento da vulnerabilidade na região. Crédito: Tiago Queiroz / Estadão

Represa seca no sistema Cantareira, em 2014. Impacto do evento foi maior pelo aumento da vulnerabilidade na região. Crédito: Tiago Queiroz / Estadão

O relatório O Clima Global 2011-2015, divulgado nesta terça-feira (8) na 22.ª Conferência do Clima da ONU, que é realizada em Marrakesh, apontou que há cada vez mais evidências relacionando um com o outro. Eles analisaram situações desse período – os cinco anos mais quentes já registrados, com 2015 ocupando o primeiro lugar – e concluíram que em muitas delas é visível a pegada humana.


Foram examinados 79 eventos extremos individuais que ocorreram nesses cinco anos e, de acordo com a OMM, mais da metade revelou que as mudanças climáticas induzidas pelo homem contribuíram para o evento extremo em questão. Alguns estudos mostraram que a probabilidade de calor extremo aumentou 10 vezes ou mais. Veja infográfico abaixo.

Para chegar a essa conclusão eles fazem os chamados “estudos de atribuição”, em que trabalham com simulações de um evento para uma dada região. Em uma primeira, eles consideram somente as chances de esse evento ocorrer por causas naturais. Depois eles fazem o cálculo levando em conta as mudanças no clima provocadas pelo homem. Na sequência, comparam as duas simulações com o que ocorreu de fato, o que permite estimar as chances de terem sido resultado da interferência humana no clima.

O trabalho analisou pelo menos três eventos no Brasil: a enxurrada com deslizamento de terra no Rio de Janeiro, em 2011 (considerado o evento único deste tipo que teve mais mortes no mundo: mais de 900), a seca em São Paulo, entre 2013 e 2015, e a seca na Amazônia entre 2014 e 2015.

Nos três casos, assim como valeu para quase todas as situações de extremos de precipitação (tanto altos quanto baixos) analisadas no relatório, a OMM considerou que não houve sinais diretos tão fortes de relação com a mudança do clima. Mas ao menos para a seca amazônica a organização mencionou uma “considerável preocupação” de que pode se tratar de um “ponto de inflexão” – ou ponto de virada, em que a situação não tem mais retorno.

“Apesar de ainda não poder se declarar com confiança que se trata de uma tendência de longo prazo, as temporadas de secas intensas e quentes da Bacia Amazônica do Brasil em 2014 e 2015 são motivo de preocupação como possíveis pontos de inflexão no sistema climático”, aponta o relatório, que lembra que a precipitação em Manaus entre junho e outubro de 2015 foi 58% abaixo do normal.

“Embora esta seja normalmente a época mais seca do ano, a precipitação ainda é de 50 a 100 mm por mês, mas os totais de chuvas de 2015 eram mais típicos da estação seca de um clima de savana do que um clima de floresta tropical”, pontua o documento. “As condições secas, com temperaturas geralmente 2°C a 3°C acima do normal, contribuíram para a atividade de fogo muito alta, com o número de incêndios no estado do Amazonas em 2015 em níveis recordes”, continua.

São Paulo. Sobre a seca de São Paulo, o estudo foi inconclusivo. “Ainda não foi encontrada uma evidência clara”, apontam os pesquisadores. Mas eles alertam que a gravidade do caso foi piorada por ações antrópicas, que aumentaram a vulnerabilidade da região.

“A (baixa) precipitação durante o evento não foi extraordinária. Déficits semelhantes ou maiores de 14 meses ocorreram em outras três ocasiões desde 1940, mas os impactos foram exacerbados por um aumento substancial na demanda por água, devido principalmente ao crescimento populacional”, diz o relatório.

“Todos os eventos de falta ou excesso de chuvas fazem parte da variabilidade natural do clima. Mas se considerarmos os impactos, ou seja os desastres naturais, isso em certa forma tem a ver com ações humanas, pois o fato de construir em áreas de risco ou expostas aos extremos de chuva pode levar a desastres naturais que matam pessoas, como ocorreu no Rio, ou gerar crises de escassez de água, como em São Paulo, Amazônia ou Nordeste”, explica o climatologista José Antonio Marengo, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), que analisou o relatório a pedido do Estado.

“No caso da crise hídrica de São Paulo, quando em janeiro de 2014 choveu somente 30% do esperado, menos água não foi o suficiente para aplacar a sede de uma população cada vez maior, com sistemas de armazenamento e distribuição ultrapassados e cheio de falhas e sem um bom gerenciamento de água”, complementa.

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Mundo. Para o mundo, o trabalho concluiu que os casos de temperaturas extremas são os mais facilmente associados às alterações climáticas induzidas pelo homem. Os exemplos incluem o recorde de temperaturas sazonais e anuais nos Estados Unidos em 2012 e na Austrália em 2013, os verões quentes na Ásia Oriental e Europa Ocidental em 2013, ondas de calor na primavera e outono de 2014 na Austrália, calor recorde anual na Europa em 2014 e uma onda de calor na Argentina em dezembro de 2013.

Os eventos de maior impacto foram a seca da África Oriental entre 2010-2012, que estima-se ter matado 258.000 pessoas; inundações no Sudeste Asiático em 2011, que mataram 800 pessoas e causaram mais de US$ 40 bilhões em perdas econômicas; as ondas de calor de 2015 na Índia e no Paquistão, que tiraram mais de 4.100 vidas; o furacão Sandy em 2012 que causou US$ 67 bilhões em perdas econômicas nos Estados Unidos da América, e o tufão Haiyan que matou 7.800 pessoas nas Filipinas em 2013.

“O Acordo de Paris visa limitar o aumento da temperatura global bem abaixo de 2°C e perseguir esforços em direção a 1,5°C. Este relatório confirma que a temperatura média em 2015 já atingiu a marca de 1°C. Acabamos de ter o período de cinco anos mais quente nos registros históricos, com 2015 com o título de ano mais quente. Até mesmo esse recorde provavelmente será superado em 2016”, afirmou em comunicado à imprensa o secretário-geral da OMM, Petteri Taalas.

“Os efeitos das mudanças climáticas têm sido consistentemente visíveis na escala global desde a década de 1980: aumento da temperatura global, tanto sobre a terra como sobre o oceano; aumento do nível do mar; e derretimento generalizado do gelo. Aumentaram os riscos de eventos extremos, como ondas de calor, secas, chuvas recordes e inundações danosas”, disse.

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