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Aquecimento global é tri: 2016 bate novo recorde de temperatura
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Aquecimento global é tri: 2016 bate novo recorde de temperatura

Temperatura média do planeta no ano passado foi 0,94°C mais alta que a média do século 20, o que colocou 2016 como o ano mais quente desde o início dos registros, superando 2015; é a terceira quebra de recorde consecutiva, algo inédito na história da meteorologia

Giovana Girardi

18 Janeiro 2017 | 13h42

(Atualizada às 20h21)

Se fosse um atleta, o aquecimento global estaria no nível de Usain Bolt. Acaba de quebrar seu terceiro recorde seguido ao colocar 2016 como o ano mais quente da história. A temperatura média do planeta no ano passado foi 0,94°C mais alta que a média registrada no século 20, batendo 2015, que por sua vez já tinha batido 2014, os dois recordes anteriores. É o valor mais alto em 137 anos.

Termômetro registra 39ºC no Largo da Batata, em Pinheiros, em 19/10/2016. Crédito: Renato Cerqueira / Futura Press

Termômetro registra 39ºC no Largo da Batata, em Pinheiros, em 19/10/2016. Crédito: Renato Cerqueira / Futura Press

Os dados foram divulgados nesta quarta-feira (18) pela agência de oceanos e atmosfera dos EUA (Noaa). E confirmados de modo independente também pela OMM (Organização Meteorológica Mundial), pela agência espacial americana (Nasa) e pelo Met Office, do Reino Unido, com algumas pequenas variações. De acordo com a OMM, por exemplo, a temperatura média em 2016 foi 1,1°C superior à média pré-industrial. Já a Nasa apontou uma elevação de 0,99°C em relação à média de 1951 a 1980.

Segundo os dados da Noaa, é a primeira vez na história dos registros de temperatura, iniciados em 1880, que três recordes de temperatura mais alta são quebrados na sequência, apresentando sinais cada vez mais claros de que o ritmo do aquecimento global promovido pela alta concentração de gases de efeito estufa na atmosfera está cada vez mais intenso, apesar de o ano passado e o anterior também terem sofrido com um forte fenômeno El Niño.

“Um único ano quente é uma curiosidade. Mas a tendência (de crescimento) e o fato de que estamos quebrando recordes ano após ano agora são o real indicador de que estamos passando por grandes mudanças”, disse Deke Arndt, chefe de monitoramento climático global da Noaa, em coletiva à imprensa.

Isso fica ainda mais evidente olhando os valores ao longo das décadas. Desde 1976, a temperatura média do planeta não fica abaixo da média histórica do século 20. Dos 16 anos mais quentes da história, com exceção de 1998, todos estão nos anos 2000. Sendo que os cinco mais quentes ocorreram na última década (2013, 2010, 2014, 2015 e 2016, em ordem de crescimento). É também a quinta vez neste século que o recorde de temperatura é quebrado (2005, 2010, 2014, 2015 e 2016).

Temperatura média do planeta em 2016

Além disso, todos os meses entre maio de 2015 até agosto de 2016 foram a edição mais quente daquele mês desde o início dos registros. Sendo que julho e agosto do ano passado também foram os meses mais quentes de todos os meses na história meteorológica, de acordo com a Noaa.

Os recordes seguidos aproximam o planeta perigosamente os limites estabelecidos pelo Acordo de Paris. Concluído em dezembro de 2015, o acordo entrou em vigor em novembro do ano passado. Ele define que os países têm de reduzir suas emissões de gases a fim de manter o aumento da temperatura do planeta bem abaixo de 2°C até o final do século, com esforços para ficar em 1,5°C – esse valor parece cada vez mais impossível.

Extremos. Os cientistas lembram que a temperatura apresentada é uma média global, que faz um balanço entre a temperatura na terra e no oceano, mas que alguns lugares já apresentaram situações bem mais dramáticas.

“O Ártico esteve muito quente, totalmente fora dos padrões em comparação com todo o resto”, comentou também na coletiva de imprensa Gavin Schmidt, diretor do Instituto Goddard de Estudos Espaciais da Nasa.

Para o físico brasileiro Paulo Artaxo, da USP, que estuda a ciência do clima, além do aquecimento contínuo do planeta, chama a atenção que estamos testemunhando a intensificação dos eventos extremos. “Secas intensas, ondas de calor brutais como as que tivemos no começo do mês em São Paulo e no Rio. Esse frio extremo com ar polar na Europa. Esses eventos extremos estão se intensificando visivelmente e trazem impactos socioeconômicos enormes”, disse ao Estado, comentando os novos números.

“A verdade é que o aumento da temperatura está ocorrendo muito mais rápido do que a ciência imaginava com base nos modelos climáticos. Apesar de eles terem melhorado muito, ainda são limitados em incluir todos os processos importante. Ainda não representam totalmente a natureza. E os efeitos do aquecimento também estão ocorrendo mais rapidamente do que os modelos previam”, complementou.

Efeito Trump. Artaxo destaca também a nova geopolítica climática com a posse de Donald Trump nesta sexta na presidência dos Estados Unidos. O magnata se manifestou várias vezes como um negacionista do problema, disse que o aquecimento global foi inventando por chineses, falou que iria “cancelar” o Acordo de Paris e convidou para o governo pessoas que aparentemente compartilham dessa opinião. O novo secretário de Estado, por exemplo, – Rex Tillerson – era CEO da Exxon Mobil, companhia de petróleo.

Já a escolha de Trump para dirigir a Agência Ambiental Americana (EPA), Scott Pruitt, defendeu nesta quarta-feira, em audiência no Senado americano, que ainda há “algum debate” sobre o papel das atividades humanas nas mudanças climáticas e defendeu sua relação com a indústria de combustível fóssil. A EPA é justamente o órgão responsável por controlar as emissões do setor de energia no país.

“Apesar de China e União Europeia continuarem com discursos de que as energias renováveis e a redução de emissão de gases de efeito estufa são um caminho sem volta, essa mudança nos Estados Unidos é um revés importante e pode ter consequências imprevisíveis”, disse Artaxo.

Preocupa a possibilidade de que os Estados Unidos não cumpram suas metas de redução de emissões estabelecidas como contribuição ao Acordo de Paris. O país é o segundo maior emissor de CO2, atrás somente da China. Considerando a contribuição histórica ao problema, os americanos são líderes.

“Os dados (de aumento da temperatura) não eram inesperados, mas mesmo assim chocam. Eles marcam o que pode ser uma nova fase de aceleração do aquecimento global, ao mesmo tempo em que o segundo maior emissor do planeta ameaça reverter sua determinação rumo à implementação do Acordo de Paris. A atmosfera infelizmente não está nem aí para as nossas dificuldades políticas ou para se nós acreditamos ou não no aquecimento global; ela simplesmente esquenta”, comentou, em nota à imprensa, o secretário-executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl.

Entenda, no vídeo abaixo, a relação entre as emissões de gases de efeito estufa e o aquecimento global.

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