Kim Kyung-Hoon/Reuters
Kim Kyung-Hoon/Reuters

O que não se diz sobre mudanças climáticas

Parar emissão de dióxido de carbono não basta. Ele precisa ser sugado, para que as promessas de Paris não sejam em vão

The Economist

23 Novembro 2017 | 07h00

Há dois anos, o mundo comprometeu-se a manter o aquecimento global sob controle. Cientistas do clima e ativistas comemoraram. Políticos deram-se tapas nas costas. Apesar das ambiguidades do Acordo de Paris e de alguns contratempos, incluindo a decisão do presidente Donald Trump de retirar os Estados Unidos do acordo, o ar de autocongratulações ainda era visto entre os que se reuniram em Bonn neste mês na cúpula de acompanhamento.

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No entanto, o que há de mais prejudicial quanto ao entusiasmo súbito dos Estados Unidos pela rejeição ao combate das mudanças climáticas pode não ser apenas o efeito sobre as próprias emissões, que poderá ser considerado ínfimo. O problema é a cobertura que os EUA deram a outros países no fato de evitar reconhecer a existência dos problemas.

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O Acordo de Paris pressupõe que o mundo encontrará maneiras de sugar CO2 para fora do ar. Isso ocorre porque, em qualquer cenário realista, as emissões não podem ser reduzidas rápido o suficiente para manter o estoque total de gases de efeito estufa suficientemente reduzido para limitar o aumento da temperatura com sucesso. Mas quase não há discussões públicas sobre como promover as “emissões negativas” adicionais necessárias para reduzir o estoque (e ainda menos sobre a ideia mais radical de baixar a temperatura bloqueando a luz solar). 

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Ao todo, 101 dos 116 modelos que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas usa para traçar o que está por vir pressupõem que o carbono será retirado do ar para que o mundo tenha uma boa chance de atingir a meta de esquentar até 2° C. A quantidade total de CO 2 a ser absorvido até 2.100 poderia ser um impressionante total de 810 bilhões de toneladas, tanto quanto a economia mundial produz em 20 anos em taxas atuais. Colocar em ação esquemas de remoção de carbono nesta magnitude seria esforço épico, mesmo com técnicas testadas.

Elas não existem. Algumas centrais elétricas e instalações industriais capturam CO2 que de outra forma acabaria no ar e o armazenam no subsolo, uma prática conhecida como captura e armazenamento de carbono. Mas essa abordagem há muito tempo considerada para o corte de emissões ainda opera apenas em uma escala muito pequena, lidando com só algumas dezenas de milhões de toneladas por ano. E tais esquemas apenas reduzem as emissões; não as revertem.

O que poderia fazer isso? Uma das opções é plantar mais florestas ou substituir o arado profundo de campos por lavoura superficial (o que ajuda os solos a absorver e reter mais CO2). Outra é aplicar a captura e armazenamento de carbono a usinas de energia de queima de biomassa, armazenando o carbono absorvido por culturas ou árvores queimadas como combustível. 

Existem ideias mais divertidas. O carbono poderia ser captado diretamente do ar, com o uso de filtros químicos e armazenado. Ou os minerais poderiam ser moídos e semeados sobre terra ou mar, acelerando o processo natural de meteorização que os liga ao CO2 para formar rochas carbonatadas.

Não se sabe se alguma dessas tecnologias poderá fazer o trabalho em tempo. Todas são muito caras e nenhuma tem comprovação de escala. Parece altamente improvável persuadir a crescente população da Terra a plantar novas árvores que compensem as emissões de uma Índia ou culturas para produzir energia, como as simulações climáticas exigem.

Alterar as práticas agrícolas seria mais barato, mas os cientistas duvidam que isso sugue quantidade suficiente mesmo para compensar os gases de efeito estufa liberados pela agricultura. A captura direta de ar e o processo melhorado de meteorização usam menos terras, mas ambos são mais caros. Embora a energia renovável possa gerar lucrativamente uma parcela justa da eletricidade mundial, ninguém sabe como enriquecer simplesmente pela remoção de gases de efeito estufa.

Quando a necessidade é grande, a ciência é incipiente e faltam os incentivos comerciais, a tarefa cabe ao governo e às fundações privadas. Mas eles estão escasseando. Cerca de US$ 15 bilhões por ano são destinados a pesquisas sobre todas as tecnologias com baixas emissões de carbono. Esse volume precisa aumentar, e mais deve ser canalizado para a extração de carbono.

Negação climática

Um grande mercado de CO2 criaria incentivo extra para extraí-lo da atmosfera. Mas seus usos ainda são limitados. Se os reguladores forçarem indústrias que não podem se converter para a eletricidade, como a aviação, a usar combustíveis sintéticos em vez de fósseis, a demanda pelo CO2, que é a matéria-prima para esses combustíveis, poderia aumentar muito. As indústrias, no entanto, poderão resistir.

Se o mercado não fornecer incentivo, os governos deveriam. O exemplo para um preço adequado em carbono (TheEconomist preferiu um imposto) é forte. Sua ausência é uma das razões pelas quais a captura e o armazenamento de carbono não decolaram como forma de reduzir as emissões das usinas de combustíveis fósseis; o kit necessário pode duplicar o preço da eletricidade. No entanto, estabelecer um preço alto o suficiente para incentivar emissões negativas iria asfixiar a economia.

 

Os subsídios são outra opção. Sem eles, as energias renováveis levariam mais tempo para competir com combustíveis fósseis. Mas são um desperdício. A Alemanha produziu US$ 1 milhão em eletricidade com baixas emissões de carbono e, mesmo assim, ainda depende dos combustíveis fósseis para mais da metade de sua energia. Ainda assim, os governos podem oferecer uma recompensa por tonelada de CO2 extraída e armazenada. Em teoria, tal recompensa deve ser paga a partir de um fundo financiado por países de acordo com o histórico cumulativo de suas emissões (no topo vêm os Estados Unidos, seguidos pela Europa, com a China fechando rapidamente a lacuna). Na prática, não existe nenhum mecanismo para fazê-los contribuir.

De fato, enfrentar as deficiências de Paris está além da possibilidade da maioria dos governos. De fato, tirar dióxido de carbono da atmosfera não é uma alternativa para emitir mais gases do efeito estufa. É necessário por si próprio. A menos que os formuladores de políticas levem a sério a questão das emissões negativas, as promessas de Paris serão cada vez mais em vão.

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR CLAUDIA BOZZO, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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