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Metas de Brasil e outros 74 países reduzem em só 0,5% emissões e precisam ser refeitas, indica ONU

Metas de Brasil e outros 74 países reduzem em só 0,5% emissões e precisam ser refeitas, indica ONU

Análise feita sobre os metas entregues no ano passado por países que juntos representam cerca de 30% das emissões do planeta de gases que provocam o aquecimento global aponta que os compromissos estão muito fracos

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

26 de fevereiro de 2021 | 10h02

As metas apresentadas no final do ano passado por 75 países, entre eles o Brasil, para a redução das emissões de gases de efeito estufa até 2030 estão muito longe do necessário para conter o aquecimento global e precisam ser refeitas. O alerta foi feito nesta sexta-feira, 26, pela ONU, que divulgou uma análise dos compromissos entregues.

De acordo com o relatório, as propostas desses países, que juntos hoje representam cerca de 30% das emissões de gases de efeito estufa do planeta, serão suficientes para reduzir em apenas 0,5% as emissões até 2030 em relação aos níveis observados em 2010. Não foram incluídos nesse cálculos os dois maiores mundiais China e Estados Unidos porque eles não apresentaram novas metas no ano passado.

O valor é irrisório perto do que a ciência estima que seria necessário para conter os danos mais intensos da crise climática. De acordo com relatório lançado no fim de 2018 pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), para conter o aumento da temperatura média do planeta a 1,5°C até o fim do século a redução das emissões até 2030 deveria ser de 45%. Chegando a zero em 2050.

A análise foi feita em cima da revisão das chamadas NDCs (contribuições nacionalmente determinadas) que haviam sido apresentadas por cada país como contribuição ao Acordo de Paris, de 2015. Na ocasião, praticamente todos os países do mundo se comprometeram a fazer esforços para conter o aquecimento do planeta a bem abaixo de 2°C até 2100, com a tentativa de ficar em 1,5°C, valor considerado mais seguro.

Já naquele momento, porém, sabia-se que todas as NDCs juntas eram pouco ambiciosas e ainda colocavam o mundo no rumo de um aquecimento de cerca de 3°C. Já pelo Acordo de Paris ficou definido que as nações teriam de revisar suas metas e que cada nova meta deveria ser mais ambiciosa que a anterior.

A primeira revisão estava prevista para ocorrer na Conferência do Clima da ONU de 2020 (COP-26), que deveria ter ocorrido em Glasgow, na Escócia, mas foi adiada para este ano por causa da pandemia. Mas mesmo assim, a ONU pediu para que os países submetessem seus novos compromissos, o que foi feito por 75 deles. Na falta da COP, a ONU organizou em dezembro a Cúpula de Ambição Climática, para a qual os líderes dos países foram convidados a apresentar seus novos compromissos.

Os mais ambiciosos tiverem espaço para se manifestar o que não foi concedido ao Brasil, justamente porque os organizadores do evento não consideraram suficientes as metas climáticas divulgadas quatro dias antes do encontro pelo Ministério do Meio Ambiente. O Brasil é o 6º maior emissor do mundo, e a destruição das florestas responde pelo maior volume de emissões.

O ministro Ricardo Salles praticamente só confirmou as metas que játinham sido apresentadas pelo governo Dilma em 2015 e ainda condicionou seu cumprimento a ajuda estrangeira, coisa que não tinha acontecido antes.

No Acordo de Paris, a delegação liderada pela então ministra Izabella Teixeira estabeleceu que o País reduziria suas emissões em 37% até 2025, com base no que era emitido em 2010, e indicou que poderia chegar a 43% em 2030. A maior parte dessa redução se daria com o combate do desmatamento ilegal, que deveria ser zero até 2030. 

Salles, no fim do ano passado, confirmou os 43%, mas disse que isso dependeria de ajuda estrangeira, o que não foi bem visto internacionalmente, fazendo com que o País ficasse de fora do evento. A posição também foi criticada por empresas

A análise feita pela ONU não chega a apontar individualmente quais países deveriam ser ambiciosos, mas estudos parecidos feitos por outras organizações indicam quem não está fazendo a lição de casa. O Climate Action Tracker, por exemplo, afirma que, das principais economias que apresentaram novas metas, apenas Reino Unido, União Europeia, Argentina, Chile, Noruega, Quênia e Ucrânia representaram uma mudança de ambição.

Niklas Höhne, fundador do NewClimate Institute, organização especializada em políticas climáticas, teve a mesma leitura sobre de onde veio o maior impacto positivo. "Mas dez países apresentaram NDCs revisadas sem nenhuma melhoria na ambição ou mesmo retrocedendo: Austrália, Brasil, Japão, México, Nova Zelândia, Singapura, Coreia do Sul, Suíça e Vietnã", diz. 

"O Brasil apresentou uma NDC que efetivamente enfraquece suas já insuficientes metas de ação climática para 2025 e 2030", avalia o pesquisador em nota divulgada à imprensa. "Como resultado, as emissões do Brasil em 2030 sob a nova meta poderiam ser 27% maiores do que eram quando ratificou o Acordo de Paris em 2016." 

Há ainda a expectativa de que os Estados Unidos, agora liderados por Joe Biden, que colocou as mudanças climáticas no centro das decisões do seu governo, e China tragam novas metas antes de uma cúpula do clima que ocorrerá nos EUA em 22 de abril. Os dois países juntos respondem por outros 30% das emissões, 

Com base nos resultados, a ONU voltou a apelar para que os países se comprometam mais seriamente com o problema. "No momento, é como se estivéssemos entrandem um campo minado de olhos vendados. O que precisamos é muito mais radical e transformador do que o que temos agora. Precisamos de planos concretos para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis o mais rápido possível", afirmou Patricia Espinosa, secretária executiva da Convenção do Clima da ONU (UNFCCC), órgão que organiza a discussão globalmente.

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