TIAGO QUEIROZ/ESTADAO
Comunidades estão envolvidas na retirada do óleo TIAGO QUEIROZ/ESTADAO

A batalha anônima para remover o óleo

Conheça alguns personagens que a reportagem encontrou em Pernambuco na tarefa, sem protagonistas, de limpar as praias nordestinas

Priscila Mengue (texto) e Tiago Queiroz (foto), enviados especiais ao Nordeste, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2019 | 05h00

Pernambuco - Pesquisadores, moradores, voluntários, agentes públicos, uma série de comunidades distintas está envolvida na retirada de óleo das praias do nordeste brasileiro. Com menor ou maior participação, todas trabalham com certo sentido de urgência e emoções.

O agente de limpeza Isaac, por exemplo, foi mandado às pressas para trabalhar na retirada do óleo. Ele não ficou insatisfeito, pelo contrário, se emocionou. O pesquisador Paulo foi em busca de amostras para estudar os efeitos do derramamento no tema que pesquisa: os peixes. Já o pedreiro Alisson saiu do trabalho para ajudar a comunidade em que vive, exercendo uma atividade arriscada e que deveria ser feita por profissional habilitado. 

Em quatro dias de cobertura em Pernambuco, o Estado falou com dezenas de pessoas que estavam em menor ou maior grau envolvidas com a retirada do óleo. Não há grandes protagonistas, mas algumas pequenas histórias que ajudamos a contar.

Confira a seguir as reportagens produzidas diretamente do Nordeste:


    Leia também: Veja perguntas e respostas sobre as manchas de petróleo nas praias do Nordeste

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    De praia em praia, cientistas se mobilizam para coletar amostras de óleo no nordeste

    Aparecimento de manchas de petróleo mudou rotina de pesquisadores e universidades

    Priscila Mengue (texto) e Tiago Queiroz (fotos), enviados especiais ao Nordeste, O Estado de S.Paulo

    27 de outubro de 2019 | 05h00

    IPOJUCA E PAULISTA - O sentido de urgência tão presente nos voluntários que atuam na retirada do óleo da costa nordestina também é latente em outro grupo local: a comunidade científica. De praia em praia, professores universitários, pesquisadores e estudantes de graduação têm saído a campo diariamente atrás de amostras da água, do petróleo e de organismos da fauna marinha. A rotina ainda se estende a testes em laboratórios, que já vem apresentando resultados sobre a contaminação ambiental.

    O impacto na rotina acadêmica é mais claro em áreas como Biologia, Química, Oceanografia e algumas engenharias. No Laboratório Ecotoxicologia Aquática (Labecotox) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), por exemplo, o foco está nas praias oleadas. Dessa forma, pesquisas voltadas a regiões atingidas ganharam mais espaço (como uma sobre um espécie de peixe sentinela, presente em corais e conhecida como Donzelinha). 

    “É um esforço concentrado com os outros alunos para reunir essa informação crucial desse desastre”, explica Paulo Carvalho, de 55 anos, coordenador do Labecotox e professor do Departamento de Zoologia da UFPE.

    Com o próprio carro, o professor tem visitado praias de Pernambuco e uma de Alagoas para recolher amostras da água e de peixes, chegando até a mergulhar em uma área de coral também atingida pelo óleo. Na pernambucana Praia do Janga, em Paulista,  encontrou dezenas de peixes mortos, trazidos por uma grande mancha de óleo. 

    Os resultados iniciais do petróleo no litoral já foram percebidos por Carvalho e por grupos de pesquisas de outras universidades, como um estudo divulgado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) que detectou metais pesados em animais marinhos. A ideia é, também, continuar com as saídas de campo, geralmente acompanhadas de mestrandos, doutorandos e graduandos, mesmo após o fim do aparecimento das manchas, para monitorar o impacto além dos efeitos mais imediatos. 

    Ele se preocupa especialmente com o impacto dos hidrocarbonetos policíclicos aromáticos presentes no petróleo, que trazem 16 tipos de moléculas que chama de “grandes vilões". Elas muito tóxicas, algumas cancerígenas, enquanto e outras podem causar sérios impactos à fauna marinha, como algumas espécies de peixes. 

    “As moléculas já estão se dissolvendo na água, e são muito tóxicas. Os peixes absorvem principalmente através das brânquias e já estão assimilando para dentro da circulação sanguínea”, explica. “Os órgãos internos estão começando a ter danos, mesmo que não cause a morte. Esse gasto energético para se livrar da molécula pode afetar a taxa de crescimento, pode fazer com a fêmea não se desenvolva para se reproduzir adequadamente.”

    Situação semelhante tem vivido Mauro de Melo Junior, de 40 anos, professor de Biologia Marinha da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e coordenador do Laboratório de Ecologia do Plâncton (Leplanc). “Estamos há duas semanas indo para campo fazer coleta, monitorando os estuários e as áreas costeiras.”

    Na Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais, maior unidade de preservação federal marinha costeira do Brasil, viu a rede que utiliza para a retirada de amostras ficar cor de ferrugem. “Era como se óleo estivesse disperso. Tinha muita matéria particulada”.

    A situação se assemelha a outro problema encontrado no ambiente marinho: o microplástico. “Está acontecendo a mesma coisa com a mancha de óleo: partículas bem pequenas entrando nas cadeias alimentares.”

    O professor coordenada pesquisas que envolvem os plânctons, micro-organismos considerados base da cadeia alimentar marinha. “É como um grão de arroz dividido em cinco partes, a maior parte dos organismos têm esse tamanho. Estamos tentando investigar agora se o petróleo está afetando. Tartarugas, aves, peixes têm mais visibilidade, mas, no caso do plâncton, o risco ambiental é muito maior, afeta muitos animais, inclusive os corais - onde vários se reproduzem.”

     

     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     

    Monitoramento em andamento, amostras coletadas ! #ecotoxicology #toxico Imagens de @paulosmcarv

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    'Homens-tatu’ se embrenham entre pedras para retirar óleo de praias nordestinas

    Mulheres e homens se esticam e até entram em fendas para tirar petróleo de áreas de difícil acesso

    Priscila Mengue (textos) e Tiago Queiroz (fotos) , enviados especiais ao Nordeste, O Estado de S.Paulo

    27 de outubro de 2019 | 05h00

    JABOATÃO DOS GUARARAPES E PAULISTA - Em meio às pedras, voluntários e agentes públicos se embrenham para retirar fragmentos do óleo de áreas de difícil acesso. Passam por fendas, viram de cabeça para baixo, esticam os braços e se equilibram sobre pedras escorregadias. Eles eram quase “homens-tatus”, como definiu o repórter fotógrafo Tiago Queiroz durante a cobertura do Estado das manchas de petróleo no Nordeste.

    O trabalho nessas condições é ainda mais arriscado, pois prevê contato muito direto com o óleo em diversas partes do corpo. Por vezes, os “homens-tatu” precisam se deitar ou se equilibrar sobre as pedras, que ficam escorregadias pela presença do óleo. Mesmo assim, em situações presenciadas pelo Estado, essas pessoas careciam de equipamentos de proteção completos, mesmo com o aumento de relatos e suspeitas de intoxicação envolvendo pessoas que trabalharam na retirada da substância das praias.

    “A gente dava um jeito. Tinha um caminhão que ajudava a tirar as pedras”, explica o pedreiro Alisson Ribeiro, de 24 anos, que foi dois dias seguidos ser “homem-tatu” na retirada de uma grande mancha de óleo na Praia do Janga, em Paulista, na Grande Recife. A função geralmente é exercida por rapazes jovens e franzinos, que conseguem embrenhar nas fendas com mais facilidade.

    “Puxava o óleo com a mão. No primeiro dia, fiquei até umas 17h30, porque já estava muito escuro. Colocava o braço, o que coubesse para tirar o óleo”, relata Alisson. Morador do Janga, ele saiu do trabalho junto de colegas assim que soube da chegada da mancha, na quarta-feira. “Ainda dá para ver um pouco de óleo”, lamenta. 

    O estudante Anderson de Castro da Silva Júnior, de 17 anos, também chegou a fazer as vezes de “homem-tatu”, além de ajudar a puxar o óleo para a margem no Janga. Quando falou com o ‘Estado’, utilizava óleo de cozinha para tirar vestígios do óleo grosso que ajudou a tirar do mar. 

    As manchas escuras tomavam a camiseta vermelha do garoto, assim como os braços, as pernas e parte do rosto. Ele dizia que a substância “pega na pele e queima”, mas não se importava com o contato. “Não ‘tô’ preocupado com isso, é só lavar que tira. Ligo para melhorar o ambiente, para melhor para as gerações futuras.”

    O rapaz descreve que estava “pegando assim” a grande massa de óleo, enquanto repetia gestos como os de um grande abraço. Nascido em São Paulo, mora na cidade de Paulista junto da família e se encaminhou para Janga assim que viu a notícia da chegada da mancha na televisão. “Juntei dois amigos e vim”, lembra. “Não nasci aqui, sou de São Paulo, mas tenho um carinho muito grande pelo povo daqui."

     

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    Os ‘paulistanos’ nascidos em Pernambuco que retiram óleo das praias

    Mancha de petróleo expôs uma das cidades com maior vulnerabilidade do País

    Priscila Mengue (texto) e Tiago Queiroz (fotos), enviados especiais ao Nordeste, O Estado de S.Paulo

    27 de outubro de 2019 | 05h00

    PAULISTA - “Nunca vi nada assim em 63 anos de vida. Chorei de emoção”. A frase foi a primeira que o agente de limpeza Isaac Felix disse ao Estado após passar mais de 5 horas retirando óleo da Praia do Janga, em Paulista, na Grande Recife. “Quando me emociono, choro. Mas não foi de tristeza, foi de alegria, alegria de estar participando disso.”

    Isaac nasceu em Paulista e gosta de se dizer “paulistano” (embora também há quem prefira “paulistense” como gentílico oficial). Por lá, a chegada do óleo se sobrepôs aos outros problemas sociais que já levaram a Força Nacional para o município, de mais de 300 mil habitantes e 10º na lista G100 de 2018, das cidades populosas com baixa renda per capital e alta vulnerabilidade social, elaborada pela Federação Nacional de Prefeitos (FNP).

    Com nome bíblico, como gosta de ressaltar, Isaac é funcionário de uma empresa terceirizada pela Prefeitura e trabalhava na retirada de lixo em uma praia vizinha quando foi avisado de que deveria se encaminhar para o Janga com os demais colegas. “Trabalho aqui (no Janga) com gosto. Vou contar para os meus netos o que a gente passou. Isso aqui não foi determinado por Deus, mas pela mão do homem.”

    Ele e outros agentes de limpeza locais participavam do recolhimento das toneladas de óleo achados no Janga, utilizando até enxadas para dividir aquela grande massa viscosa em pedaços que pudessem ser acondicionados em baldes ou sacos. Entre eles, participar da limpeza era uma satisfação expressa até em comemorações quando conseguiam erguer um saco muito pesado cheio de óleo.

    A estudante Beatrice Miranda, de 27 anos, também é ‘paulistana’.  Assim que percebeu a presença do Estado, ela procurou a reportagem para lamentar o que considerava uma tragédia anunciada. 

    Periodicamente, ela e outros voluntários já costumavam realizar trabalho de remoção de lixo no mesmo local atingido pelo óleo. “Isso não é de agora, são 50 dias de descaso, sem monitoramento de verdade, sem nada.”

     

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