Tiago Queiroz|Estadão
Equipe do 'Estado' acompanhou o trabalho de limpeza da Praia de Itapuama, em Cabo de Santo Agostinho, no Grande Recife, uma das regiões do Nordeste atingidas pelas manchas de petróleo Tiago Queiroz|Estadão

Equipe do 'Estado' acompanhou o trabalho de limpeza da Praia de Itapuama, em Cabo de Santo Agostinho, no Grande Recife, uma das regiões do Nordeste atingidas pelas manchas de petróleo Tiago Queiroz|Estadão

'Estadão' no rastro do óleo no Nordeste

A repórter Priscila Mengue e o fotógrafo Tiago Queiroz acompanham o drama das manchas de petróleo nas praias da região

Priscila Mengue (textos) e Tiago Queiroz (fotos) , enviados especiais ao Nordeste

Atualizado

Atualizado

Equipe do 'Estado' acompanhou o trabalho de limpeza da Praia de Itapuama, em Cabo de Santo Agostinho, no Grande Recife, uma das regiões do Nordeste atingidas pelas manchas de petróleo Tiago Queiroz|Estadão

JABOATÃO DOS GUARARAPES - O litoral do Nordeste brasileiro virou o foco das atenções desde o início de setembro com o aparecimento de manchas de petróleo nas praias e em outros pontos da costa. Para acompanhar de perto o drama vivido pela população da região e os impactos ambientais, o Estado enviou ao Nordeste a repórter Priscila Mengue e o repórter fotográfico Tiago Queiroz.

Confira a seguir as reportagens produzidas diretamente do Nordeste:

  1. Estadão no rastro do óleo - De peneira de cozinha a itens de jardinagem: o que voluntários usam para tirar óleo
  2. Estadão no rastro do óleo - Óleo chega à foz do Rio Jaboatão, em PE; presos do semiaberto ajudam na limpeza
  3. Estadão no rastro do óleo - Óleo afeta mercado de pescado e estudo da UFBA alerta sobre contaminação
  4. Estadão no rastro do óleo - Voluntários relatam náusea e alergia após contato com óleo; ministro da Saúde diz que não há alerta
  5. Estadão no rastro do óleo - Óleo retirado de praias vira combustível para indústria em Pernambuco
  6. Estadão no rastro do óleo - Em praia turística, mergulhadores e funcionários de restaurante tiram óleo de corais 
  7. Estadão no rastro do óleo - Os ‘paulistanos’ nascidos em Pernambuco que retiram óleo das praias
  8. Estadão no rastro do óleo - De praia em praia, cientistas se mobilizam para coletar amostras de óleo no nordeste 
  9. Estadão no rastro do óleo - 'Homens-tatu’ se embrenham entre pedras para retirar óleo de praias nordestinas 
  10. Estadão no rastro do óleo - Exército e Marinha ignoram recomendação do Ibama sobre itens de proteção 

Bastidores da Cobertura - Clique aqui e veja como foram os bastidores da cobertura da repórter Priscila Mengue e do repórter fotográfico Tiago Queiroz.

Para Entender

Entenda o vazamento de petróleo nas praias do Nordeste

Óleo se espalha pelos 9 Estados da região. O poluente foi identificado em uma faixa de mais de 2 mil quilômetros da costa brasileira

 

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De peneira de cozinha a itens de jardinagem: o que voluntários usam para tirar óleo

Grupo atua na limpeza da Praia de Itapuama, em Cabo de Santo Agostinho, desde a chegada do poluente no domingo

Priscila Mengue (texto) Tiago Queiroz (fotos), enviados especiais de O Estado de S. Paulo a Pernambuco

23 de outubro de 2019 | 07h00

CABO DE SANTO AGOSTINHO (PE)  - Peneira de macarrão, espátula de obra, itens de jardinagem e outros instrumentos domésticos foram algumas das ferramentas utilizadas pelas centenas de voluntários que foram nesta terça-feira, 22, à Praia de Itapuama, em Cabo de Santo Agostinho, a 40 minutos do Recife. Aos voluntários, que atuam no local desde a chegada da mancha de óleo no domingo, 20, somam-se integrantes da Marinha e, ainda, dezenas de militares que também chegaram nesta terça.

O cenário pode até parecer um tanto confuso inicialmente, com a quantidade de trabalho feita simultaneamente. Como a parte mais "grossa" do óleo foi retirada, o foco estava nos "detalhes", isto é, em retirar pequenas quantidades de óleo ao peneirar a areia ou utilizar uma escova nas pedras.

As atividades podem parecer simples, mas exigiam esforço pela consistência de chiclete ou bala derretida da substância, como exemplificavam alguns voluntários.

Para Entender

Entenda o vazamento de petróleo nas praias do Nordeste

Óleo se espalha pelos 9 Estados da região. O poluente foi identificado em uma faixa de mais de 2 mil quilômetros da costa brasileira

"Fica grudado demais nos buraquinhos. A gente só tira o excesso, não consegue tirar na integralidade", desabafa a advogada Gilmara Ribeiro, de 35 anos, que usava um instrumento de jardinagem já um tanto torto pelo esforço.

Como estava sem instrumentos, o empresário Danilo Araújo, de 27 anos, catou o excesso de óleo com as mãos, retirando-o de buracos entre as pedras. Sócio de uma academia de crossfit, estava de folga para participar do mutirão.

"Fui criado no Cabo. Minha infância foi aqui, nesta praia", comentou. "Isto aqui é a casa da gente."

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Fui criado no Cabo. Minha infância foi aqui, nesta praia. Isto aqui é a casa da gente
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Danilo Araújo, empresário

Já outros voluntários foram até dentro do mar, como a aluna de Engenharia Thamires Cavalcante, de 20 anos. Com a água até o pescoço, ela usava uma peneira atrás de pequenas quantidades de óleo, do tamanho de bolas de gude. Thamires já estava no segundo dia seguido na praia.

"Não é fácil, a luva escorrega. O que me preocupa é deixar a praia assim."

A aposentada Ladjane Lima, de 58 anos, também lembra da situação antes dos mutirões. "Domingo eram placas imensas", diz ela, que usava uma grande peneira. "Mas agora também é preocupante, por causa dos peixinhos. Amo a natureza, feriu a alma ver um negócio desses."

"Eu ia mergulhando e tirando de dentro do mar, não tem muita gente para fazer isso, nem todo mundo está disposto", comenta o professor de surfe Henrique Almeida, de 25 anos, que vestia só a bermuda e estava com a pele cheia de fragmentos de óleo. "A gente puxa e vem trazendo."

Nem pôr do sol desmobiliza grupo

Logo após as 17 horas, o entardecer já começa a subir a maré e dificultar os trabalhos. Algumas dezenas de voluntários seguiram mais uma hora, com a luz de dois tratores e de outras formas improvisadas, enquanto os militares já haviam se retirado. 

A cirurgiã-dentista Morgana Manoela, de 31 anos, utilizava uma lanterna na cabeça para ajudar a repassar os últimos sacos de óleo.

"Estou aqui desde as 9 horas (da manhã). Já raspei a pedra, usei peneira, agora estou ajudando a tirar o sargassum (tipo de alga)", relata. "Nasci e me criei no litoral pernambucano. Essa área é uma parte de mim."

Embora o foco atual seja retirar o óleo aparente da praia, a situação já preocupa pelos danos futuros.

"A gente não sabe se atingiu um lençol freático", comenta Estêvão Santos, de 41 anos, da ONG Onda Limpa. 

Daniel Galvão, do Salve Macaraípe, admite a necessidade de mais itens de segurança para voluntários. Eles ajudam a recolher e distribuir máscaras, luvas e galochas, além de alimentação e água.

"Mas é um momento de guerra. A gente usa o que dá."

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É um momento de guerra. A gente usa o que dá
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Daniel Galvão, do Salve Macaraípe

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Óleo chega à foz do Rio Jaboatão, em PE; presos do semiaberto ajudam na limpeza

Estimativa é de que mais 40 toneladas de piche tenham sido retiradas; voluntários foram impedidos de participar da ação

Priscila Mengue (texto) e Tiago Queiroz (fotos), enviados especiais ao Nordeste

23 de outubro de 2019 | 13h30

JABOATÃO DOS GUARARAPES - O óleo que atinge o Nordeste brasileiro há mais de um mês chegou na madrugada desta quarta-feira, 23, à Praia Barra da Jangada, onde está a foz do Rio Jaboatão, em Jaboatão dos Guararapes, cidade vizinha do Recife. Funcionários da prefeitura, da Marinha, do Exército e 50 presos em regime semiaberto atuam na praia, que está isolada para o acesso de voluntários.

Resíduos foram identificadas em alto-mar por um pescador na noite anterior, por volta das 23 horas, enquanto as manchas foram detectadas na praia por volta das 4h30. Segundo o superintendente da Proteção e Defesa Civil de Jaboatão, Artur Paiva, foram retiradas 44 toneladas de óleo somente nas primeiras horas da manhã. Agora, as ações são para tirar pequenos pedaços da substância. 

"A nossa preocupação foi tirar rápido, não dá para deixar desse jeito", diz. "Não pode deixar entrar no estuário. A barreira foi acionada e não encontramos nada lá." 

A Marinha justifica o isolamento da praia como medida de segurança.

"Pode ser um problema para a saúde de quem manuseia. Nem todos os voluntários têm material", diz o comandante do destacamento dos fuzileiros, capitão-tenente Gilson Cunha.

Ao todo, 1.500 homens da Marinha atuam no Nordeste, dos quais 380 estão em Jaboatão.

"É importante que a população confie na ação conjunta (dos governos municipal, estadual e federal)."

O trabalho está sendo majoritariamente dentro da água, pois o óleo afunda no rio (enquanto boia no mar). Não está descartada ação com mergulhadores para retirar o óleo do fundo.

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Entenda o vazamento de petróleo nas praias do Nordeste

Óleo se espalha pelos 9 Estados da região. O poluente foi identificado em uma faixa de mais de 2 mil quilômetros da costa brasileira

"Quando a maré baixar, vai se poder ter uma melhor compreensão da situação", diz o capitão.

Por volta das 9 horas, chegaram ao local 50 reeducandos do regime semiaberto, da Penitenciária Agroindustrial São João, em Ilha de Itamaracá, no Grande Recife. Eles foram divididos em trios para recolher restos do óleo com sacos de lixo. A ação valerá como hora trabalhada e poderá ser deduzida da pena. 

Inicialmente, o grupo iria para Cabo de Santo Agostinho, onde está grande parte do óleo, mas foram remanejados após a divulgação da chegada da nova mancha.

"Não imaginava que estava nessa situação", comentada o apenado Paulo Henrique da Silva, de 21 anos. "Estamos separando o óleo com as luvas. Alguns, temos mais sorte, outros são mais difíceis de tirar. Estou achando legal poder ajudar."

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Estamos separando o óleo com as luvas. Alguns, temos mais sorte, outros são mais difíceis de tirar. Estou achando legal poder ajudar
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Paulo Henrique da Silva, detento do regime semiaberto

A área está isolada com fitas, com a restrição de acesso até para a imprensa e os voluntários - alguns reclamavam da situação e apontavam que os militares não deveriam atuar de bermuda (por questões de segurança). Um dos poucos voluntários que conseguiu ajudar estava em um stand up paddle, que usava para se deslocar para longe da margem para procurar manchas.

"Não estão deixando ninguém. Assim que cheguei em Itapuama, soube que tinha chegado aqui. Veio gente da Marinha e do Exército para cá, aí a gente também se dividiu", conta a bióloga e voluntária Gabriela Barros, de 31 anos. "Viemos dar suporte e não estamos podendo fazer nada. Trouxemos doação para cá abastecendo eles. A gente está usando o mesmo tipo de proteção que eles e já temos o conhecimento de quem está atuando nisso."

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Viemos dar suporte e não estamos podendo fazer nada
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Gabriela Barros, bióloga e voluntária

O Rio Jaboatão tem cerca de 75 quilômetros de extensão, sendo local de pesca e de reprodução de espécies, incluindo tubarões. "Aqui tem caranguejo, camarão, peixes, logo na frente tem a colônia de pescadores que nos ajudou bastante a monitorar", conta Edilene Rodrigues, superintendente de Meio Ambiente de Jaboatão. 

"A nossa barreira de contenção rompeu na madrugada (por causa da maré), mas o intuito é que, se viesse boiando (o óleo), conseguiria reter", conta. "Várias redes de camarão foram distribuídas e conseguiram interceptar uma grande  massa que chegou no domingo."

Segundo o governo de Pernambuco, boias de contenção estão sendo colocando no mar e em rios desde o dia 17. Como o estuário do Rio Jaboatão tem densidades distintas, por reunir águas doce e salgada, o óleo consegue escapar por baixo da boia. Por isso, foi iniciada a colocação de redes submersas abaixo das boias, que somam três quilômetros de extensão. 

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Óleo afeta mercado de pescado e estudo da UFBA alerta sobre contaminação

Instituto de Biologia detectou metais pesados em animais marinhos; em humanos, as substâncias podem causar problemas de saúde. Com receio, população local deixa de comer peixe e pescadores amargam prejuízos

Priscila Mengue, enviada especial ao Nordeste, Felipe Goldenberg e Milena Teixeira, especiais para o Estado

24 de outubro de 2019 | 06h00

JABOATÃO DOS GUARARAPES E SÃO PAULO - As manchas de óleo que atingem o Nordeste já chegaram ao mercado de pescado. Os poluentes dificultam a ação dos pescadores e pesquisas já orientam que se evite comer produtos das regiões afetadas. O Instituto de Biologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA) realizou uma pesquisa com 50 animais marinhos e detectou resquícios do óleo em todos eles. Um estudo será feito para verificar se há metais pesados no material. No organismo humano, essas substâncias podem causar náuseas, vômito, enjoo, problemas respiratórios e arritmia cardíaca, entre outras consequências nocivas.

Francisco Kelmo, da UFBA, explica que, assim que o óleo chega à costa, o material se deposita em rochas, areias e manguezais, que são onde mariscos, caranguejos, ostras e siris se alimentam. Quando esses animais filtram a água do mar, o petróleo entra no sistema respiratório. Em alguns casos, morrem por asfixia; em outros, o óleo se deposita no próprio tecido deles.

"Pela cadeia alimentar, essas substâncias são transferidas para nós, o que é algo extremamente perigoso", diz o professor.

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Pela cadeia alimentar, essas substâncias são transferidas para nós, o que é algo extremamente perigoso
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Francisco Kelmo, professor da UFBA

Como metais pesados não são excretados pelo ser humano, esses resíduos ficariam dentro do corpo pelo restante da vida. 

Para ele, o cenário de contaminação dos animais e da costa pode levar pelo menos dez anos para ser revertido, "isso se todas as manchas forem retiradas", até as que ficam por baixo da superfície.

"Se houver qualquer mancha de óleo no manguezal, independentemente da quantidade, a contaminação vai continuar", afirma Kelmo. 

Já para Magno Botelho, biólogo e especialista em meio ambiente da Universidade Presbiteriana Mackenzie, haverá "contaminação a longo prazo".

"Mas saber a quantidade de óleo vazado é fundamental para que possa ser feito um prognóstico mais apurado."

Mercado

As manchas de óleo que atingem as praias do litoral do Nordeste têm afetado a produção e a venda de pescadores e marisqueiros da Bahia há duas semanas. Consumidores estão receosos em comprar frutos do mar e, por isso, trabalhadores estocam ou jogam fora peixes, mariscos e camarões. Alguns viram a renda média mensal, de R$ 1 mil, cair mais de 80%.

Na cidade do Conde, no interior da Bahia, por exemplo, cerca de 2 toneladas de peixes estão armazenadas em freezers.

"A gente até tem peixe, mas ninguém quer comprar nosso pescado", diz o presidente de um grupo de pescadores, Givaldo Batista Santos. Frutos do mar são uma das maiores fontes de renda da cidade; cerca de 2 mil pessoas vivem exclusivamente disso. "A situação está precária porque não tem como ter renda sem peixe."

De acordo com a Bahia Pesca, estatal do governo baiano responsável por fiscalizar e fomentar o trabalho de pescadores, 16 mil trabalhadores foram afetados. Até agora, 12 cidades foram atingidas pelos resíduos no Estado: Caíru, Salvador, Lauro de Freitas, Camaçari, Conde, Entre Rios, Itacaré, Esplanada, Jandaíra, Vera Cruz, Itaparica e Mata de São João. Em todo o Nordeste, mais de mil toneladas de óleo já foram recolhidas. Na colônia de Itapuã, na capital, são 400 quilos guardados em freezers.

"Todo mundo está reclamando nas peixarias", afirma o presidente do grupo, Arisvaldo Filho. "A gente não consegue vender porque a população está com medo de comer o peixe com petróleo."

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A gente não consegue vender porque a população está com medo de comer o peixe com petróleo
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Arisvaldo Filho, pescador

Na maior colônia de pesca do Estado, que fica no Rio Vermelho, em Salvador, todos os 5 mil trabalhadores se viram obrigados a jogar no lixo toda a produção de um dia de trabalho: 250 quilos de peixe. O pescador e presidente da colônia Marcos Antonio Chaves Souza diz que o movimento caiu porque o governo baiano os orientou a não comercializar os pescados. A Bahia Pesca não confirmou a informação ao Estado; a orientação seria para "não pescar nas áreas atingidas".

A presença do petróleo na água litoral da Bahia faz com que algumas pessoas fiquem com receio de comer derivados de frutos do mar. É o caso da estudante de Engenharia Estefane Caetano, de 25 anos. Mãe de um bebê de cinco meses, a jovem conta que está com medo de ingerir camarões e peixes porque, segundo ela, a substância pode gerar alguma reação na criança.

"Eu sempre comia peixe, porque moro perto da praia, mas vou passar um bom tempo sem comprar, especialmente porque tenho um bebê e tenho medo que alguma coisa passa para o meu leite. Ontem, meu marido trouxe um acarajé e eu fiquei com medo de comer", diz Estefane. 

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Eu sempre comia peixe, porque moro perto da praia, mas vou passar um bom tempo sem comprar
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Estefane Caetano, estudante de Engenharia

O estudante de Direito Gabriel Martins, de 18 anos, também afirma que vai passar um tempo sem comer peixe. Ele narra que tomou a decisão depois que foi à praia de Vilas do Atlântico, na cidade de Lauro de Freitas. 

"A água foi muito afetada e eu tenho certeza que vai passar para os peixes. Como ainda não sei o que pode acontecer, vou ficar sem comer. Minha mãe também disse que peixe não entra tão cedo lá casa", diz. 

Já a família da engenheira ambiental Leila Santos, de 30 anos, comia peixe pelo menos três vezes por semana; agora, as refeições estão suspensas por enquanto, e os frutos do mar são substituídos por outros tipos de proteína.

"Peixe, marisco, camarão… paramos de comer", diz.

Recife

Setembro foi o mês que as manchas de óleo começaram a aparecer no nordeste brasileiro, mesmo período do início da temporada de pesca da tainha. Em Jaboatão dos Guararapes, na Grande Recife, essa é a época em que "se trabalha para conseguir comer no inverno", como explicam pescadores. "Está diminuindo a quantidade de peixe. Aqui tem camurupim, carapeba, tainha, saúna", comenta o pescador Amauri Januário dos Santos, de 63 anos. "Se entrar no mangue então, não vai ser coisa de Deus."

A tainha é a principal fonte de renda de famílias como a de Valter Dionisio Santana Júnior, de 39 anos, irmão e filho de pescadores. Para eles, a chegada do óleo é quase uma questão de tempo, pois já percebem as consequências no dia a dia. A pesca da tainha costuma começar em setembro e segue por seis meses.

"Hoje é um sacrifício de horas para pegar peixe, o peixe não está conseguindo entrar na barra por causa do óleo", lamenta. "Ainda se pega uma quantidade, mas está diminuindo cada vez mais."

Valter costuma pegar de 20 a 30 quilos em um dia de pescaria, junto do irmão.

"Ontem, graças a Deus, conseguimos uns quatro quilos de tainha, mas está diminuindo cada vez mais. Se entrar na barra, vai diminuir mesmo, as redes vão ficar cheias de óleo."

Como esta quarta-feira estava fraca para peixe, Valter dedicou o dia para costurar a rede. "Quando vi as primeiras notícias, já fiquei pensando se iria chegar aqui. A gente vive disso, aí fica preocupado."

 

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Voluntários relatam náusea e alergia após contato com óleo; ministro da Saúde diz que não há alerta

Secretaria Estadual de Pernambuco tem registro de 19 intoxicações suspeitas; sintomas são informados até por quem usou equipamento de proteção

Priscila Mengue, enviada especial, Mônica Bernardes, especial para o Estado, e Tiago Queiroz (fotos)

24 de outubro de 2019 | 20h47

PAULISTA - Tontura, náuseas, dor de cabeça e reações alérgicas estão entre os sintomas relatados por parte dos voluntários de mutirões para remover óleo de praias pernambucanas. A situação é apontada até por quem usou máscaras, galochas e luvas. E, apesar da recomendação das autoridades de usar equipamento de proteção, é comum ver muitos com os corpos expostos. Unidades médicas já têm criado postos de atendimento nas praias e orientado os profissionais de saúde sobre como lidar com esses casos.

“Estava puxando o óleo para a areia e me senti mal. Quando puxei, o cheiro estava atípico, como de óleo muito concentrado”, conta a dona de casa Marília Clementino, de 31 anos. A moradora de Jaboatão dos Guararapes viajou cerca de uma hora até Paulista (PE), para ajudar na limpeza da Praia do Janga. No grupo, duas pessoas se sentiram mal no mesmo dia. Marília relata tontura e dor de cabeça, e atribui a reação ao uso inadequado da máscara.

Conforme a Secretaria Estadual de Saúde, são investigados 19 casos de intoxicação com suspeita de relação com o óleo. Ainda segundo a pasta, houve casos relacionados ao contato com o poluente e também por causa do uso indevido de solventes para retirar o óleo.

“A gente tem visto pessoas procurarem unidades de saúde, mas eles informam que retiraram o óleo com benzina, gasolina, querosene”, disse o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. Segundo ele, não há ainda preocupação à saúde e o governo faz estudos sobre o impacto na cadeia alimentar. “Até o momento, a gente não tem nenhum alerta.”

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Entenda o vazamento de petróleo nas praias do Nordeste

Óleo se espalha pelos 9 Estados da região. O poluente foi identificado em uma faixa de mais de 2 mil quilômetros da costa brasileira

Estado acompanhou mutirões em praias pernambucanas nos últimos três dias. Entre voluntários e agentes públicos, todos ficavam com alguma parte do corpo exposta, nem que fosse pelo comprimento da roupa. Vários entravam na água ou no meio de pedras sujas de óleo.

Pescador há mais de 25 anos, Adalberto Barbosa, o Formigão, mora e trabalha em São José da Coroa Grande (PE). Desde os primeiros sinais de óleo, se juntou ao trabalho de limpeza. “Começamos cedinho e vamos até a noite. Isso aqui é nosso ganha-pão. Se não puder pescar, minha família vai passar necessidade.” Os sintomas começaram na segunda. “Tive muita dor de cabeça e vomitei. Senti o corpo mole, como se estivesse com uma gripe daquelas. Mas só parei um dia. Fui medicado, me sinto melhor e continuo trabalhando”, afirma.

Dos 19 pacientes reportados, 17 foram em São José – os outros dois foram em Ipojuca. Marcello Neves,  diretor clínico do Hospital Municipal Osmário Omena de Oliveira, diz que foram registrados dois tipos distintos de reação ao óleo. Dos atendimentos, 70% foram de problemas de pele. "Nesses casos, as pessoas tiveram dermatite de contato, apresentando coceiras e feridas na pele, além de dor de cabeça. Houve ainda pacientes que tiveram reações por inalar os gases que saem do óleo. Nestes casos, a maioria apresentou dor de cabeça, enjoos, vômito e tontura.”

Outra preocupação dos médicos é que as substâncias tóxicas se espalhem pelo ambiente, com a contaminação de lençóis freáticos, o que também traria riscos. Para especialistas, só deve haver problemas mais graves após exposição muito prolongada. Conforme órgãos de saúde, crianças e grávidas, têm maior vulnerabilidade.

Voluntários e representantes de colônias de pescadores baianos também relatam problemas de saúde. A bióloga e professora de surfe Carla Circenis, de 49 anos, ficou com os olhos inflamados e caroços na pele. “Mesmo tendo conhecimento de bióloga e até prevendo consequências, entrei na água e inalei muito petróleo. No outro dia, amanheci muito mal”, conta ela, de Salvador.

A Secretaria de Saúde da Bahia informou que não há registro de suspeitas de contaminação. O governo também vai avaliar se peixes e mariscos estão próprios para consumo.

Estado entrou em contato com as secretarias dos outros Estados do Nordeste – o Maranhão informou não ter registros. /COLABORARAM RENTA OKUMURA, PAULA FELIX e VINÍCIUS BRITO, FELIPE GOLDENBERG, MILENA TEIXEIRA, ESPECIAIS PARA O ESTADO

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Óleo retirado de praias vira combustível para indústria em Pernambuco

O resultado, chamado de 'blend energético', é vendido para pelo menos três empresas de produção de cimento e utilizado como combustíveis de fornos

Priscila Mengue (texto) e Tiago Queiroz (fotos), enviados especiais ao Nordeste

25 de outubro de 2019 | 05h00

IGARASSU - As imagens de toneladas e mais toneladas de óleo sendo retiradas das praias do Nordeste têm levantado uma questão: e depois, o que fazer com todo esse material? A resposta em Pernambuco foi destiná-lo à Central de Tratamento de Resíduos, a Ecoparque, empresa contratada em regime de urgência, cujo aterro é sediado em Igarassu, a cerca de uma hora do Recife.

Para lá, foram destinadas mais de 1,3 mil toneladas de óleo e itens contaminados pela substância, como baldes, luvas e máscaras. O material passa por triagem para reduzir a presença de areia e, em seguida, é triturado junto de tecidos, borrachas e outros itens que tiveram contato com produtos industriais. O resultado forma pilhas de fragmentos diversos, em que o óleo das praias se destaca pelo brilho característico.

O resultado é o que chamam de blend energético, que é vendido para pelo menos três empresas de produção de cimento. É utilizado como combustíveis de fornos junto do coque - um subproduto destilado do petróleo.

“O petróleo sólido é muito caro e exige grande logística, porque vem de navio. Assim como o coque, esse blend tem o poder calorífico alto”, explica Romero Dominoni, diretor geral da Ecoparque.

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Entenda o vazamento de petróleo nas praias do Nordeste

Óleo se espalha pelos 9 Estados da região. O poluente foi identificado em uma faixa de mais de 2 mil quilômetros da costa brasileira

O material retirado das praias chega em caçambas, trazidas por caminhões. É, então, despejado em uma área coberta do aterro, destinada aos resíduos tóxicos, que tem diversas camadas de proteção para não ter contato direto com o solo - segundo Dominoni. Esse espaço tem quarenta metros de largura, por 10 metros de profundidade e cem metros de comprimento.

O governo pagou R$ 150 por tonelada de resíduo (inclui óleo e itens contaminados), valor que está firmado em um contrato emergencial com o governo de Pernambuco.

“Sozinho, ele não serve para o forno. Precisa de uma mistura do blend com o coque, mas se usa menos coque que o normal e, com isso, se economiza (o comprador)", explica Dominoni.

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Em praia turística, mergulhadores e funcionários de restaurante tiram óleo de corais

Em meio ao trabalho de retirada, em que alguns pegavam o óleo com as mãos, turistas passavam o dia na praia

Priscila Mengue (texto) e Tiago Queiroz (fotos), enviados especiais, O Estado de S.Paulo

25 de outubro de 2019 | 17h34

IPOJUCA - O mar em dois tons de azul, a areia clara e a presença de dezenas de vendedores e turistas na manhã desta sexta-feira, 25, dava uma aparência de “normalidade” para a Praia do Cupe, a menos de uma hora de Recife. No horizonte, em meio aos banhistas, uma pequena balsa de madeira com tonéis indicava, contudo, que o óleo que havia chegado a quase uma semana permanece na região.

Mutirões conseguiram retirar o óleo da faixa de areia da praia, vizinha de Porto de Galinhas, ambas localizadas em Ipojuca. A substância agora se concentra junto aos corais, a poucos metros da faixa de areia, e no fundo do mar (em vez da superfície, como costuma ocorrer).

O óleo é retirado principalmente por salva-vidas, mergulhadores voluntários e trabalhadores do entorno. Por ser muito viscoso, retirá-lo com luvas se torna uma tarefa difícil. Por isso, as equipes improvisaram peneiras com arcos de bicicleta e baldes cortados, afixados a sacos de alimentos e fios de nylon. Os trabalhos se estendem por cerca de cinco horas por dia, a depender da maré, que precisa estar baixa.

"A ondulação e a correnteza dificultam o trabalho de quem está mergulhando. O balançado faz com que você não consiga catar direito. Com a maré baixa, fica um pouco mais fácil", comenta o instrutor de mergulho Flávio de Lima, de 31 anos. A retirada é feita com equipamento profissional, inclusive com o uso de cilindros de oxigênio. 

"É um mergulho raso, dá para ficar muito tempo. A apneia (sem os cilindros) é mais desgastante", comenta. "A gente está usando um equipamento que a gente sabe que depois vai ter que dispensar. É um sacrifício da gente em prol do meio ambiente", diz.

Também mergulhador, Tomaz Funari, de 39 anos, critica o fato do trabalho vir sendo feito majoritariamente por voluntários e guarda-vidas, sem a presença mais expressiva de agentes de outras esferas públicas. Ele aponta, contudo, um aspecto que lhe parece positivo: "a gente vê peixe perto dos corais, e não apareceu nenhum morto por aqui.”

Além dos mergulhadores, os salva-vidas (aqui chamados de guarda-vidas) também participam da retirada de óleo. "A gente tem equipamento e também pega emprestado se precisar", relata João Apolônio, de 34 anos. "A gente precisa se unir. Se o turista souber que tem óleo, não vai vir."

Na parte menos profunda dos corais, a retirada do óleo era feita manualmente por funcionários de um restaurante à beira-mar. Eles foram dispensados das funções para realizar a atividade durante o expediente. Alguns se arriscavam ao pegar o petróleo diretamente com a mãos. Nenhum usava máscara.

Um deles era o garçom Pedro do Nascimento, de 21 anos. "O chefe pediu e a gente quis se envolver também", afirmou. Ele diz não ter sentido reações à atividade, embora colegas tenham relatado diarreia e alergia.

Turistas se banham na praia a poucos metros do óleo

O óleo na costa é tema frequente de comentários e conversas entre locais e turistas em Ipojuca. A cidade recebeu nesta sexta-feira, 25, a visita do ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, que anunciou uma linha de crédito específica para empresários do ramo de áreas atingidas.

O ministro ressaltou que as áreas estariam aptas para banho, embora o governo de Pernambuco não recomende contato com águas que tenham óleo visível. Alguns empresários e trabalhadores do setor, por outro lado, até evitam falar sobre o tema e criticam as notícias sobre os possíveis efeitos tóxicos associados ao contato com o petróleo.

Gerente de uma pousada no município, Alécio Júnior, de 32 anos, já foi procurado por diversos hóspedes a respeito da situação. “Muitos ligam perguntando. Tem até gente da Argentina mandando e-mail. A gente recebe muito argentino, uruguaio, gente da América do Sul. Está se espalhando a notícia. Já teve gente querendo cancelar.”

Entre os turistas da Praia do Cupe, os ouvidos pelo Estado relataram que ficaram receosos com as manchas de óleo, mas decidiram manter os planos de viagem. “O óleo assustou, a gente achou que não iria aproveitar, mas não vimos nada. Sim, vi que estão limpando, mas foi rapidinho (o banho no mar). A água está linda”, comenta a empresária Viviane de Lúcio, de 44 anos, que é de Americana, interior de São Paulo.

Também de São Paulo, da cidade de Guararapes, o bancário Renato Ferreira, de 43 anos, está em Ipojuca com a filha e a mulher. “O óleo deixou a gente bastante preocupado, estávamos acompanhando todas as notícias. A gente ficou tranquilo apenas quando chegou. Vi um rapaz com manchas, mas foi algo pontual. O resto está normal, a gente só não vai consumir peixes.”

Já o administrador Alessandro de Cunha Sousa, de 47 anos, estava com a mulher e os dois filhos de sete anos, vindos de Goiânia. Eles procuraram um guarda-vidas da região após terem percebido pequenos fragmentos de óleo no corpo. “Não senti nada, nenhuma reação”, garante. 

'É o prego que faltava no caixão', diz professor sobre corais

O óleo que chegou a Ipojuca deve agravar um histórico de deterioração dos recifes de corais na região. É o que aponta o professor de Biologia Ralf Cordeiro, da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). "É o prego que faltava no caixão.”

Ele diz que o Nordeste já havia sido “muito afetado” nas décadas de 70 e 80, quando rejeitos de cana de açúcar eram descartados na costa sem tratamento adequado. “Esse rejeito vinha diretamente para os recifes, o que causou uma mortandade maciça.”

Ao estar próximo do óleo, o coral pode entendê-lo como um possível alimento e absorvê-lo, explica o professor. “O que está no meio, vem para dentro. Aí, a tendência é a necrose dos tecidos e boa parte tende a morrer.”

Como exemplo, ele cita um vazamento de petróleo há nove anos no Golfo do México, que gerou um grande impacto ambiental. “Naquele acidente, o impacto não foi tão imediato, foi mais a longo prazo. Os corais não respondiam imediatamente”, comenta. “É possível que os corais se regenerem, afinal os recifes estão constantemente morrendo e se regenerando, mas a médio e curto prazo, a perspectiva é de uma mortandade muito grande.”

O professor comenta ainda que uma expectativa a longo prazo também não é otimista, pois envolve fatores como as mudanças climáticas e a presença de resíduos industriais e agrotóxicos no ambiente marinho. “As próximas gerações vão sentir isso. Afeta os peixes que se alimentam e se reproduzem ali. A gente visitou praticamente todos os recifes do litoral sul e quase todos ainda têm ao menos frações pequenas com um pouco de contaminação. Não lembro nenhuma localidade que não tenha vestígio.”

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'Homens-tatu’ se embrenham entre pedras para retirar óleo de praias nordestinas

Mulheres e homens se esticam e até entram em fendas para tirar petróleo de áreas de difícil acesso

Priscila Mengue (textos) e Tiago Queiroz (fotos) , enviados especiais ao Nordeste, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2019 | 05h00

JABOATÃO DOS GUARARAPES E PAULISTA - Em meio às pedras, voluntários e agentes públicos se embrenham para retirar fragmentos do óleo de áreas de difícil acesso. Passam por fendas, viram de cabeça para baixo, esticam os braços e se equilibram sobre pedras escorregadias. Eles eram quase “homens-tatus”, como definiu o repórter fotógrafo Tiago Queiroz durante a cobertura do Estado das manchas de petróleo no Nordeste.

O trabalho nessas condições é ainda mais arriscado, pois prevê contato muito direto com o óleo em diversas partes do corpo. Por vezes, os “homens-tatu” precisam se deitar ou se equilibrar sobre as pedras, que ficam escorregadias pela presença do óleo. Mesmo assim, em situações presenciadas pelo Estado, essas pessoas careciam de equipamentos de proteção completos, mesmo com o aumento de relatos e suspeitas de intoxicação envolvendo pessoas que trabalharam na retirada da substância das praias.

“A gente dava um jeito. Tinha um caminhão que ajudava a tirar as pedras”, explica o pedreiro Alisson Ribeiro, de 24 anos, que foi dois dias seguidos ser “homem-tatu” na retirada de uma grande mancha de óleo na Praia do Janga, em Paulista, na Grande Recife. A função geralmente é exercida por rapazes jovens e franzinos, que conseguem embrenhar nas fendas com mais facilidade.

“Puxava o óleo com a mão. No primeiro dia, fiquei até umas 17h30, porque já estava muito escuro. Colocava o braço, o que coubesse para tirar o óleo”, relata Alisson. Morador do Janga, ele saiu do trabalho junto de colegas assim que soube da chegada da mancha, na quarta-feira. “Ainda dá para ver um pouco de óleo”, lamenta. 

O estudante Anderson de Castro da Silva Júnior, de 17 anos, também chegou a fazer as vezes de “homem-tatu”, além de ajudar a puxar o óleo para a margem no Janga. Quando falou com o ‘Estado’, utilizava óleo de cozinha para tirar vestígios do óleo grosso que ajudou a tirar do mar. 

As manchas escuras tomavam a camiseta vermelha do garoto, assim como os braços, as pernas e parte do rosto. Ele dizia que a substância “pega na pele e queima”, mas não se importava com o contato. “Não ‘tô’ preocupado com isso, é só lavar que tira. Ligo para melhorar o ambiente, para melhor para as gerações futuras.”

O rapaz descreve que estava “pegando assim” a grande massa de óleo, enquanto repetia gestos como os de um grande abraço. Nascido em São Paulo, mora na cidade de Paulista junto da família e se encaminhou para Janga assim que viu a notícia da chegada da mancha na televisão. “Juntei dois amigos e vim”, lembra. “Não nasci aqui, sou de São Paulo, mas tenho um carinho muito grande pelo povo daqui."

 

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De praia em praia, cientistas se mobilizam para coletar amostras de óleo no nordeste

Aparecimento de manchas de petróleo mudou rotina de pesquisadores e universidades

Priscila Mengue (texto) e Tiago Queiroz (fotos), enviados especiais ao Nordeste, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2019 | 05h00

IPOJUCA E PAULISTA - O sentido de urgência tão presente nos voluntários que atuam na retirada do óleo da costa nordestina também é latente em outro grupo local: a comunidade científica. De praia em praia, professores universitários, pesquisadores e estudantes de graduação têm saído a campo diariamente atrás de amostras da água, do petróleo e de organismos da fauna marinha. A rotina ainda se estende a testes em laboratórios, que já vem apresentando resultados sobre a contaminação ambiental.

O impacto na rotina acadêmica é mais claro em áreas como Biologia, Química, Oceanografia e algumas engenharias. No Laboratório Ecotoxicologia Aquática (Labecotox) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), por exemplo, o foco está nas praias oleadas. Dessa forma, pesquisas voltadas a regiões atingidas ganharam mais espaço (como uma sobre um espécie de peixe sentinela, presente em corais e conhecida como Donzelinha). 

“É um esforço concentrado com os outros alunos para reunir essa informação crucial desse desastre”, explica Paulo Carvalho, de 55 anos, coordenador do Labecotox e professor do Departamento de Zoologia da UFPE.

Com o próprio carro, o professor tem visitado praias de Pernambuco e uma de Alagoas para recolher amostras da água e de peixes, chegando até a mergulhar em uma área de coral também atingida pelo óleo. Na pernambucana Praia do Janga, em Paulista,  encontrou dezenas de peixes mortos, trazidos por uma grande mancha de óleo. 

Os resultados iniciais do petróleo no litoral já foram percebidos por Carvalho e por grupos de pesquisas de outras universidades, como um estudo divulgado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) que detectou metais pesados em animais marinhos. A ideia é, também, continuar com as saídas de campo, geralmente acompanhadas de mestrandos, doutorandos e graduandos, mesmo após o fim do aparecimento das manchas, para monitorar o impacto além dos efeitos mais imediatos. 

Ele se preocupa especialmente com o impacto dos hidrocarbonetos policíclicos aromáticos presentes no petróleo, que trazem 16 tipos de moléculas que chama de “grandes vilões". Elas muito tóxicas, algumas cancerígenas, enquanto e outras podem causar sérios impactos à fauna marinha, como algumas espécies de peixes. 

“As moléculas já estão se dissolvendo na água, e são muito tóxicas. Os peixes absorvem principalmente através das brânquias e já estão assimilando para dentro da circulação sanguínea”, explica. “Os órgãos internos estão começando a ter danos, mesmo que não cause a morte. Esse gasto energético para se livrar da molécula pode afetar a taxa de crescimento, pode fazer com a fêmea não se desenvolva para se reproduzir adequadamente.”

Situação semelhante tem vivido Mauro de Melo Junior, de 40 anos, professor de Biologia Marinha da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE) e coordenador do Laboratório de Ecologia do Plâncton (Leplanc). “Estamos há duas semanas indo para campo fazer coleta, monitorando os estuários e as áreas costeiras.”

Na Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais, maior unidade de preservação federal marinha costeira do Brasil, viu a rede que utiliza para a retirada de amostras ficar cor de ferrugem. “Era como se óleo estivesse disperso. Tinha muita matéria particulada”.

A situação se assemelha a outro problema encontrado no ambiente marinho: o microplástico. “Está acontecendo a mesma coisa com a mancha de óleo: partículas bem pequenas entrando nas cadeias alimentares.”

O professor coordenada pesquisas que envolvem os plânctons, micro-organismos considerados base da cadeia alimentar marinha. “É como um grão de arroz dividido em cinco partes, a maior parte dos organismos têm esse tamanho. Estamos tentando investigar agora se o petróleo está afetando. Tartarugas, aves, peixes têm mais visibilidade, mas, no caso do plâncton, o risco ambiental é muito maior, afeta muitos animais, inclusive os corais - onde vários se reproduzem.”

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Monitoramento em andamento, amostras coletadas ! #ecotoxicology #toxico Imagens de @paulosmcarv

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Os ‘paulistanos’ nascidos em Pernambuco que retiram óleo das praias

Mancha de petróleo expôs uma das cidades com maior vulnerabilidade do País

Priscila Mengue (texto) e Tiago Queiroz (fotos), enviados especiais ao Nordeste, O Estado de S.Paulo

27 de outubro de 2019 | 05h00

PAULISTA - “Nunca vi nada assim em 63 anos de vida. Chorei de emoção”. A frase foi a primeira que o agente de limpeza Isaac Felix disse ao Estado após passar mais de 5 horas retirando óleo da Praia do Janga, em Paulista, na Grande Recife. “Quando me emociono, choro. Mas não foi de tristeza, foi de alegria, alegria de estar participando disso.”

Isaac nasceu em Paulista e gosta de se dizer “paulistano” (embora também há quem prefira “paulistense” como gentílico oficial). Por lá, a chegada do óleo se sobrepôs aos outros problemas sociais que já levaram a Força Nacional para o município, de mais de 300 mil habitantes e 10º na lista G100 de 2018, das cidades populosas com baixa renda per capital e alta vulnerabilidade social, elaborada pela Federação Nacional de Prefeitos (FNP).

Com nome bíblico, como gosta de ressaltar, Isaac é funcionário de uma empresa terceirizada pela Prefeitura e trabalhava na retirada de lixo em uma praia vizinha quando foi avisado de que deveria se encaminhar para o Janga com os demais colegas. “Trabalho aqui (no Janga) com gosto. Vou contar para os meus netos o que a gente passou. Isso aqui não foi determinado por Deus, mas pela mão do homem.”

Ele e outros agentes de limpeza locais participavam do recolhimento das toneladas de óleo achados no Janga, utilizando até enxadas para dividir aquela grande massa viscosa em pedaços que pudessem ser acondicionados em baldes ou sacos. Entre eles, participar da limpeza era uma satisfação expressa até em comemorações quando conseguiam erguer um saco muito pesado cheio de óleo.

A estudante Beatrice Miranda, de 27 anos, também é ‘paulistana’.  Assim que percebeu a presença do Estado, ela procurou a reportagem para lamentar o que considerava uma tragédia anunciada. 

Periodicamente, ela e outros voluntários já costumavam realizar trabalho de remoção de lixo no mesmo local atingido pelo óleo. “Isso não é de agora, são 50 dias de descaso, sem monitoramento de verdade, sem nada.”

 

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Óleo no Nordeste: Exército e Marinha ignoram recomendação do Ibama sobre itens de proteção

Durante retirada do petróleo, integrantes da Marinha e do Exército vestem bermuda e regata ou camiseta, enquanto orientação do Ibama prevê macacão e proteção ocular; situação se repete com prefeituras e Estados

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2019 | 10h33
Atualizado 29 de outubro de 2019 | 14h58

JABOATÃO DOS GUARARAPES, PAULISTA E IPOJUCA - Bermuda, galocha, camiseta ou regata, máscara e luva são as vestimentas e equipamentos padrão utilizados por integrantes do Exército e da Marinha na retirada de óleo de praias do Nordeste. Os itens não seguem, contudo, a orientação técnica para a remoção manual divulgada pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), que prevê o uso de macacão de polietileno e óculos de proteção e, no caso de trabalhos sobre pedras, também de capacete.

A situação se repete entre funcionários e empregados de empresas terceirizadas de prefeituras e, até mesmo, entre os apenados do Estado de Pernambuco que atuaram nas praias. No âmbito municipal, a reportagem flagrou trabalhadores manuseando o óleo sem camisa ou diretamente com as mãos.

A substância é considerada tóxica e, nos últimos dias, tem crescido o número de relatos de pessoas que tiveram náuseas, dor de cabeça, alergias e outras reações após terem contato com o petróleo. Os efeitos a médio e longo prazo ainda não estão claros. 

O contraste entre os equipamentos utilizados por funcionários do Ibama e dos demais envolvidos era evidente nas praias pernambucanas visitadas pelo Estado na última semana. Com parte do corpo exposto, os integrantes da Marinha e Exército entravam na água e chegavam a ficar com a pele suja de óleo, enquanto, os membros do Ibama estavam de macacão ou calça e camisa compridas. A situação era ainda mais grave no caso dos voluntários.

A reportagem testemunhou esse tipo de situação em praias como Itapoama, em Cabo de Santo Agostinho, Barra de Jangada, em Jaboatão dos Guararapes, e Janga, em Paulista, todos municípios da região metropolitana do Recife. Nas demais praias visitadas, o Estado não encontrou representantes do poder público federal, mas viu, por exemplo, salva-vidas que utilizavam uniforme convencional (bermuda e regata) enquanto tiravam óleo de uma área próxima a corais. 

O próprio site da Marinha traz dezenas de imagens  de atividades de remoção de óleo em que seus integrantes aparecem de bermuda e regata e sem o uso de proteção ocular e macacão durante ações em Estados como Bahia e na Paraíba. Segundo a instituição, mais de 2,7 mil militares participaram de ações de combate às manchas de petróleo. 

A recomendações de tipos de Equipamento de Proteção Individual (EPI) estão no site do Ibama, em uma publicação chamada “Orientações gerais à população sobre o derramamento de óleo”. Na parte sobre “remoção manual”, por exemplo, é destacado o uso de “EPI básico”, que lista “Tyvek” (tipo de macacão de polietileno), luvas, botas e proteção ocular. Outro arquivo, sobre “recuperação manual em áreas rochosas”, também inclui o uso de capacetes.

“Todos os trabalhadores devem usar EPI apropriados enquanto trabalham, incluindo proteção solar”, destaca a publicação. As mesmas recomendações foram reproduzidas no site da própria Marinha.

Em nota, a Marinha afirmou que "os militares envolvidos diretamente nas ações de limpeza utilizam o EPI apropriado". Já o Comando Militar do Nordeste afirmou, em nota, que "desde o 3º dia de atuação na retirada do óleo que atinge as praias do Nordeste, o Exército, após indicação dos especialistas em saúde, vem orientando seus militares para utilizarem, além das luvas, máscaras e botas de proteção, o uniforme camuflado com as mangas arriadas, a fim de proteger todo o corpo".

"Esse uniforme, segundo a orientação, propicia uma proteção semelhante ao macacão citado na reportagem. Ressalta-se, ainda, que a tropa empregada em uma jornada de um dia, é substituída por outros militares a fim de proporcionar descanso, físico e mental, essencial para quem teve contato, mesmo que leve, com o material tóxico. Por fim, o Exército colabora com as outras instituições e voluntários com a instalação de posto de lavagem do material, o que evita a condução de restos de óleo para locais dos mais diversos."

 

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Entenda o vazamento de petróleo nas praias do Nordeste

Investigações sigilosas identificaram óleo venezuelano; saiba o que fazer em caso de contato com a substância

Felipe Cordeiro, O Estado de S.Paulo

27 de setembro de 2019 | 05h00
Atualizado 07 de novembro de 2019 | 08h22

SÃO PAULO - Um vazamento de petróleo cru se espalha pelos nove Estados do Nordeste. O poluente foi identificado em uma faixa de mais de 2 mil quilômetros da costa brasileira. O governo federal afirma que análises já apontaram ser petróleo cru, de origem desconhecida e de tipo não produzido no Brasil. 

O petróleo já se espalhou por quais Estados do Nordeste?

As manchas já foram encontradas em todos os Estados nordestinos: Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, AlagoasSergipe e Bahia. O poluente foi identificado em uma faixa de mais de 2 mil quilômetros da costa brasileira.

Que tipo de petróleo é esse que se espalha pelas praias brasileiras?

A análise feita pela Marinha e pela Petrobrás "apontou que a substância é petróleo cru, ou seja, não se origina de nenhum derivado de óleo".  Conforme o órgão, a substância se trata de hidrocarboneto, conhecido como piche, e é a mesma em todos os pontos analisados.

De onde veio esse petróleo?

A origem ainda é desconhecida e de tipo não produzido no Brasil. Investigações sigilosas realizadas pela Marinha e pela Petrobrás encontraram petróleo com a mesma "assinatura"do óleo da Venezuela em manchas que se espalham pelo mar na Região Nordeste. O presidente Jair Bolsonaro disse não descartar que tenha sido uma ação criminosa, mas ponderou que a apuração sobre o caso ainda está em curso. 

As investigações sobre a origem do petróleo se concentram, na fase atual, em 23 embarcações suspeitas.

A conclusão já foi comunicada ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente. Não é possível dizer que todo o vazamento que atinge as praias do Nordeste tenha a mesma origem, mas análises já realizadas em algumas manchas concluíram, com certeza, que se trata de material de origem venezuelana.

O Brasil usa petróleo venezuelano no Nordeste?

Estado questionou a Petrobrás sobre a possível presença de óleo da Venezuela nas instalações da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, estrutura que, em princípio, seria construída com a parceria da estatal venezuelana PDVSA. A Petrobrás informou que nunca processou óleo de origem venezuelana em Abreu e Lima, nem mantinha estoque de produtos daquele país em suas instalações.

Há risco de as manchas de óleo se espalharem por rios e afetarem o abastecimento da população?

Técnicos ambientais de Alagoas detectaram manchas de óleo na foz do Rio São Francisco, no município de Piaçabuçu, no litoral sul do Estado, em monitoramento de rotina. Já o governo de Sergipe descobriu que não poderá realizar de imediato seu plano de instalar boias para impedir que o óleo chegue ao rio pela falta de equipamentos do tipo, que haviam sido prometidos pela Petrobrás.

A foz do São Francisco, maior rio inteiramente brasileiro, fica na divisa entre Alagoas e Sergipe. O aparecimento do óleo ficou restrito à foz, não chegando a invadir o rio. Portanto, até o momento, o abastecimento da população nordestina não foi afetado.

Quais os riscos para os banhistas?

Estão sendo tomadas previdências para evitar o contato direto dos banhistas com o piche, que pode provocar  irritações e processos alérgicos, especialmente na superfície da mão, nos olhos e na boca.  A fim de preservar a vida e a saúde das pessoas, é importante não tomar banho, pescar ou comer nas praias afetadas.

O que os banhistas devem fazer caso se sujem com as manchas de óleo?

Para alertar a população, o Instituto de Defesa do Meio Ambiente em Natal (Idema), juntamente com o projeto Tamar, elaborou material educativo com os procedimentos que devem ser tomados em caso de contato com o óleo ou tiver conhecimento de um animal contaminado. É preciso evitar o contato com o óleo e, caso aconteça, colocar gelo no local ou retirar com óleo de cozinha. Caso a pessoa tenha reação alérgica, procurar urgentemente atendimento médico.

Segundo o diretor geral do Idema, Leonlene Aguiar, todos os municípios estão orientados para a coleta feita pela limpeza urbana, de forma adequada, com pá, luvas e sem utilização de máquinas. 

Entenda como o óleo encontrado nas praias nordestinas pode afetar a saúde humana.

Quais os riscos para os peixes?

Não há evidência de contaminação de peixes ou crustáceos, mas a orientação é para que as autoridades locais de vigilância sanitária avaliem o pescado capturado nas áreas afetadas. 

E para os outros animais?

O espalhamento de óleo ameaça tartarugas, aves e o peixe-boi marinho, o mamífero dos oceanos com maior risco de extinção no Brasil. Segundo especialistas, o petróleo cru pode afetar a digestão dos animais e o desenvolvimento de algas, essenciais para a cadeia alimentar dessas espécies.

Qual será a punição para o responsável pelo vazamento?

Se o responsável pelo despejo for identificado, mesmo que seja estrangeiro, poderá ser multado em até R$ 50 milhões, com base na Lei 9.605/1988, que pune condutas lesivas ao meio ambiente. O culpado por poluir o oceano terá, ainda, de responder pelo crime ambiental.   

Quem tiver pacote de férias comprado para viajar para o Nordeste pode desistir e pedir o dinheiro de volta?

Turistas que vão para locais do Nordeste afetados pelo óleo podem negociar com as operadoras com as quais fecharam pacote para remarcar datas ou até cancelar a viagem, sem ter de pagar multa por isso. Esse é o entendimento do Procon de São Paulo, que afirma que o consumidor não pode ser responsabilizado ou prejudicado por algo que não tem culpa.

'Estadão Notícias': Qual tamanho da tragédia com óleo no mar do Nordeste? Especialistas explicam - Ouça:

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