Patricia Franco/AE
Patricia Franco/AE

Zululand ecológica no litoral catarinense

Paulo Zulu, que morou 4 anos em Paris, hoje pratica pesca artesanal, cultiva orgânicos e dirige pousada na Guarda do Embaú (SC)

Fernanda Fava, especial para O Estado de S. Paulo

30 Abril 2010 | 00h01

O modelo Paulo Zulu morou em metrópoles cosmopolitas, como Nova York e Paris, mas foi a praia da Guarda do Embaú, na cidade de Palhoça (SC), a 50 quilômetros de Florianópolis, que ele escolheu para viver com a família. “A vida me levou para grandes centros urbanos, só que a felicidade está mais próxima do que a gente imagina.” Para o carioca Zulu, misto de surfista e pescador quando está longe dos holofotes, felicidade tem uma definição bem exata: viver perto do mar.

 

Zulu passa a maior parte do ano na Guarda, onde dirige uma pousada com a mulher, a modelo Cassiana Mallmann, de 36 anos. Acorda todos os dias cedo e leva os filhos Derek, de 6, e Patrick, de 7, para a escola. Depois, se o mar estiver bom, sai para pegar onda. Ajuda a pescar e prepara o peixe que é a base da alimentação da família. À tarde, supervisiona a horta e o pomar da propriedade e treina jiu-jítsu. Seu próximo projeto é montar uma escolinha de esportes para jovens carentes da região.

 

Com sua praia de areias claras e águas limpas, a Guarda era uma pacata vila de pescadores. Uma combinação de fatores a transformou em santuário de turistas aventureiros. Os fortes ventos daquela ponta do litoral catarinense favorecem a prática de esportes como surfe, canoagem e vela. Da praia, é possível avistar golfinhos e baleias no mar aberto. E a proximidade do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro faz do balneário um destino procurado para camping e trilhas.

 

Ondas

Zulu visitou a Guarda pela primeira vez aos 18 anos, em 1981. Estava no início de sua carreira como surfista profissional e quis conhecer o lugar que, segundo amigos, tinha “algumas das melhores ondas do Brasil”.

“Fiquei encantado. Sempre tive essa essência de pescador, e a Guarda era um vilarejo de pescadores”, conta. Desde então, voltou em praticamente todos os verões. “Comprei um barquinho de pesca e comecei a ficar por lá um ou dois meses a mais, antes ou depois da temporada.”

 

Nessa época, o trabalho como modelo levou Zulu às principais capitais da moda. Escalado para desfiles de grifes como Dolce & Gabbana, Armani e Valentino, viveu nos Estados Unidos e na França. “Só em Paris, morei por quatro anos. São lugares em que todo mundo quer viver. Mas eu sonhava com simplicidade: estar na beira da praia, com o pé descalço, de bermuda.”

 

Foi por volta de 1997 que o modelo resolveu morar na Guarda. Investiu parte de suas economias na abertura da pousada, a Zululand, localizada num terreno de 8,2 mil metros quadrados, com apenas 800 metros de área construída. Foi planejada para causar o mínimo de impacto no ambiente. “No lugar das árvores derrubadas, plantamos espécies frutíferas e nativas que hoje atraem borboletas, pássaros como a gralha azul, e ajudam a manter o ecossistema.”

 

Além de ser uma alternativa ecologicamente correta, a reserva virou atração para os hóspedes. Lá eles fazem caminhadas, colhem frutas e verduras e veem de perto animais nativos como cotias e lagartos-de-papo-amarelo. “São coisas simples que as pessoas da cidade sentem vontade de fazer. Recebemos muitas crianças que não conheciam uma galinha de perto.”

 

Na Zululand sustentável, os ovos caipiras vêm do galinheiro da pousada. Os legumes e as frutas consumidos na propriedade são todos plantados na horta e no pomar que Zulu e Cassiana cultivam no terreno – sem agrotóxico, claro. Lá eles colhem laranja, bergamota, banana, caqui, figo, manga, goiaba e araçá, além de produzir couve, berinjela, brócolis, alface, beterraba e inhame. “A horta é pequena. Vou lá e tiro as lagartas, caracóis, ou simplesmente reconheço que, da colheita, 20 frutas são minhas e 5 são dos bichos.”

 

Alto-mar

A dieta saudável é uma obsessão antiga do modelo, que desde os 18 anos não come carne vermelha. Ele e a família só se alimentam de peixe. Zulu é sócio de um morador da Guarda que montou uma cooperativa de pesca artesanal. Com a atividade, consegue estocar até 1 tonelada de peixes por ano.

 

Quando começou a morar na Guarda, Zulu era visto pela comunidade de pescadores como a celebridade, o galã de novela. Mas o forasteiro quebrou essa imagem saindo para pescar com os vizinhos. Chegou a passar dez dias no mar, comendo e dormindo no barco. “Frutos do mar custam uma fortuna no restaurante, e o pescador ganha pouco e não é valorizado. Sei o sacrifício que é sair na madrugada para o alto-mar, passar uma semana fora, sem falar no risco de vida”, afirma.

 

Como nem tudo é perfeito, hoje o modelo se preocupa com a poluição do mar na Guarda. “Quando tinha um barco de camarão, para cada 10 quilos de camarão que tirava, vinham junto pelo menos 30 de lixo do mar. É uma questão de cabeça. Se todo mundo parar de jogar lixo, o peixe vai vir muito mais fácil.”

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