William Schepis/Instituto Ecofaxina
William Schepis/Instituto Ecofaxina

Voluntários fazem 'ecofaxina' nos mangues da Baixada Santista

Iniciativa existe há 15 anos e é encabeçada por um biólogo que planeja ampliar ações; grupos já atuaram em quase 150 mutirões

Eduardo Geraque, especial para o Estadão

17 de julho de 2022 | 05h00

Em 2008, o ainda estudante de Biologia William Schepis conheceu a realidade da zona noroeste de Santos, que ilustra bem alguns dos desafios socioambientais que se espalham por toda a Baixada Santista. São milhares de pessoas em submoradias. A favela do Dique da Vila Gilda, por exemplo, é conhecida por ser uma das maiores do Brasil, onde as pessoas ainda vivem em palafitas. Estimativas indicam cerca de 20 mil moradores sobre as águas.

“Uma frase que marcou muito, desde aquela época, é a que os moradores diziam: ‘joga na maré, que a maré é o lixeiro”, recorda Schepis, que criou o Instituto Ecofaxina. A organização, há quase 15 anos, desenvolve ações para alertar e mitigar a poluição ambiental de todo o estuário santista.

“As pessoas, muitas vezes, não têm acesso ao saneamento básico e a coletas regulares de esgoto. O que elas querem, na verdade, é simplesmente resolver o problema. A desigualdade social está bem presente na região”, diz o biólogo.

Paulistano, ele resolveu descer a serra para estudar. Tinha ainda o sonho de, um dia, ir trabalhar e viver em Abrolhos, no sul da Bahia. Mas os manguezais do litoral paulista falaram mais alto.

Antes de as ocupações se espalharem por Santos, São Vicente, Cubatão e Guarujá, a exuberância dos manguezais era o que predominava no cenário. Mas, em meados do século passado, com a expansão do Porto de Santos e do Polo Industrial de Cubatão, as famílias começaram a chegar.

As ações voluntárias de faxina dos manguezais, praias e rios da região são organizadas com voluntários que vestem luvas e botas para catar o lixo durante um dia todo. O trabalho mostra que a quantidade de plástico só perde para um outro item. “As bitucas de cigarro”, alerta o biólogo.

Até hoje, foram feitas quase 150 faxinas ambientais pelo instituto, onde participaram cerca de 3 mil voluntários. Mais de 65 mil quilos de resíduos foram coletados, o equivalente ao peso de uma baleia cachalote com o seu filhote. Nestas montanhas de material jogado fora, havia 14.278 pontas de cigarro, além de 1.041 resíduos eletrônicos.

Em termos de volume, os plásticos correspondem a 67% de tudo o que foi coletado. A lista apresenta ainda mais tipos de materiais, como a borracha (8%), tecido (7%), vidro (6%), isopor (4,9%), metal (3,3%), entre outros. “Essas nossas ações servem para alertar sobre o problema. Elas são importantes em termos de educação ambiental”, acrescenta o idealizador do projeto.

Proposta

Ele defende uma solução mais ampla e estruturada para a região. A ideia, que está sendo apresentada ao governo estadual, é implementar uma série de ecobarreiras em pontos estratégicos do estuário para que todo o lixo lançado ao mar seja contido pelas estruturas.

Depois, com pequenos barcos, os resíduos serão coletados e processados em uma central de reciclagem. O modelo ainda deve gerar renda para os próprios moradores, grande parte em vulnerabilidade socioeconômica. E com menos lixo circulando, esperam os técnicos do Ecofaxina, o próprio manguezal terá um respiro e poderá até voltar a ser exuberante em alguns pontos.

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