Carlos Ezequiel Vannoni/EFE
Manchas de óleo aparecem na praia de Carneiros, em Pernambuco Carlos Ezequiel Vannoni/EFE

Voluntários em PE removem grandes manchas, mas não conseguem tirar pedaços menores

Grupos se organizam pelas redes sociais; fragmentos de óleo podem ficar vários anos depositados no ecossistema marinho

Vinicius Brito, especial para o Estado

22 de outubro de 2019 | 05h00
Atualizado 22 de outubro de 2019 | 12h21

Correções: 22/10/2019 | 07h55

RECIFE - Enquanto as manchas de óleo avançam pelas praias do Nordeste, grupos de voluntários se organizam para ajudar na remoção do poluente, que fica impregnado na areia e nos corais. Nos mutirões, os grupos conseguem recolher grandes porções do material, mas têm dificuldades para retirar fragmentos menores, que podem ficar vários anos depositados no ecossistema marinho. 

Para a bióloga Yana Lopes, foi "uma das experiências mais tristes da vida" ir até a Praia de Muro Alto, em Ipojuca, um dos cartões-postais do Estado, para ajudar na força-tarefa. "Havia diversos fragmentos de óleo na praia e na areia. Nos corais, não dava para tirar porque estava impregnado", conta. No Estado, o poluente também chegou nesta segunda-feira, 21 ao Cabo de Santo Agostinho, na Grande Recife, e em outros destinos turísticos bastante procurados, como Carneiros.

Os grupos de voluntários trabalham em turnos, geralmente com início pela manhã. A maior parte sai do Recife até o litoral sul pernambucano. A comunicação é feita, principalmente, pela internet, em grupos de mensagens instantâneas. 

"Durante a experiência, você sente dois sentimentos opostos. Fica triste por ver aquilo acontecendo com as praias que frequenta. Mas também é bom ver que as pessoas estão se engajando por um bem comum, que é limpar e tentar deixar o mínimo de estrago possível", diz o estudante Yan Lopes, outro voluntário. 

Muitas vezes, no entanto, eles se sentem frustrados pela dificuldade de fazer a limpeza.

"Não se consegue tirar os micropedaços, apesar de a gente tentar de todas as maneiras. Parece que quanto mais a gente cava a terra, mais aparecem micropedaços, sem falar que a maré sempre está trazendo óleo", resume a bióloga.  

Apesar de recomendação, muitos trabalham sem luvas e botas

Os grupos têm recebido orientação da organização Xô Plástico de se protegem totalmente com luvas e botas e evitar ao máximo entrar em contato com o óleo. Além da Xô Plástico, organizações como PE Lixo, Recife sem Lixo e Salve Maracaípe recrutam voluntários. A recomendação dos órgãos públicos é para voluntários utilizarem luva e bota de borracha, além de máscara e calça comprida, para evitar contato direto com as manchas.

Apesar disso, muitos trabalham sem a segurança necessária.  "Estão distribuindo equipamento de proteção com luvas e máscaras, mas ainda é insuficiente. Tem gente que não está com equipamento e se melou toda de óleo", conta a estudante de Educação Física Louise Foster, que faz limpeza voluntária na Praia de Itapuama, no Cabo de Santo Agostinho, nesta segunda.

O secretário de Meio Ambiente e Sustentabilidade de Pernambuco, José Bertotti, afirma que o tamanho do desastre dificulta a distribuição de kits de proteção a todos. "Ontem à noite (no domingo), a gente conseguiu material de doação de empresas e a Defesa Civil fez distribuição."  Com a expectativa de que o óleo chegue aos cartões-postais do Recife esta semana, a prefeitura afirma, em nota, que mobilizou 200 profissionais de limpeza para ação preventiva nas praias. 

Segundo Zenis Novais, do Instituto de Química da Universidade Federal da Bahia (UFBA), "há pessoas mais sensíveis e (o óleo cru) pode provocar um pouco de irritação". Esse produto, diz ela, pode ter componentes que agridem a pele da pessoa. Ainda que não seja recomendado contato com a substância, a professora indica "passar acetona" para tirar o poluente da pele. 

Correções
22/10/2019 | 07h55

O texto acima foi atualizado às 7h55 desta terça-feira, 22, para corrigir o nome da bióloga entrevistada, que se chama Yana Lopes, e não Yana Costa, como publicado na versão original.

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CENÁRIO: Tropa vê tarefa de limpar óleo das praias como responsabilidade comunitária

Presidente em exercício Hamilton Mourão anunciou nesta segunda-feira, 21, o uso das Forças Armadas para a limpeza

Roberto Godoy, O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2019 | 06h00

Foi boa a primeira reação da tropa do Comando Nordeste, eventualmente envolvida na missão de apoio à recuperação das praias atingidas pelas manchas de óleo, como anunciou o presidente em exercício Hamilton Mourão nesta segunda-feira, 21. Para um oficial da 10ª Brigada de de Infantaria Motorizada, de Recife, a primeira a ser mobilizada para esse compromisso , o trabalho é parte das extensões comunitárias das forças armadas, "uma tarefa parecida, embora mais ampla, com a do provimento da infraestrutura das eleições ou do apoio nas campanhas de vacinação", disse ao Estado

O militar considera, sim, "um desvio de função", outro tipo de operação, como o envio de efetivos para guarnecer presídios e revistar celas de presos rebelados, atribuição recebida com desagrado em 2017. O uso do Exército na emergência ambiental vai empregar até 5 mil homens e mulheres, mais equipamentos -- veículos e máquinas pesadas, provavelmente da área de engenharia. É um esforço diferente, por exemplo, do combate aos focos de incêndio na floresta amazônica, em agosto, quando o Ministério da Defesa teve de reagir depressa diante de uma decisão inesperada do governo. Os militares receberam instrução básica para enfrentar o fogo de grandes proporções na mata tropical.

 Na área operacional dos três comandos -- Marinha, Exército e Aeronáutica -- o fator de irritação é decorrente da sensação de que as forças podem ser destinadas para todo tipo de ação, da repressão ao tráfico multinacional de drogas ao controle dos oito complexos de favelas do Rio de Janeiro; um deles, o da Maré, com cerca de 130  mil habitantes. Orientados pela regra da disciplina e da fidelidade à hierarquia, os militares tratam de cumprir as ordens. Entretanto, nem sempre dispõem dos recursos, preparo e treinamento adequados. 

O ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, visita nesta terça-feira, 22, e na quarta, 23, o litoral atingido pelo derramamento de petróleo em Pernambuco e na Bahia. O mapa da onda negra somava até essa segunda 65 ocorrências graves em praias de 9 estados do nordeste.  

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