Vista de cima, Amazônia é planta e água em todas as direções

Floresta sem fim impressiona quem a sobrevoa e é ilusão ao mesmo tempo confortadora e assustadora

Herton Escobar, O Estado de S. Paulo

13 Dezembro 2008 | 21h35

Várias coisas impressionam quem já teve o privilégio de sobrevoar a Amazônia em baixa altitude, com a floresta escancarada na janela de um monomotor. A primeira é o gigantismo da mata. O chamado "vazio cartográfico" dos mapas, felizmente, não tem nada de "vazio" na vida real. Na Cabeça do Cachorro, pelo menos, está tudo abarrotado de floresta até o horizonte. Pode-se voar por horas sem enxergar nada que não seja planta ou água em todas as direções. A floresta parece não ter fim - uma ilusão ao mesmo tempo confortadora (do ponto de vista da conservação da biodiversidade) e assustadora (do ponto de vista que nosso avião tem um único motor e não há uma única pista de pouso visível no horizonte).   A segunda coisa que impressiona é a quantidade de pessoas que vivem nesse oceano florestal. Mesmo nas regiões mais distantes e isoladas da mata, pode-se identificar pequenos telhados de zinco à beira dos rios. Vez ou outra, aparece também alguma rabetinha motorizada rasgando as águas escuras, cor de chocolate, típicas dessa região, a Bacia do Alto Rio Negro. De onde vem ou para onde vai, não há como saber. Basta chegar minimamente perto de alguma comunidade e a ocorrência de telhadinhos se intensifica. Inevitavelmente, cada casa aparece cercada por um mosaico de pequenas clareiras - do tamanho de um ou dois campos de futebol cada uma-, abertas na mata para o plantio de roça. É o desmatamento "formiguinha", de subsistência, típico dos ribeirinhos, que deixa a floresta parecendo uma colcha de retalhos.   À noite, quando a floresta escurece, a presença humana se torna ainda mais evidente, marcada por pequenos pontos de luz que margeiam os rios e marcam seus cursos como se fossem as pistas de um aeroporto fluvial. O que essas pessoas fazem vivendo no meio da mata? Como chegaram lá? A maioria está lá há gerações. Sobrevivem plantando mandioca, abacaxi, colhendo castanha, talvez produzindo um pouco de borracha. A economia ribeirinha é baseada no escambo: sempre que passa um barco por ali ou alguém consegue ir até a cidade, a farinha e os frutos são trocados por arroz, feijão, açúcar, sal, café, óleo diesel e outros itens de necessidade básica.   Numa viagem com o Exército pelo Rio Papuri, que forma os dentes de baixo da Cabeça do Cachorro, conversei com o índio José Manoel, da etnia piratapuia. Ele mora próximo à margem do rio com a mulher, Alzinete, e a filha Juciane, de 2 anos. A família já teve vizinhos, mas hoje vive sozinha. O pai, que mora em Iauaretê, uma hora e meia rio abaixo, aparece de vez em quando para visitar. "O resto do pessoal foi todo para a cidade procurar emprego", conta José. "Mas eu preferi ficar aqui, que é mais tranqüilo. Só dependo de mim mesmo."   A família, como tantas outras na Amazônia, sobrevive da roça e da pesca. Plantam mandioca, banana, milho, cana e abacaxi, que usam para o escambo. "O que vale mais mesmo é a cana, depois que vira álcool, se é que você me entende", conta José, dando risada. O comércio e o consumo de bebida alcoólica é proibido em terras indígenas - e a Cabeça do Cachorro é praticamente toda coberta por elas. A razão, segundo me disseram os militares, é "proteger os índios", que são conhecidos por ter um ponto fraco para a bebida e o alcoolismo. Na falta de cerveja gelada, a bebida mais popular da selva torna-se o caxiri, um fermentado alcoólico de mandioca, abacaxi ou cana que os índios mesmos preparam.   Apesar de morar na beira do rio, José tem dificuldade para pescar. Os rios de "água preta", como os da Bacia do Alto Rio Negro, têm caracteristicamente poucos peixes, em comparação com os rios de "água branca", que nascem nos Andes e se empanturram de nutrientes minerais no caminho até o Atlântico. A vantagem da "água preta" é que ela reduz a proliferação de mosquitos, porque é ácida demais para as larvas (resultado da decomposição de grandes quantidades de matéria orgânica).   Apesar dos nomes, muitos dos rios que avistamos do avião, como o Papuri, têm uma cor de chocolate ao leite - não exatamente "preta". Nas áreas rasas, onde se formam pequenas praias de areia branca, a água assume uma coloração avermelhada, parecida com a de um chá.   MILITARES   Os outros habitantes dessa imensidão verde são os soldados do Exército, que apesar de desfrutarem de uma facilidade maior de deslocamento e comunicação, também sentem as dificuldades do isolamento na floresta. No 1º Pelotão Especial de Fronteira (PEF), em Iauaretê ("cachoeira das onças", no dialeto tucano), a tropa mantém uma horta e uma criação de gado e porcos para eventuais emergências - por exemplo, no caso de uma seca mais severa, que empeça o trânsito de embarcações e a chegada de mantimentos. O distrito fica a cinco dias de barco de São Gabriel da Cachoeira, sede do município. Por regra, o PEF também mantém um armazém com comida suficiente para 90 dias (arroz, feijão, farinha), mais um freezer com carne e frango congelado para 60 dias. A comunicação com o "mundo exterior" é feita pela internet via satélite, numa sala de computadores com Skype e MSN Messenger (e ar condicionado!).   Os soldados da Amazônia vêm de todos os cantos do Brasil. Mas muitos são indígenas, da própria região. Eles parecem baixinhos e franzinos perto de seus colegas de farda camuflada do Sul e Sudeste, "mas não se deixem enganar", avisa o general Ivan Carlos Weber Rosas (um gaúcho), comandante da 2ª Brigada de Infantaria de Selva, em São Gabriel da Cachoeira. Os soldados indígenas são notórios por sua resistência, agilidade e capacidade de sobrevivência da selva. Sabem se virar como ninguém. "Você bota uma mochila de 20 quilos nas costas e eles nem ligam", diz o general Rosas.   A principal função do Exército na região, segundo ele, é "proteger o território e garantir a soberania nacional". Mas, no fim das contas, isolados nesse fim de mundo tropical, acabam servindo também como médicos, engenheiros, polícia e única companhia para as comunidades locais.   Logo ali do lado, do outro lado do rio, está a Colômbia. Terra das Farc. Mas as coisas andam tranqüilas na fronteira, segundo o general. Oficialmente, não há conflitos com guerrilheiros e o relacionamento com os militares colombianos é bom. O que não significa que não haja tráfico de drogas passando pela região. A brigada de Rosas, com cerca de 2 mil homens, é responsável pela segurança de três municípios ao longo do Rio Negro: São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro e Barcelos, que juntos somam 295 mil km2 - uma área maior do que o Estado de São Paulo.   É impossível monitorar todos os rios e igarapés - mas ajudaria pelo menos saber exatamente onde eles estão. Esse é o tipo de conhecimento que o projeto Cartografia da Amazônia vai produzir. "Mapeando e conhecendo melhor a região poderemos executar nossa missão de garantir a soberania nacional com muito mais êxito", diz o general Luis Carlos Mattos, chefe do Departamento de Ciência e Tecnologia do Exército, em visita ao Pelotão Especial de Fronteira de Maturacá, aos pés da Serra do Pico da Neblina.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.