Amanda Perobelli/Estadão
Amanda Perobelli/Estadão

Virada une sustentabilidade e cidadania

Principal evento sobre o tema no País se encerrou ontem após quatro dias de atividades; shows no Parque do Ibirapuera atraíram milhares

Juliana Tiraboschi e Leonardo Pinto, Especiais para o Estado

27 Agosto 2017 | 23h22

SÃO PAULO - Encerrada neste domingo, 27, com feira de troca de objetos no Parque do Ibirapuera, piquenique na Rua Augusta e oficinas sobre hortas urbanas no Centro Cultural São Paulo (CCSP), a Virada Sustentável teve quatro dias de debates e atividades que apontaram para a necessidade de cada cidadão assumir a responsabilidade e fazer a sua parte para preservar os recursos naturais e melhorar a qualidade de vida.

A Virada, principal evento de sustentabilidade do País, promoveu em sua sétima edição na capital paulista mais de 500 atrações em mais de cem locais da cidade, incluindo palestras, rodas de conversa, oficinas, exibições de filmes, coleta de lixo eletrônico, ocupações literárias, feiras gastronômicas, jogos, contação de histórias, trilhas e sessões de meditação e ioga. O Parque do Ibirapuera ainda recebeu um domo inflável que projetava um vídeo em 360º sobre mudanças climáticas e inovações tecnológicas capazes de mitigar as emissões de gases de efeito estufa.

“A Virada é uma grande reunião de vários eventos com o mesmo propósito, que é mostrar os desafios que temos pela frente, de uma maneira divertida, festiva e inspiradora”, disse André Palhano, um dos criadores. Para ele, fazer parte na preservação é simplesmente realizar o melhor para o mundo. “São muitas pessoas diferentes pensando e vibrando juntas.” 

Nos dois primeiros dias, as atrações se concentraram no Unibes Cultural. No fim de semana, os shows no Ibirapuera, na zona sul paulistana, tiveram bandas e artistas como Praticatatum, Bangalafumenga, Reggae Little Lions, Banda Mirim e Bloquinho da Alegria. 

O evento também reuniu nomes já conhecidos da MPB, como Tulipa Ruiz e Marcelo Jeneci, que se apresentaram juntos neste sábado e tocaram canções de seus repertórios solo e também Dia a Dia, Lado a Lado, composta pela dupla em 2009.

Coube a Arnaldo Antunes encerrar a Virada na tarde deste domingo no Ibirapuera. O cantor apresentou músicas como A Casa é Sua, Meu Coração, Consumado, Põe Fé Que Já É, Não Vou Me Adaptar, além do hit Velha Infância, dos Tribalistas.

Ambos os shows divertiram o público, mas também tiveram tom político. Ao fim da apresentação de Tulipa e Jeneci, parte da plateia começou a entoar gritos de “Fora Temer”. O músico sentou-se no teclado e emendou uma melodia ao som do grito “Ai / Ai, ai, ai / Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai / se empurrar o Temer cai”. 

Arnaldo Antunes também criticou o governo, que chamou de ilegítimo, pela extinção da Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca). “É um decreto absurdo, uma agressão a uma conquista de muitos anos”, declarou ao público. Segundo Palhano, os artistas convidados são sempre pessoas alinhadas a uma visão de mundo coerente com o evento. 

Público antenado. A professora Rita Maria Rodrigues, de 44 anos, foi ao Parque do Ibirapuera com a sobrinha participar da feira de trocas. Ela trouxe roupas e conseguiu outras peças de vestuário e um livro sobre minimalismo, que, segundo ela, a ajudou na cura do seu quadro depressivo nos últimos anos.

Rita diz que está em fase de “desapego” há quase dois anos. “Participo de grupos de troca na internet, me encontro com pessoas e essa vida minimalista veio para ficar. Eu consegui curar minha depressão durante esse tempo.”

A jornalista Renata Vasconcelos, de 40 anos, reuniu os brinquedos da filha Rafaela, de 9, para “desapegar” na feira de trocas. Agora ela pensa em reproduzir a iniciativa na escola da menina. “Pensei em montar um grupo de mães para mobilizarmos a nossa troca de objetos que não usamos em casa. É uma experiência que deve ser levada para a vida e adotada pelo maior número de pessoas possível”, afirmou. 

O americano Justin Hall, de 31 anos, empresário de Washington (EUA), estava no Brasil a trabalho e foi ao Ibirapuera sem saber da Virada Sustentável. “Tudo isso é ótimo. Eu me deparei com esses shows e tendas, com vários tipos diferentes de pessoas e famílias. Estamos interagindo com o povo.”

Pais aproveitam os eventos para interagir com os filhos

O evento se tornou opção para unir a família. O ex-funcionário público Jacob Silva Júnior, de 66 anos, e a mulher, a dona de casa Marta Macedo, de 61, saíram de Florianópolis para visitar os netos em São Paulo e para participar da Virada. Eles se mudaram da capital paulista para o sul do País no início da década de 1990 para escapar da poluição, da violência e da baixa qualidade de vida. 

“Nós nos mudamos para Florianópolis para fugir dessa vida louca de São Paulo, que tem muito barulho, trânsito e pobreza. Desta vez viemos também ao festival, porque se fala bastante da importância de cuidar do meio ambiente, jogar o lixo no local certo, mas nunca mostram como se faz. Então viemos aprender”, diz Silva.

Enquanto isso, o publicitário Lauro Antonio Augusto e a tradutora Marina Jarouche adotaram a Virada Sustentável com a filha Cecília, de 2 anos. Viram a Banda Mirim, uma das atrações musicais de ontem, e foram à Oficina Cantada, um espaço de contação de histórias organizado debaixo de uma árvore no Ibirapuera. Na atividade, também confeccionaram juntos uma boneca feita de lã e outros materiais recicláveis.

Casados há quatro anos, Lauro e Marina afirmaram preocupar-se em ocupar os espaços da cidade. Para eles, isso pode moldar uma criança e torná-la mais consciente do meio ambiente e do seu entorno. “Às vezes gostaríamos de ensinar (repreender) pessoas que jogam lixo na rua, mas não sabemos qual será a reação delas. São Paulo é violenta nesse aspecto”, observou o publicitário. A família sempre procura passear em lugares abertos para mostrar à filha que a cidade sempre tem o que oferecer de boa qualidade de vida. “Não frequentamos shoppings, gostamos do ar livre. São ambientes que proporcionam para nós e para a Cecília uma vida mais sustentável.”

Na roça urbana. No Centro Cultural São Paulo (CCSP), um festival de agricultura urbana foi o local de integração escolhido pelo jornalista Vinícius Costa e pela cozinheira Angelina Costa para levar o afilhado Miguel, de 4 anos. Ali, pôde aprender mais sobre a importância de cuidar de plantas e algumas técnicas de compostagem. 

“O Miguel ficou muito entretido com todo esse universo do plantio e da cultura orgânica. Ele é intolerante à lactose e sempre tentamos cultivar o que podemos para tornar a alimentação dele e a nossa a mais saudável”, relatou Costa.

Morando juntos em um apartamento pequeno, eles dizem ser difícil praticar agricultura urbana, ainda mais com o clima imprevisível do Município. Mas sempre tentam cultivar ervas mais simples. “Tem a questão do custo-benefício, quando se produz em casa, e a qualidade é muito melhor. E não queremos sustentar empresas e produtos que fazem mal à saúde. Por isso é importante conhecer os orgânicos”, disse Angelina.

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