Virada Sustentável
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Virada Sustentável aborda preservação do Pantanal e da Amazônia

Evento conta com a participação de especialistas para discutir soluções e desafios para sustentabilidade nos dois biomas

Larissa Gaspar, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2020 | 09h00

A emergência climática, com recordes de temperatura no Brasil inteiro e as recentes queimadas no Pantanal – e na Amazônia, em 2019 – evidenciaram a crise ambiental que o País vive na última década. Apesar do cenário pessimista, os participantes dos painéis sobre meio ambiente do último dia do Fórum Virada Sustentável mostraram-se esperançosos principalmente pelo despertar da população para a importância da sustentabilidade. 

No painel “Biomas em Foco: Soluções e Desafios para a Preservação – Especial Pantanal”, os especialistas falaram sobre a recuperação do bioma após as queimadas e o papel das empresas privadas e Organizações da Sociedade Civil (OSCs) nesta retomada. O bate-papo com Virgílio Viana, superintendente-geral da Fundação Amazonas Sustentável (FAS), focou a situação na Amazônia e a necessidade de um projeto de país que considere o desmatamento como algo problemático para a economia. 

Preservação como fonte de renda 

Para Rui Chammas, CEO da concessionária de energia elétrica ISA CTEEP, a covid-19 trouxe a lição de que questões importantes não são resolvidas a curto prazo. “Eu gostaria que a humanidade transportasse isso para problemas como o aquecimento global. A incidência de queimadas é um chamado para o despertar de que somos um só. O ser humano esquece que ele faz parte da biodiversidade”,  observa. 

Com objetivo de preservar o habitat da onça-pintada no Pantanal, o grupo ISA lançou o Conexão Jaguar. O programa, que faz referência a um dos nomes populares do felino, desenvolve ações de conservação da biodiversidade e de mitigação das mudanças climáticas, por meio da implementação de projetos florestais para a redução de emissões de gases do efeito estufa.

“O Conexão Jaguar preserva a onça-pintada não apenas pelo animal em si, mas pela crença de que, quando se preserva o habitat do animal que é o topo da cadeia alimentar, você faz com que todas as espécies que lá estão vivam em harmonia”, explica o CEO da ISA.  

O mercado de crédito de carbono não é novo no Brasil, mas foi regularizado com o programa Floresta+ Carbono, lançado oficialmente pelo Ministério do Meio Ambiente no começo de outubro. Assim como o Conexão Jaguar, o projeto incentiva o pagamento por serviços ambientais com foco em créditos de carbono. Contudo, empresas privadas é que são responsáveis pelo desenvolvimento de projetos de neutralização do composto químico. 

A Panthera e o Instituto Homem Pantaneiro são algumas das organizações participantes do projeto que arrecada recursos por meio desses créditos, certificados e comprados pela ISA e por outras empresas ao redor do mundo. O planejamento financeiro destas instituições por meio dos créditos de carbono, contudo, foi paralisado devido às queimadas no Pantanal. A coordenadora técnica de projetos do Instituto Homem Pantaneiro, Letícia Larcher, lembra que ela e a equipe começaram 2020 otimistas, pois teriam a oportunidade de “respirar mais tranquilos com a oportunidade que o projeto Conexão Jaguar traria à instituição". 

No entanto, ainda em janeiro, eles mobilizaram recursos, doações e orçamento da organização para o combate às queimadas na Serra do Amolar. “Nossa sustentabilidade (financeira) ficou em risco principalmente porque nossos recursos vêm de áreas de fauna. E, com todo o entorno pegando fogo, a sustentabilidade por crédito de carbono só faria sentido se a gente tivesse diversidade naquela área”, destaca Letícia. 

Apesar de o crédito de carbono ser uma alternativa de arrecadação de recursos para o Instituto Homem Pantaneiro, hoje o contexto da região é de desespero em saber que o fogo pode ainda estar presente em 2021. Letícia, contudo, segue otimista em trabalhar “produzindo natureza” com as atividades desenvolvidas pela OSC, como monitoramento ambiental, observação de felinos e brigadas de controle de incêndio. 

O diretor regional da Panthera na América do Sul, Esteban Payán, lembra que onça-pintada requer grandes territórios para sua sobrevivência e isso implica trabalhar com “níveis de paisagem”, nos quais haja espaço e comida suficiente. 

“Parques nacionais não são suficientes para abrigar onças, por isso trabalhamos em zonas de planejamento de desenvolvimento, a nível nacional. O mercado privado é um mecanismo importante para conservar os jaguares. Estamos fazendo inovação científica com o método por bônus de carbono, que nos dá recurso por não destruir o meio ambiente e conservar não só o jaguar mas, sim, a diversidade associada a ele”, diz. 

A ideia do Conexão Jaguar é que o carbono “economizado” retorne como renda para o instituto, que já faz um trabalho em áreas de preservação. E seu sucesso foi operacionalizar um projeto baseado em estrutura empresarial que lucra com a preservação.

O CEO da ISA, Rui Chammas, ressalta que as empresas privadas também precisam pensar em sustentabilidade, sobretudo porque a crise ambiental também impacta a economia. “Preservação parece algo que não tem custo, mas produzir natureza é algo rentável. Para irradiar valores sustentáveis, como sociedade, temos que encontrar soluções para que uma floresta valha mais viva que desmatada, que um animal tenha mais valor preservado que empalhado ou numa gaiola. Podemos fazer isso com remuneração por meio de créditos de carbono, com o ecoturismo e usando o meio  ambiente como vetor educacional para a população do entorno”, diz. 

Consumidor mais consciente pode salvar a Amazônia 

Em sua participação na Virada Sustentável, Virgílio Viana apontou que o Brasil vive um paradoxo. De um lado, há uma crise ambiental sem precedentes e, do outro, um consumidor mais consciente e engajado nas causas sustentáveis.“Nós podemos aumentar o nível de engajamento das pessoas, porque, com um consumidor consciente, as empresas passam a se mexer e isso impacta economicamente os agentes que são responsáveis pelo desmatamento”, comenta o superintendente-geral da Fundação Amazonas Sustentável (FAS), organização que completou 12 anos em 2020. 

Além disso, ele reforça que a cobrança deve ser revertida em ação, que é o poder de voto. Em ano de eleição, o cidadão possui um papel fundamental para mudar o projeto de país em vigência - que, segundo ele, não existe. “Não se construiu um projeto de país e, por isso, não se tem um projeto para a Amazônia. O que queremos para Amazônia? Que ela seja um grande parque? O garimpo é bom ou ruim? O País, como unidade, não decidiu isso. Ficamos sujeitos às variações de humor dos diferentes governantes que passam pelo poder”, diz o superintendente, que  desenvolve um trabalho de preservação em 11 milhões de hectares com 581 comunidades. 

De acordo com Virgílio, o projeto de país deve ser pensado à luz da ciência, e “não partindo de uma premissa da Guerra Fria”, em que não há diálogo. “Ver a Amazônia em questão de megawatts é sugá-la. Belo Monte gera energia elétrica, mas não gera prosperidade. Altamira é uma região pobre, com nível de criminalidade altíssimo. Precisamos pensar em soluções que gerem prosperidade e a principal delas é fazer com que a floresta tenha valor em pé e não derrubada”, diz.  

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