Vila investe em educação, mas padre rejeita aula em igreja

Comunidade que passou a atrair crianças de localidades vizinhas não tem mais espaço para abrigar todo mundo

Leonencio Nossa, O Estado de S. Paulo

21 de março de 2011 | 23h59

Depois de percorrer igarapés e um trecho do Rio Paraná de Ramos, na região de Parintins, a voadeira entra no Aicurapá. É marcante o contraste das águas no encontro do barrento Ramos com o negro Aicurapá. Num trecho da margem esquerda deste último, no alto de um barranco, está a comunidade do Maranhão, onde vivem 130 famílias.

 

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Na comunidade, há um esforço dos adultos pela educação. Foi o que bastou para receber crianças vindas das cabeceiras, dos pequenos igarapés, dos furos, dos trechos mais distantes da várzea, dos lugares onde não se sabia ter moradores. Elas apareceram, com os pais ou sozinhas, em canoas, às vezes duas ou três na mesma embarcação.

 

Oito professores trabalham em turmas de 1.ª a 8.ª séries no colégio local. Vanderléia Valente, funcionária da escola, leva a equipe do jornal até a igreja da comunidade, que virou sala de aula. “Num sermão, o padre disse que não quer mais saber de estudante na igreja, que igreja é lugar de rezar. Ele é enjoado.”

A professora de português Miracir Ribeiro trabalha há 18 anos em escolas do interior do Amazonas. “A água aqui determina o período letivo. Há aulas na várzea enquanto a água permitir”, diz.

 

Quantidade de matriculados na escola local é o triplo do número de crianças da comunidade do Maranhão. FOTO: CELSO JUNIOR/AE

 

Miracir usa textos de Cecília Meireles, Marina Colasanti e Jorge Amado nas aulas. Nesta tarde, faz com uma turma de 6.ª série a leitura do texto O Sofá Estampado, de Lygia Bojunga Nunes. Mãe de quatro filhos, Miracir fala das dificuldades na cheia. “Acho que falta uma política de governo para amparar o ribeirinho. Por mais que ele esteja preparado, é sempre complicado: as plantas morrem, os animais fogem para não morrer ou são mortos pelas sucurijus.”

 

Um grupo de homens trabalha na construção de um novo galpão de madeira para abrigar as crianças. Valdo Rodrigues de Oliveira, de 38 anos, lidera o grupo e a comunidade. Ele pertence à elite local, formada pelos donos de barco de pesca. Hoje, só duas famílias dispõem de embarcações que podem ficar semanas no rio, em pescarias de rede. Cada barco tem cerca de 15 metros e pesa 8 toneladas. Dezenas de homens trabalham com eles.

 

Espaço. “A dificuldade é espaço físico. A gente não cuida só de nossos filhos, cuida dos meninos de outras comunidades, que não são avançadas como a nossa”, afirma Valdo. Ele diz que há 270 matriculados na escola, o triplo do número de meninos e meninas da comunidade. “Foi para atender a demanda de fora que colocamos crianças na igreja.”

 

O líder comunitário fala das reivindicações feitas a prefeitos e parlamentares, sem sucesso. “Precisamos de escola mais digna para os nossos filhos. Tenho quatro estudando na escola. Mas logo depois eles não vão ter mais ensino. A gente ainda não tem o 2.º grau.”

 

Por três meses a prefeitura não pagou o salário dos quatro barqueiros que transportam crianças para o Maranhão. “Os barqueiros continuam no serviço por amor às crianças.”

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