Sérgio Castro/Estadão
Sérgio Castro/Estadão

Vende-se área no meio do mato para preservação total

Ex-empresário loteia propriedade no topo da Serra da Bocaina, mas compradores não podem plantar nada nem criar gado

Giovana Girardi, Enviada especial, O Estado de S.Paulo

19 Janeiro 2014 | 02h09

BANANAL - Na Serra da Bocaina, no meio do caminho entre São Paulo e Rio de Janeiro, um remanescente de Mata Atlântica está à venda. Não se trata, porém, de mais uma das histórias de desmatamento promovido pela especulação imobiliária que se tornaram notórias no bioma, em especial no litoral norte paulista, a partir da década de 1980. Quem comprar um lote ali não pode fazer condomínio de luxo, nem tampouco colocar gado, agricultura, pinus ou eucalipto. O comprador só tem uma opção: preservar a mata.

O projeto pioneiro de conservação foi idealizado pelo ex-empresário do ramo de seguros Ricardo Roquette-Pinto, hoje com 78 anos, que resolveu há uns 30 investir na preservação do bioma mais devastado do Brasil. Ele aprendeu meio na marra - com uma fazenda sem lá muito potencial produtivo que tinha comprado no município de Bananal -, que o melhor que ele tinha a fazer com aquela terra era deixar a vegetação remanescente tomar conta e aproveitar seus benefícios.

No início dos anos 2000, quando um terreno vizinho foi a leilão, ele resolveu comprá-lo e aplicar a mesma lógica. A área, de 1.100 ha, que abriga o Projeto Águas da Bocaína, conta a história de degradação da Mata Atlântica. Fora desmatada, provavelmente a partir dos anos 1950 e 1960, para servir de carvão vegetal em fornos de ferro gusa. Já nos anos 70, foi comprada por uma madeireira, que recebeu incentivos do governo federal para plantar pinus e eucalipto. A empresa faliu, o local ficou abandonado, e Roquette-Pinto o arrematou em 2002. Ao longo de oito anos, tirou todas as árvores de lá - 250 mil toneladas de pinus e 68 mil toneladas de eucalipto - e deixou a floresta rebrotar.

Deu certo. A flora está em processo de recuperação e a fauna voltou. Uma onça é avistada de tempos em tempos, num sinal de que o local está interligando remanescentes de floresta. Cortado por rios e nascentes, é importante produtor de água para Rio de Janeiro e São Paulo e precisa da vegetação para manter esse serviço.

'Com os burros n'água'. Roquette-Pinto brinca que deu literalmente com os "burros n'água" ao tentar tornar sua primeira propriedade na Bocaina em algo produtivo. No alto do morro, onde só se chega por meio de uma estrada de terra, sinuosa e esburacada, a partir de Bananal, o local não é propício para o plantio nem para gado, por conta da declividade. "Mas achei que conseguiria fazer dinheiro aqui", conta. "Já que o ambiente é tão rústico - pensei -, vou criar burro, que é rústico também, e poderia ter valor econômico como animal de tração. Comprei uns jumentos de qualidade e umas éguas pé-duro e fizemos burros lindos, fortes. Só que o mercado de burro não é aqui, é no Nordeste, ninguém vem da Bahia para comprar burro aqui. Aí desisti", lembra, divertindo-se.

"De repente me ocorreu que o que eu gostava daqui é entrar no mato. O o que é bonito aqui é justamente a exuberância da natureza. Como a carola que entra no Vaticano e diz 'meu Deus, que coisa mais linda'. É assim que eu me sinto. Quando comprei a outra fazenda, pensei: devem ter outros malucos como eu que vão dar valor e querer preservar isso."

O projeto Águas da Bocaina se vale da ferramenta de RPPN (Reserva Particular do Patrimônio Natural), por meio da qual proprietários de terra que tenha áreas de mata se comprometem a mantê-las. No caso do projeto, em que as glebas têm cerca de 40 hectares, Roquette-Pinto estabelece por contrato que o uso ficará restrito a 2 ha. O resto tem de transformar em RPPN. "Porque aí fica intocável, pro resto da vida."

O terreno foi dividido em 29 glebas, sendo que 27 foram colocadas à venda. Duas vão ficar para uso comum. Uma que tem uma cachoeira linda, que ganhou o nome de Luisa (uma das netas de Ricardo) e outra que tem uma bica de água potável. A ideia é não restringir os dois bens a um único proprietário, mas deixá-los acessíveis a todos. Roquette-Pinto já conseguiu vender nove, com o preço variando de R$ 1,20 a R$ 1,40 o metro quadrado.

Questionado se tem de o processo para vender o terreno depende de muito convencimento, o empresário é categórico. "Aqui é o contrário, eu não vendo nada, o cara vem comprar. Porque aqueles que hesitam, que requerem um esforço de venda meu, não vão comprar. Então não vou nem perder tempo. Se o cara vem com 'ah, mas isso', 'ah, mas aquilo'..., eu já falo: nem compre", afirma, enquanto caminha pela propriedade ao som de arapongas e mostra com animação os locais com árvores altas que anos antes eram tomados por eucaliptos.

"Mas a verdade é que o pessoal nem negocia muito o preço. Porque sabe que está comprando uma joia única. "Nós não vendemos terra, mas botes salva-vidas no Titanic. O mundo tá desabando, a água está acabando, e você vai ter seu bote salva-vida, ser dono da sua água."

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