Derretimento de geleira na Groenlândia está se acelerando

Estudo mostra que velocidade de degelo dobrou entre 2003 e 2010, em comparação com todo o século 20

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

16 Dezembro 2015 | 19h13

A velocidade do derretimento das geleiras na Groenlândia dobrou entre 2003 e 2010, em comparação ao degelo verificado ao longo de todo o século 20. A conclusão é de um novo estudo publicado nesta quarta-feira, 16, na revista Nature.

Além de medir a aceleração do degelo, o estudo revelou pela primeira vez a contribuição da perda de gelo na Groenlândia para a elevação global do nível dos oceanos: 2,5 centímetros entre 1900 e 2010, o equivalente a 18% do aumento verificado no mesmo período.

O novo estudo, liderado por cientistas da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, também é o primeiro do gênero a ser realizado com base em observação direta, a partir de milhares de fotos aéreas. Até agora, todas as estimativas feitas sobre a perda de gelo na Groenlândia se baseavam exclusivamente em modelos computacionais. 

De acordo com os autores, a perda da massa de gelo da Camada de Gelo da Groenlândia ficou duas vezes mais rápida entre 2003 e 2010 e muitas das áreas que estão perdendo gelo atualmente são as mesmas que haviam se tornado mais finas ao longo do último século.

Um dos aspectos mais importantes do novo estudo, segundo os autores, é que ele preenche uma lacuna existente no último relatório do Painel Internacional de Mudanças Climáticas das Nações Unidas (IPCC), de 2013. 

Eles explicam que, até 1992, havia uma carência de observações diretas sobre a cobertura de gelo da Groenlândia e, por isso, era difícil estimar as alterações ocorridas no resto do século 20. A consequência foi que o relatório do IPCC de 2013 não incluiu a contribuição do degelo da Groenlândia anterior a 1990 em seu orçamento global do nível do mar.

"Sem saber a contribuição de todas as fontes que impulsionaram a elevação global do nível do mar, fica difícil prever o futuro dos oceanos. No nosso estudo, utilizamos observações diretas para determinar a perda de massa da Camada de Gelo da Groenlândia e, assim, revelar sua contribuição para a elevação do nível dos mares", disse ao Estado o autor principal do estudo, Kristian Kjeldsen, do Museu de História Natural da Universidade de Copenhague.

Segundo Kjeldsen, no período entre 1900 e 1983, o gelo ficou mais fino em áreas amplamente distribuídas do noroeste até o sudeste da costa da Groenlândia. O derretimento nessas áreas responde por 78% da perda total de gelo no período. Entre 1983 e 2003, 83% do derretimento ocorreu exatamente nas mesmas áreas. 

O estudo, de acordo com Kjeldsen, mostra que a aceleração observada recentemente na perda de massa da Camada de Gelo da Groenlândia - e sua contribuição para a elevação do nível do mar - não tem precedentes desde a Pequena Era do Gelo, que ocorreu entre o início do século 13 e o fim do século 19.

Entre 1978 e 1987, de acordo com Kjeldsen, foram feitas mais de 4 mil fotos aéreas da ilha que pertence à Dinamarca. As imagens mostravam claramente uma marca chamada "linha de corte". Abaixo dessa marca, a paisagem tem uma cor diferente, deixada nos locais onde as geleiras raspavam na rocha no passado, erodindo a vegetação. 

A linha de corte indica a extensão máxima das geleiras antes que elas começassem a se retrair, no fim da Pequena Era do Gelo, por volta de 1900.

Associando esses dados às observações atuais das posições dos glaciares, os cientistas mapearam as características das geleiras em três dimensões, a fim de descobrir o volume de gelo excedente no passado e estimar com precisão o ritmo do derretimento.

A partir de 1983, dados de satélites e mais fotos aéreas forneceram a base para cálculos similares. Agregados, os dois métodos permitiram mapear o ritmo em que as geleiras se tornaram mais finas e a redução da massa de gelo ao longo de todo o século 20.

"O fundamento do estudo é um conjunto único de fotos aéreas feitas pelo governo dinamarquês. A reconstrução digital do passado e a elevação presente, que tem base nas fotos aéreas, permitiram uma análise inédita da cobertura de gelo", afirmou Kjeldsen.

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