JONNE RORIZ / ESTADÃO
JONNE RORIZ / ESTADÃO

Veja quais são as espécies invasoras que ameaçam o ecossistema brasileiro

Caso de peixe-leão no Ceará acende alerta também sobre os riscos à saúde humana

Leon Ferrari, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2022 | 05h02

De beleza única, alternando listras vermelhas, marrons e brancas, e com barbatanas longas e fluidas, não é de se estranhar que o peixe-leão (lionfish) tenha se tornado tão popular entre aquaristas. O fato de 30 desses animais terem sido capturados no Ceará recentemente, bastante distante do Indo-Pacífico, de onde são originários, transforma toda essa beleza em sinal de alerta para um problema grave: as espécies exóticas invasoras. Elas afetam o equilíbrio ambiental, ameaçando a biodiversidade e colocando espécies nativas em risco de extinção, além de custarem bilhões anualmente devido a prejuízos agrícolas e à saúde humana, principalmente.

Segundo relatório da ONU, as invasões biológicas estão entre os cinco principais geradores de mudança dos ecossistemas nativos globalmente, que causaram alterações “sem precedentes” na natureza nos últimos 50 anos. Desde 1970, o número de espécies exóticas invasoras aumentou cerca de 70% – em 21 países com registros detalhados.

Intimamente ligadas à ação humana e à evolução dos meios de transporte, o relatório aponta que a taxa de introdução delas parece mais alta do que nunca e não mostra sinais de desaceleração. Estudiosos esperam um aumento da presença delas e de seus impactos nas próximas décadas – principalmente com as mudanças climáticas.

De forma acidental ou não, em 1985, o peixe-leão foi parar na costa da Flórida (EUA). Da década de 80 para cá, o que se viu foi uma explosão da presença desse predador em uma velocidade sem precedentes. Ele já se estabeleceu em águas costeiras do Atlântico de parte das Américas, do Mar do Caribe e do Golfo do México. Alimentando-se de mais de 50 espécies de peixes – inclusive, consegue ingerir 30 em meia hora –, o invasor afeta teias alimentares marinhas de ecossistemas nativos.

Em abril, um pescador passou várias semanas no hospital após pisar no animal e ter contato com o veneno dele, na Praia de Bitupitá, do município de Barroquinha, no litoral do extremo oeste do Ceará. Desde o final de fevereiro, as ocorrências de captura do peixe nessa região, que fica na divisa com o Piauí, já chegaram a 30, segundo Luís Ernesto Arruda, professor do Labomar (UFC) e cientista-chefe de Meio Ambiente do Estado (Sema/Funcap).

“Acho que é sim uma chegada do peixe-leão no nosso litoral”, diz Arruda. “É muito provável que ele esteja vindo do Caribe e conseguindo passar por baixo da pluma do Rio Amazonas.” A região não tem registro de aquarismo da espécie e os animais encontrados são juvenis – o que pode indicar que eles estão se reproduzindo por aqui.

Anteriormente, conforme a Base de Dados Nacional de Espécies Exóticas Invasoras, do Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental, aparições pontuais do animal foram registradas no Rio de Janeiro, em Pernambuco, no Pará e no Amapá. A mais antiga é de 2014. 

Além de danos ambientais e à saúde humana, Arruda destaca que há preocupação com a atividade pesqueira, maior fonte do Produto Interno Bruto (PIB) do Estado, e turística. Por ora, em parceria com a Universidade Federal do Ceará, o governo faz análises genéticas, para determinar a espécie, e do estômago, para entender o comportamento dos animais.

INVASORES

O peixe-leão, porém, é apenas uma entre várias espécies exóticas invasoras em solo e águas nacionais. De acordo com relatório do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), de 2019, há 363 delas no País. A Base Nacional do Instituto Hórus lista 480.

Sempre relacionado à ação humana, o processo de invasão biológica pode ser intencional, quando há o objetivo de inserir uma espécie fora de seu local natural de ocorrência, ou não. Para que ela se estabeleça e se torne invasora, porém, precisa vencer uma série de barreiras. Muitas não sobrevivem à chegada. Outras conseguem interagir com o novo meio, mas não se reproduzem. Algumas dão um passo além e conseguem se reproduzir (espécies exóticas estabelecidas). Elas se tornaram invasoras quando, além de formar pequenas populações, começam a se dispersar e ameaçam o equilíbrio do ecossistema.

Para Sílvia Ziller, doutora em Conservação da Natureza com foco em invasões biológicas, e diretora executiva do Instituto Hórus, as invasoras precisam ter características ecológicas e biológicas que permitam facilidade na reprodução. “E, então, quando elas saem de casa, viram exóticas e começam a se adaptar, se reproduzir e a se propagar desproporcionalmente. Mesmo que isso leve muito tempo, passam a expulsar as espécies nativas daquele local, ocupam esse espaço e causam mudanças biológicas importantes.”

As espécies invasoras podem levar à homogeneização biótica, ameaçando a biodiversidade, com a possibilidade de extinção de espécies locais, e promovendo redução dos serviços ecossistêmicos. Além de apresentarem impactos à saúde e à atividade agrícola.

Por mais que o processo de invasão biológica seja complexo e possa levar anos, ele é mais veloz que a colonização natural. “O processo natural de colonização de novos lugares é extremamente lento. Lá em Galápagos, era uma espécie a cada 10 mil anos. Com a chegada das pessoas, isso vira 100, 200, 500 espécies por ano”, destaca Sílvia.

Essa relativa velocidade se deve à falta de controladores naturais, como doenças e predadores dessa espécie fora de seu local de ocorrência. “A espécie trazida escapa disso. Ela vem com uma vantagem competitiva e, por isso, ela é mais agressiva e destrutiva mesmo”, explica Sílvia.

Uma vez que a espécie se apresente altamente difundida, a erradicação é quase impossível – por isso a prevenção e a reação rápida são tão importantes. O controle populacional pode ser químico (com pesticidas, por exemplo), biológico (inserindo parasitas) ou físico (remoção manual e abate).

CUSTO ALTO

Os impactos das invasões custam caro e alguns danos são irreversíveis. Entre 1984 e 2019, elas custaram mais de US$ 105 bilhões aos cofres brasileiros, conforme estudo de Rafael Dudeque Zenni, pós-doutor em ecologia e biologia evolutiva do Departamento de Ecologia e Conservação da Universidade Federal de Lavras, e outros colegas, publicado na revista NeoBiota.

Esse gasto, no entanto, é referente apenas a 16 espécies invasoras – menos de 10% das listadas pelo Ibama. “Se você pensar que toda espécie exótica invasora tem algum custo econômico, esse número potencialmente pode ser até dez vezes maior”, avalia Zenni.

O estudo indica que o País não gasta quase nada com prevenção. Os custos relatados para danos representam 98,9% (US$ 104,3 bilhões) do total, enquanto apenas US$ 1,19 bilhão foi investido em ações preventivas de manejo, controle ou erradicação (1,13%).

Em um cenário de intensificação do comércio, de viagens e do turismo, estudos indicam que as próximas décadas serão marcadas pela expansão das espécies invasoras e seus impactos. A relação entre as invasões e as mudanças climáticas é de sinergia. Uma se aproveita dos distúrbios criados pela outra.

PROGRAMAS

Responsável pela gestão de unidades de conservação federais, o ICMBio informou que, entre fauna e flora, há registro de 221 espécies invasoras. O instituto disse que elabora “Planos Prevenção, Controle, Erradicação e Monitoramento de EEI, que são planejamentos complementares aos Planos de Manejo das UC federais” – a equipe gestora da unidade define a prioridade de elaboração do planejamento específico.

Na cidade de São Paulo, a Secretaria do Verde e do Meio Ambiente (SVMA) lista 60 espécies invasoras – 30 de fauna e 30 de flora. A Prefeitura desenvolve projeto para a retirada de palmeiras-australianas do Parque Trianon. 

A reportagem entrou em contato com o Ministério do Meio Ambiente e o Ibama, mas não obteve resposta. O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento disse não dispor de informações sobre quantidade de espécies invasoras e danos à agropecuária.

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