Funai
Membros da agência de assuntos indígenas do Brasil com um grupo de indígenas Korubo no Vale do Javari em 2015 Funai

Uma conquista evangélica está acontecendo. E a Amazônia é um prêmio muito procurado

A única saída é limitar as ações evangélicas contra os povos indígenas da Amazônia e respeitar seus direitos a autodeterminação

Manuela Lavinas Picq*, The New York Times

08 de outubro de 2020 | 10h00

Conforme o coronavírus se espalhou pela Amazônia em março, a organização evangélica Missão Novas Tribos do Brasil começou a montar uma missão ao Vale do Javari, uma região remota perto da fronteira com o Peru onde habita a maior concentração de povos indígenas do mundo.

Com um helicóptero recém-adquirido, o grupo supostamente planejava contatar e converter a tribo Korubo que vive em isolamento voluntário no vale. A operação corria o risco de espalhar o coronavírus e outras infeções perigosas para pessoas altamente vulneráveis a doenças transmitidas por estranhos. Os missionários continuaram organizando voos para o Vale do Javari até o final de março. Em abril, um juiz brasileiro proibiu que eles e outros grupos missionários entrassem na área. (Em resposta às críticas, o grupo negou que planejava entrar em contato com tribos isoladas e disse que não trabalha com povos isolados.) Uma conquista evangélica está acontecendo em toda a América Latina, e na luta pela hegemonia religiosa a Amazônia é um prêmio muito procurado. De acordo com uma pesquisa, agora há mais evangélicos do que católicos na região. Missionários evangélicos também estão entrando na política, com a intenção de moldar políticas que facilitem o acesso às últimas tribos.

Em fevereiro, o presidente Jair Bolsonaro nomeou Ricardo Lopes Dias, missionário evangélico da New Tribes Mission e agora antropólogo, encarregado da Coordenação Geral de Índios Isolados e Recém Contatados, da Fundação Nacional do Índio (FUNAI). Lopes Dias agora está posicionado para transformar os objetivos evangélicos em política. Sua nomeação provavelmente encorajou grupos missionários a procurar contatar tribos isoladas.

Não é a primeira vez que a New Tribes Mission of Brazil, uma filial da New Tribes Mission nos Estados Unidos agora conhecida como Ethnos360, corre o risco de espalhar doenças junto com a palavra de Deus.

Desde a década de 1940, a missão tem forçado o contato com comunidades indígenas, procurando convertê-las. O grupo trabalhou com o Summer Institute of Linguistics para traduzir o Novo Testamento para as línguas indígenas e para criar igrejas em povos isolados. Por muitos anos o governo brasileiro tentou proteger as tribos que optaram por viver isoladas dessas incursões. Agora o governo está apoiando as mesmas incursões.

Na década de 1980, depois que New Tribes Mission of Brazil forçou o contato com o povo Zo’é no norte da Amazônia brasileira, aproximadamente um quarto dos Zo’é foi exterminado por doenças. A FUNAI expulsou os missionários no início dos anos 90, mas alguns permaneceram, e em 2015 foram acusados de escravizar o povo Zo’é para coletar castanha-do-paráem uma plantação da missão.

Em 2014, Warren Scott Kennell, ex-missionário do grupo, foi condenado a 58 anos de prisão federal por abusar sexualmente de meninas de uma tribo indígena na Amazônia e por filmar os atos.

Até o nome da revista do grupo fundado em 1943, Brown Gold, fala muito sobre sua abordagem conquistadora.

Lopes Dias insistiu que seu passado com os missionários não influenciaria seu trabalho no governo, mas o antropólogo Edward Mantoanelli Luz, filho do presidente de New Tribes Mission of Brazil, admitiu que fez lobby para “formalmente mudar” a política estabelecida no Artigo 231 da Constituição brasileira que garantia o direito dos povos indígenas de permanecer isolados.

Os indígenas do Vale do Javari denunciaram a nomeação de Lopes Dias como ponta de lança de um genocídio. Seu coordenador, Paulo Marubo, afirma que “o projeto dele é facilitar o ingresso de missionários em terras indígenas”, e teme que a FUNAI se torne uma ferramenta de proselitismo religioso na Amazônia.

As missões vão contra a política da FUNAI de respeitar o isolamento dos povos indígenas que recusam o contato, contra seu direito constitucional de não serem assimilados, e contra a Declaração Americana sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Os missionários não estão apenas espalhando a palavra do deus deles. Eles estão tentando desfazer a autodeterminação dos povos indígenas. No livro “Praying and Preying”, a antropóloga brasileira Aparecida Vilaça explica que as duas coisas -rezar e predar- andam de mãos dadas: Os missionários “civilizam” ao proibir a medicina ancestral, a espiritualidade, e a cultura.

Em Bolsonaro eles encontraram um aliado forte. Autodeclarado garimpeiro de coração, Bolsonaro jura livrar-se dos povos indígenas da Amazônia e os compara aos animais. Ele está abrindo territórios protegidos à industria mineira, o que os líderes indígenas da Amazônia consideram genocida. Bolsonaro, que começou sua campanha sendo batizado no rio Jordão, contou com o voto evangélico para vencer as eleições. A saúde indígena não está em sua agenda, como ele deixou evidente ao vetar um plano de emergência para fornecer assistência médica e garantias básicas, como água e alimentos, para as comunidades indígenas durante a pandemia. As missões evangélicas podem ser complementares aos seus objetivos, mas começaram muito antes.

Os evangélicos controlam a saúde indígena há décadas, afirma Marta Azevedo, antropóloga e ex-presidente da FUNAI. Quando o governo do ex-presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva criou a Secretaria Especial de Saúde Indígena dentro do Ministério da Saúde em 2010, as leis trabalhistas proibiram o envio de equipes médicas a territórios indígenas remotos por longos períodos.

Assim, o governo terceirizou a maioria do atendimento da saúde indígena para outro grupo de evangélicos - a Missão Evangélica Caiuá (“a serviço do índio, para a glória de Deus”), que há décadas prestava assistência médica às comunidades indígenas no estado do Mato Grosso, no sul da Amazônia. O governo forneceu os recursos e a Missão Caiuá os administrou. Hoje, a Missão Cuaiá executa contratos milionários e seu orçamento aumentou doze vezes em cinco anos, tornando-se a segunda ONG que mais recebe dinheiro do governo federal. Em outras palavras, os lobos são pagos para cuidar das ovelhas.

O sistema é um fracasso e a saúde indígena está grave como sempre. O maior perigo atual é que a covid-19 mate tantas pessoas que possa resultar em genocídio. Os Yanomami e outras tribos denunciam a corrupção, intimidação, e falta de serviços básicos de saúde. Em abril, aumentavam os casos de covid-19 e um fundo especial de R$ 4,7 bilhões que foi destinado a proteger as comunidades indígenas da covid-19 ainda não havia sido gasto, agravando a letalidade da pandemia. Ao invés disso, a FUNAI aprovou uma política autorizando a ocupação e venda de terras indígenas.

O governo brasileiro deve cessar qualquer forma de apoio aos missionários que tentam contatar os povos indígenas isolados. Logo, é crucial reverter a presença evangélica no governo e impedir os missionários de decidir sobre as questões indígenas, tanto em nível local quanto federal.

A única maneira de avançar é respeitar os direitos indígenas à autodeterminação, o que se logra simplesmente aplicando a lei. Se a conquista evangélica continuar, as perdas podem ser irreparáveis, não só para os povos indígenas, mas também para a diversidade da espécie humana.

*Manuela Lavinas Picq é professora associada visitante em ciências políticas no Amherst College.

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Rio Pacajá no Estado do Pará Victor Moriyama| The New York Times

Futuro da Amazônia nunca foi tão nebuloso

Ambientalistas veem o desaparecimento de uma floresta tropical com consequências globais; indígenas veem uma casa ancestral que continua a ser explorada

Chris Feliciano Arnold* , The New York Times

Atualizado

Rio Pacajá no Estado do Pará Victor Moriyama| The New York Times

Em meio a conflitos políticos e fumaça visível do espaço, o futuro da Amazônia nunca foi tão nebuloso. Ambientalistas veem o desaparecimento de uma floresta tropical com consequências globais. Líderes indígenas veem uma casa ancestral que continua a ser explorada por colonos após 500 anos de violência genocida. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, vê uma área valiosa desperdiçada por “homens das cavernas” e marxistas.

Sessenta por cento da maior floresta tropical do mundo está dentro das fronteiras do Brasil, e desde 2006 viajei milhares de quilômetros na Amazônia, testemunhando como o rio e seus povos passaram por um século de mudanças ecológicas e culturais em uma geração. Durante algumas semanas no ano passado, um recorde de incêndios na região chamaram a atenção do mundo com uma intensidade que lembra as campanhas de Save the Rainforest da década de 1980, mas este ano, a terra está queimando durante uma pandemia que interrompeu viagens, atrapalhou esforços de proteção do meio ambiente e incentivou mineiros, madeireiros e fazendeiros a invadir terras indígenas com impunidade.

Em maio, o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, foi flagrado em vídeo sugerindo a Bolsonaro que use a distração do coronavírus para afrouxar as regulamentações ambientais: “Enquanto estamos nesse momento de tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de covid”, disse ele, enquanto valas comuns estavam sendo cavadas para as vítimas do coronavírus em Manaus, capital do Estado do Amazonas.

II.

Bolsonaro, que no mês passado culpou os “camponeses e índios” pelos incêndios florestais, personifica a história brutal da Amazônia. “Capitão Motosserra”, como ele apelidou a si mesmo, passou seus anos de formação como paraquedista do Exército, idolatrando os generais e autocratas da ditadura que, apoiada pelos Estados Unidos, governou o Brasil de 1964 a 1985.

Durante o “Milagre Econômico” do Brasil na década de 1970, o presidente militar Emílio Médici proclamou a Amazônia “uma terra sem homens para homens sem terra”, sugerindo que sua selva não desenvolvida e suas tribos instáveis eram ao mesmo tempo a causa e a solução dos problemas do Brasil. “Precisamos iniciar o relógio da Amazônia,” escreveu em 1971, incitando o Brasil a compensar o tempo perdido abrindo a Rodovia Transamazônica de 4 mil quilômetros que passa pelo coração da floresta. Brasileiros do Nordeste assolados pela seca poderiam começar uma nova vida ao longo da rodovia, resolvendo “o problema dos índios” no caminho.

Para os migrantes que atenderam ao chamado de Médici, o caminho para a salvação terminou em fome. O rico solo superior de seus terrenos recém-desmatados foi arrastado por chuvas torrenciais. A maioria foi forçada a abandonar seus sonhos, mas não antes que inúmeras tribos fossem massacradas, devastadas por doenças ou realocadas à força, às vezes minutos antes da chegada das escavadoras.

Décadas depois, caminhões madeireiros e reboques de gado, em milhares de estradas, bravejavam floresta adentro, a partir da Transamazônica e rodovias semelhantes. Ao longo da delicada bacia hidrográfica do Amazonas - responsável por mais de 15 por cento da descarga de rios nos oceanos do planeta - gasodutos e hidrelétricas bombeiam energia para as cidades de todo o Brasil. Fazendas industriais enviam bilhões de dólares em carne bovina e soja para um mundo faminto. Manaus é sede de fabricantes multinacionais como Harley Davidson e Samsung ao lado de laboratórios de biotecnologia e institutos que são referência de pesquisa na floresta tropical.

Trinta milhões de pessoas vivem na Bacia Amazônica - mais do que as populações dos cinco países nórdicos juntos. Eles incluem povos indígenas, migrantes de todo o Brasil e imigrantes do mundo inteiro. No entanto, Bolsonaro quer que você acredite que a Amazônia é uma selva indomada. Seus apelos por novas estradas, represas, minas e fazendas pintam uma falsa escolha - salvar os brasileiros, ou salvar a floresta tropical - que ignora o fato de que o Brasil tem desenvolvido agressivamente a Amazônia desde o início da Revolução Industrial.

Com o aquecimento do planeta nas próximas décadas, a Amazônia se tornará um berço de descobertas humanas ou uma cena de crime ecológico. A questão para o século XXI não é como extrair mais matéria-prima da floresta, mas como capacitar seus povos a viver de forma sustentável na floresta, da maneira que os indígenas brasileiros faziam antes que os europeus cometessem genocídio no continente.

III.

A Amazônia nunca foi uma terra “sem homens”. Quando as flotilhas espanholas desceram pela primeira vez no rio no ano 1542, havia pelo menos oito milhões de pessoas que praticavam a agricultura em grande escala que aproveitava o ciclo natural do subir e descer das águas.

Armas e armaduras eram de pouca utilidade na floresta. À beira da fome, os espanhóis, portugueses e outros colonizadores dependeram dos povos indígenas para sobreviver, retribuindo essa generosidade com violência. Assim como na América do Norte, ondas de colonos trataram as tribos como subumanas, mesmo quando exigiam sua mão-de-obra e conhecimento.

A varíola exterminou cidades indígenas. Tribos que escaparam das doenças foram capturadas como escravas, muitas vezes realocadas para as capitais do sul do Brasil por “bandeirantes” impiedosos, cujas façanhas foram elevadas ao mito nacional. Outras tribos foram reassentadas em cidades governadas por clérigos ou administradores brancos que os obrigavam a usar roupas, adotar o cristianismo e se casar com seus colonizadores.

Algumas tribos fugiram rio acima, apenas para serem capturadas gerações depois, durante o boom da borracha. O Ministério das Relações Exteriores britânico enviou um inspetor, Sir Roger Casement, que havia investigado a brutalidade do rei Leopoldo II no rio Congo, para relatar acusações de abuso trabalhista. Depois de testemunhar um sistema de cotas de borracha que dependia de amputação progressiva, tortura e estupro para estimular a produção, Sir Roger usou um novo termo, “crimes contra a humanidade”.

O colapso da indústria da borracha brasileira - depois que um inglês contrabandeou mudas de borracha para a Europa em 1876 - desacelerou as atrocidades, mas não por muito tempo.

Na primeira metade do século XX, o Brasil construiu estradas, linhas telegráficas, portos e pistas de pouso para integrar a floresta tropical ao resto do país, abrindo caminho para “Ordem e Progresso”. Pioneiros como Cândido Rondon e os irmãos Villas Bôas lutaram para proteger os indígenas, mas o Serviço Nacional de Proteção aos Índios do Brasil foi eventualmente corrompido por burocratas e especuladores.

Na década de 1960, à medida que pistas de pouso foram construídas na Amazônia, alguns exploradores erradicaram tribos usando táticas de guerra, atraindo-as para clareiras - jogando açúcar e outros presentes - e depois bombardeando-as com dinamite. Os corpos foram enterrados ao longo do rio enquanto grileiros abriam caminho para o interior.

Sempre que essas histórias de pestilência e matança são abafadas, as histórias de resistência indígena são apagadas. Os brasileiros glorificam a lenda do cacique Manau Ajuricaba, que preferiu a morte à escravidão, mas a morte não pode ser o único caminho para a liberdade indígena no imaginário brasileiro.

Nas décadas de 1960 e 1970, tribos se organizaram para preservar suas terras e patrimônio com o apoio de ativistas e do clero do Movimento de Teologia da Libertação. Na década de 1980, quando as hidrelétricas ameaçaram o rio Xingu, uma indígena, Tuira Kayapó, encostou seu facão no rosto de um engenheiro hidrelétrico, advertindo que a empresa fosse posta para fora do terreno.

Os direitos indígenas foram garantidos na Constituição brasileira de 1988 e a Amazônia foi consagrada como patrimônio nacional. Mas as violações persistiram. Na década de 1990, líderes como o Xamã Yanomami Davi Kopenawa viajavam pelo mundo para soar o alarme sobre mineiros atrozes invadindo o território de seu povo. Seus piores temores se concretizaram em 1993, quando uma tribo Yanomami - incluindo crianças e idosos - foi massacrada por um bando de garimpeiros de ouro. Os assassinos foram condenados por tentativa de genocídio.

O fato de quase um milhão de indígenas brasileiros terem sobrevivido na Amazônia é uma prova de sua resiliência - e da vastidão da floresta. Hoje, as tribos combinam a engenhosidade tradicional com a tecnologia moderna para defender suas terras, compartilhar suas histórias e ajudar grupos isolados a evitar a exploração e o derramamento de sangue que se abateu sobre seus ancestrais. Até o Capitão Motosserra notou: “Os índios estão evoluindo”, Bolsonaro disse em janeiro. “Cada vez mais, o índio é um ser humano igual a nós”.

IV.

Brasileiros de direita e esquerda se arrepiam com a noção de que administraram mal a maioria de seu território enquanto negligenciam milhões de pessoas que vivem lá. Quando os incêndios do ano passado atraíram a ira de líderes e investidores internacionais, Bolsonaro disse a um grupo de repórteres europeus: “A Amazônia é nossa, não sua”, ecoando uma suspeita de longa data no Brasil de que os estrangeiros estão de olho na Amazônia.

Muitos referenciam o modo como os Estados Unidos trataram seus povos indígenas e florestas como evidência de que os estrangeiros devem ficar calados. “Que não venha nenhum gringo pedir pra gente deixar um amazonense morrer de fome embaixo de uma árvore”, disse o ex-presidente brasileiro e fundador do Partido dos Trabalhadores, Luiz Inácio Lula da Silva, na Cúpula da Amazônia de 2009.

Como cidadão brasileiro e americano que testemunhou os fracassos sociais, ambientais e econômicos de ambos os países, vejo a Amazônia dos dois pontos de vista. A pressão internacional muitas vezes forçou os líderes do Brasil a viver de acordo com os ideais de sua Constituição. A Amazônia é vital para a regulação do carbono na Terra e o abastecimento de água doce, e é lar de pelo menos 10 por cento de sua biodiversidade. Todos no planeta dependemos de sua saúde.

Mas isso não significa que a Amazônia seja de todos. Shows beneficentes de celebridades e desenhos animados dedicados a salvar a floresta tropical reforçaram inadvertidamente as atitudes colonialistas em relação à Amazônia. Enquanto esses esforços sacudiam a consciência do mundo, eles tendiam a agrupar a flora e a fauna com as pessoas, retratando as comunidades indígenas como espécies de um passado distante que precisavam ser protegidas, ao invés de seres humanos contemporâneos com ambições para o futuro.

Capitalistas e ambientalistas podem até querer refutar, mas o futuro já chegou à floresta tropical brasileira, e se parece muito com o passado: caótico, injusto e insustentável.

Em cidades como Manaus, as elites se deleitam com as vistas do pôr-do-sol do rio em edifícios altos e comem sushi em shopping centers com ar-condicionado. Uma classe média em ascensão, composta principalmente de brasileiros não indígenas, participa de festivais de “food trucks”, torneios de poker “Texas Hold Em” e cervejarias artesanais. Durante a Copa do Mundo da FIFA de 2014 e as Olimpíadas de 2016, assisti a multidões de fãs internacionais de futebol inundarem Ubers e AirBnbs.

Mas, embora os luxos tenham aumentado, serviços essenciais como transporte público, segurança e saúde são de baixa qualidade ou inexistentes. Prisões superlotadas rotineiramente sofrem frequentes e violentos motins enquanto funcionários do governo negociam com chefes do crime. Os moradores carecem de água, saneamento e eletricidade. Os bairros urbanos são dominados por traficantes de drogas e policiais desonestos, enquanto as tribos no interior são ameaçadas por mineiros ferozes, perfuradores e madeireiros. Eles deixam em seu rastro mercúrio, petróleo derramado, tocos de árvores, sobreviventes de violência e agressão sexual e patógenos como a gripe, que são tão novos lá quanto o coronavírus.

Durante a pandemia, milhares de pessoas morreram em suas casas na Amazônia por falta de capacidade hospitalar. Em sua resposta apressada, as equipes de ajuda do governo podem ter sido os próprios responsáveis pela disseminação do vírus enquanto se apressavam em fornecer testes e drogas não comprovadas, como a cloroquina, para as tribos vulneráveis.

V.

Os resultados caóticos desse desenvolvimento desleixado em lugar algum são tão visíveis como em Altamira, no Pará, nordeste do estado, onde a hidrelétrica de Belo Monte acionou suas primeiras turbinas em 2016 às margens do Rio Xingu.

A barragem era uma parceria público-privada, parte da tentativa amplamente admirável do presidente Lula de evocar uma nova história na Amazônia, uma de desenvolvimento verde sustentável, ecoturismo e inclusão indígena.

Ainda assim, quando a barragem foi anunciada, os líderes indígenas foram rápidos em se organizar contra ela, adiando o desenvolvimento por tempo suficiente para negociar concessões ambientais e econômicas do consórcio Norte Energia que supervisiona o projeto.

Na prática, essas avaliações de impacto eram insignificantes. E embora a Norte Energia diga que suas operações são baseadas nas melhores práticas no que diz respeito aos direitos humanos e responsabilidade ambiental, suas promessas de fornecer assistência financeira e habitacional para os moradores indígenas deixaram a região em desordem. Thaís Santi, procuradora federal, acusou a Norte Energia de “etnocídio” em 2015 por integrar grupos indígenas forçadamente à sociedade moderna muitas vezes colocando as gerações mais jovens contra os mais velhos.

Quando viajei para Altamira em abril de 2016, a cidade havia aumentado de 30.000 habitantes para mais de 100.000 em apenas alguns anos. Os professores abandonaram as aulas para trabalhar na barragem. Em uma comunidade acostumada a se locomover a pé ou de bicicleta, o hospital foi invadido por pedestres atropelados por carros. A margem do rio onde as crianças brincavam foi empurrada para um calçadão com uma pista de skate onde crianças sem skates sentavam-se à borda do halfpipe, olhando para suas antigas piscinas naturais.

Por toda a cidade, os outdoors da Norte Energia prometiam projetos de construção - parques, escolas e hospitais - com datas de conclusão indefinidas.

A nova Altamira orgulhava-se de sua reputação de “Cidade do Trabalho”, mesmo que todos os seus serviços básicos, desde energia, transporte, parques e segurança pública, fossem terceirizados pelo consórcio. Famílias que passaram gerações vivendo à luz do fogo no Rio Xingu foram forçadas a se mudar para residências suburbanas conectadas à eletricidade da Norte Energia que elas não podiam pagar.

Um pescador com quem conversei lamentou não ter visto o rio há semanas, acrescentando: “Eu costumava acordar lá todas as manhãs”.

VI.

Sem liderança local, transparência e forte supervisão, parcerias público-privadas como essas se tornam bestas de duas cabeças: a burocracia kafkiana trabalhando a serviço de negócios vorazes. Mas um plano realista para o futuro da Amazônia precisará inspirar tanto os industriais quanto os ambientalistas. É preciso reconhecer a Amazônia como vital para os bens comuns globais, mas também como um lar para milhões de brasileiros com direito à soberania e autodeterminação.

O mito da floresta tropical intocada perdurou porque é fácil para os consumidores imaginá-la assim. É mais fácil arrecadar fundos contra escavadeiras que derrubam florestas antigas do que apoiar fazendeiros itinerantes que queimam pastagens para criar seu gado magro. É mais fácil encomendar móveis certificados conforme código florestal do site da Amazon.com do que questionar como a madeira de lei da floresta amazônica foi parar na passarela da Brooklyn Bridge. É mais fácil condenar os frigoríficos industriais do que entender como a crescente classe média da China - e a guerra comercial dos EUA - demanda ração para carne bovina e soja da Amazônia. É mais fácil torcer por um Cacique com um cocar e um arco do que se unir em torno de líderes indígenas com mountain bikes, celulares e espingardas.

Erros de desenvolvimento - das cidades coloniais ao boom da borracha, da Transamazônica à Belo Monte - mostram como, apesar dos desafios de viver na floresta, ou talvez até por causa deles, este lugar deslumbrante inspira grandes sonhos. E grandes sonhos são exatamente o que a Amazônia precisa.

Uma lição de 2020 é que, em momentos de crise, ideias politicamente impossíveis podem se tornar possíveis da noite para o dia. A Covid-19 impulsionou a telemedicina, o ensino à distância e levou a ideia de renda básica universal da marginalidade ao conhecimento convencional. O apoio global ao movimento Black Lives Matter despertou milhões de pessoas para ver a história - e o futuro - sob uma nova luz. Incêndios florestais apocalípticos na costa oeste dos Estados Unidos estão queimando em conjunto com incêndios agrícolas na Amazônia, mostrando como nosso futuro climático está entrelaçado.

Resolver problemas antigos exigirá fazer novas indagações. Como drones e veículos autônomos poderiam beneficiar o transporte na Amazônia? Como as constelações de satélites podem conectar aldeias remotas para melhorar a educação e assistência médica? Como cidades como Manaus, Santarém e Belém poderiam se tornar líderes internacionais em biotecnologia?

Primeiro, o governo Bolsonaro deve reconhecer que a Amazônia está se urbanizando tão rapidamente quanto qualquer região do mundo. Ao invés de incentivar os empresários a mergulhar mais fundo na floresta, deve investir para garantir que as cidades existentes tenham segurança, saúde e educação. Conceder contratos para a construção de mais escolas, centros de tratamento de água e hospitais e não estradas e prisões privadas.

Em segundo lugar, reduzir a escalada da guerra contra as drogas e voltar a focar na corrupção nos corredores dos governos estaduais e locais. O tráfico é um problema, mas a questão mais preocupante é que os traficantes proporcionam às comunidades uma sensação de segurança e coesão que elas não obtêm do estado.

Terceiro, embora as exportações agrícolas do Brasil estejam em alta, os fazendeiros dependem excessivamente de fertilizantes e pesticidas, da demolição de novas terras e de práticas abusivas de trabalho semelhantes à escravidão. Em vez de pedir aos agricultores que desmatem novas pastagens, ajudar agricultores a criarem rebanhos mais saudáveis nas terras existentes.

Por último, um suposto presidente da lei e da ordem como Bolsonaro deveria redobrar - e não enfraquecer - as agências que fazem cumprir as leis ambientais e os direitos indígenas. Restaurar financiamento para as agências de proteção ambiental e indígena do Brasil. Elaborar novos acordos de biotecnologia que garantam que as espécies sejam coletadas, estudadas e analisadas no Brasil pelos brasileiros para que a bioprospecção do futuro não seja tão exploradora como a extração ilegal de madeira e a mineração de ouro de hoje.

Os conselhos indígenas devem desempenhar um papel de liderança ao decidir quais terras e conhecimentos são sagrados, o quê pode ser compartilhado com o mundo e a melhor forma de reaver uma parte justa das compensações. Com os recursos certos, eles poderiam ser exemplo de administradores da terra, reduzindo o risco de incêndio, organizando equipes de aplicação da lei para defender suas fronteiras e ensinando ao mundo o respeito por uma floresta que estrangeiros geralmente observam por meio de satélites.

Claro, tudo isso, supondo que Jair Bolsonaro está governando racionalmente, para o bem de todos os brasileiros. Mas a pandemia de coronavírus deixou claro que, assim como sua contraparte nos Estados Unidos, Bolsonaro tem os olhos no passado, não no futuro, e não tem temperamento nem autoridade moral para liderar um tour pelo palácio presidencial, muito menos uma democracia multirracial. Até os militares que Bolsonaro tanto admira ficariam envergonhados de sua falta de estratégia na região mais vital do Brasil.

As pesquisas mostram que os brasileiros valorizam a floresta tropical e entendem a ameaça da crise climática. Se o Capitão Motosserra continuar a cortar a Amazônia, a próxima geração de líderes brasileiros vai cortar seu governo.

O Amazonas não é um rio plácido, mas um redemoinho das preocupações mais urgentes de nossa era: mudanças climáticas, saúde pública e justiça econômica e ambiental. Não é um atraso e seus povos não são atrasados. Na verdade, eles estão vivendo as versões mais extremas dos problemas mais urgentes do nosso planeta, lutando por suas vidas - e pelas vidas de seus filhos.

*Chris Feliciano Arnold é o autor de “The Third Bank of the River: Power and Survival in the Twenty-First Century Amazon.” Traduzido por Ana Beatriz Bersano.

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Estamos transformando a Amazônia em uma savana

Florestas tropicais resultam de dezenas de milhões de anos de evolução; se não mudarmos de rumo, vamos destrui-las em pouco tempo

Bruno Carvalho e Carlos Nobre*, The New York Times

08 de outubro de 2020 | 10h00

Florestas tropicais são ecossistemas únicos de imensa complexidade que nutrem uma extraordinária diversidade de fauna, flora e microorganismos. Tratores e motosserras não querem saber disso.

Algumas pessoas podem pensar que a floresta é um lugar distante e desconectado do cotidiano urbano. Mas na floresta amazônica residem milhões de pessoas em cidades e assentamentos de enorme variedade. Muitas lidam com condições precárias, e são tratadas como fonte de mão de obra barata. A floresta é às vezes destruída em nome delas, com a justificativa do desenvolvimento econômico. No Brasil, o desmatamento quebra recordes. Se continuarmos destruindo a floresta, podemos aguardar consequências tenebrosas - e não só para a região, mas para o planeta.

Durantes as últimas décadas, a intervenção humana tem cada vez mais perturbado o equilíbrio ecológico das florestas. As mudanças climáticas levaram a um aumento de 1.5 graus Celsius na bacia amazônica, e as secas se tornaram mais frequentes e extremas. As secas de 2005, 2010 e 2015-16 foram algumas das piores dos últimos 100 anos. Desde 1980, percebemos um aumento na duração da estação seca de três ou quatro semanas nas áreas mais degradadas da Amazônia.

Florestas tropicais aumentam a evapotranspiração e esfriam superfícies. O desmatamento pode causar um aumento de 2 a 3 graus Celsius. Também diminui as chuvas, porque árvores reciclam a humidade na atmosfera.

A combinação de temperaturas mais altas, secas mais extremas, e uso contínuo das queimadas para abrir terreno para a agricultura ou pecuária está transformando a floresta resiliente em um ecossistema mais vulnerável. E estamos vendo florestas queimando.

Como consequência, a Amazônia pode não estar distante de um ponto de inflexão onde grande parte da floresta se converterá em savanas tropicais.

Um estudo publicado por um de nós na revista Science Advance avalia que se o desmatamento na bacia amazônica exceder 20 a 25 porcento da floresta, teríamos um processo irreversível de savanização. Atualmente aproximadamente 17 porcento da floresta já foi derrubada, e as taxas de desmatamento aumentaram desde 2015 na maioria dos países amazônicos. No Brasil, mais de 12.000 quilômetros quadrados da floresta (o tamanho do estado de Connecticut) provavelmente serão destruídos só este ano. Neste ritmo, podemos alcançar o ponto de inflexão dentro de 20 a 30 anos.

Os efeitos desse processo não se limitarão à bacia amazônica. As temperaturas mais altas se propagariam em direção ao sul e sudeste através do ar mais quente, afetando uma enorme parte da produção rural do país. O ar úmido que normalmente flui da Amazônia - os chamados rios voadores - se reduziria, muito provavelmente impactando a precipitação na bacia dos rios Paraná-Prata e em todo o sudeste da América do Sul.

A savanização de extensas áreas da Amazônia resultaria numa perda maciça de espécies de plantas e animais, e seria devastadora para culturas indígenas. A savanização de mais de 50% da floresta também resultaria em emissões de mais de 200 bilhões de toneladas de gás carbônico, e ao mesmo tempo, levaria a uma dramática redução na capacidade da floresta de absorvê-lo.

E por último, a perturbação do equilíbrio ecológico provavelmente gerará uma maior propagação de vírus, bactéria e parasitas, aumentando o risco de futuras pandemias.

Como podemos cultivar práticas sustentáveis que nos permitam evitar o ponto de inflexão da savanização da Amazônia?

Os habitantes da região podem liderar o processo de realizar profundas transformações socioeconômicas, fomentando estratégias de conservação e desenvolvimento responsáveis.

Nas últimas décadas, os debates políticos sobre o desenvolvimento da Amazônia têm sido dominados por duas perspectivas irreconciliáveis. Por um lado, há uma visão que preza a conservação e defesa de territórios indígenas e terras da União. Por outro, existe o estímulo desenvolvimentista para utilizar recursos naturais em prol da agricultura, energia e mineração, causando ciclos acelerados de degradação.

O primeiro modelo pode funcionar do ponto de vista ecológico, mas os desafios da região agora também são de natureza urbana. Mais de 30 milhões de pessoas habitam a Amazônia, a maioria em cidades ou povoados marcados pela pobreza. Essas pessoas precisam de meios de subsistência.

Exitem novas iniciativas aderindo aos princípios de uma bioeconomia inovadora e decentralizada enraízada na Amazônia, em contraste ao tratamento da floresta como fonte de recursos para indústrias situadas em outros lugares. A região pode acomodar tantos os seres humanos quanto a biodiversidade.

Isso significa investir em sistemas de cultivo sustentáveis como o das castanhas, cacau e açaí ao invés de soja e gado. Também implica assegurar que os lucros sejam das populações locais que atuam como guardiãs da floresta.

Habitantes das florestas já atuam nas primeiras etapas do processamento de produtos extraídos das florestas e rios ou do cultivo em sistemas agroflorestais e de aquicultura. No Mato Grosso, por exemplo, comunidades indígenas fazem a colheita de castanhas vendidas por 1 dólar por quilo para cooperativas locais. Após o processamento e empacotamento, as mesmas castanhas são revendidas a 8 dólares por quilo; um consumidor de uma grande cidade estrangeira pagará em torno de 26 dólares por quilo, umas 26 vezes o valor de venda da matéria prima.

Um produto da floresta que chegou aos mercados internacionais é o açaí, mais lucrativo que soja e gado sem necessitar a destruição da floresta. Ele gera mais de $1 bilhão por ano para a região amazônica e melhorou o sustento de mais de 300.000 pessoas da região.

Entretanto, para mudar as dinâmicas econômicas de forma mais significativa, também é necessário fomentar bioindústrias na Amazônia - e agora nós temos tecnologias para a criação de fábricas compactas, móveis, e ecologicamente responsáveis no meio da floresta.

Poderíamos falar em uma Amazônia 4.0, aproveitando as tecnologias da Quarta Revolução Industrial. O objetivo é desencadear oportunidades econômicas novas e inclusivas para a proteção de ecossistemas e comunidades em toda a bacia amazônica, beneficiando os guardiões da floresta, os povos indígenas e habitantes tradicionais como os ribeirinhos, assim como as populações urbanas.

Um de nós está trabalhando em um projeto que reúne ONGs, investidores, universidades públicas e Amabela, a Associação de Mulheres Trabalhadoras Rurais do município de Belterra, no Pará. A ideia é que esse grupo produza chocolates artesanais usando, por exemplo, o cupuaçu. Elas farão não só o cultivo dos ingredientes, como também o processamento e empacotamento. O grupo construirá uma bio-fábrica na comunidade, com equipamento como impressoras de comida 3-D, cozinhas solares e computadores.

Energia solar e telecomunicação mais acessíveis e baratas possibilitam a operação de minifábricas como essas em áreas relativamente remotas, sem a necessidade de investimento em infraestruturas pesadas. Aplicativos podem providenciar acesso a mercados globais, e softwares de rastreamento estão em desenvolvimento para garantir o cumprimento de normas ambientais. Hoje em dia, moradores podem aprender a manejar essas tecnologias em algumas semanas.

Outras “biofábricas” em desenvolvimento envolvem óleos gourmet e castanha-do-pará, uma indústria multimilionária. Os colhedores locais poderiam produzir farinha, castanhas torradas embaladas a vácuo e óleos extraídos por pressão a frio, por exemplo. Há também o potencial de laboratórios móveis de genômica, como sequenciadores de DNA portáteis, como valor inestimável para a ciência e medicina. Comunidades das florestas podem aprender a sequenciar o genoma de plantas, animais, e até microorganismos, baseado em seus conhecimentos das propriedades particulares de cada espécie, que elas poderiam então registrar em sistemas blockchain. Uma biblioteca genética de microorganismos seria crucial para combater patógenos da Amazônia.

Não podemos dar como garantida a resiliência das florestas. Estamos acelerando rumo à destruição da Amazônia. Transformá-la em uma savana nos aproximará de um planeta Terra inabitável. Podemos criar uma bioeconomia de florestas em pé e rios fluindo, combinando saberes tradicionais e científicos, preservando a biodiversidade e melhorando qualidade de vida por muitas gerações.

*Bruno Carvalho é professor titular na Universidade de Harvard, onde ele co-dirige a Harvard Mellon Urban Initiative e o Programa de Estudos Brasileiros. Carlos Nobre é cientista sênior do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo e proponente do projeto Amazônia 4.0.

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Talvez em nenhum outro lugar, represas sejam tão ameaçadoras quanto na bacia amazônica

E mais estão a caminho do Amazonas, onde desestruturaram o meio ambiente e os povos indígenas

Philip Fearnside*, Para The New York Times

08 de outubro de 2020 | 10h00

Onde os rios correm livremente, as represas são invasoras.

Talvez em nenhum outro lugar hoje em dia elas sejam mais ameaçadoras que na bacia amazônica. Seu rio principal é alimentado por mais de 1.100 afluentes, muitos deles grandes rios, e forma o maior sistema de drenagem do mundo. Cerca de um quinto de toda a água que escorre da superfície da Terra acaba nele.

Os fluxos desses rios podem gerar muita eletricidade, então não é de se espantar que a bacia do rio Amazonas seja vista por governos, especuladores e indústrias como uma fronteira vasta e inexplorada para energia hidrelétrica e o desenvolvimento que as barragens atraem. Pelo menos 158 barragens operam ou estão em construção na bacia do rio, e outras 351 foram propostas, de acordo com um estudo publicado ano passado na revista Nature Communications.

Os autores do estudo chamaram a Amazônia de “ponto de acesso para a expansão futura da energia hidrelétrica”.

Mas é difícil saber, realmente, o que vem pela frente. Os planos para esses grandes projetos costumam ser envoltos em sigilo, especialmente no Brasil, que retém cerca de dois terços da bacia, pela polêmica que geram sobre a destruição ambiental e as injustiças que causam. Novos projetos podem surgir do nada e planos adormecidos às vezes reaparecem como prioridades repentinas - os chamados “projetos-vampiros” - ressuscitando dos mortos.

Algo que está claro, como argumentei num artigo em 2017 para a revista online Yale Environment 360 - antes mesmo dos brasileiros elegerem Jair Bolsonaro como presidente, o que claramente seria desastroso para a Amazônia - é que a construção da barragem é “movida pelos enormes interesses agrícolas e industriais do país, é realizada com pouca atenção aos impactos sobre os povos indígenas e o meio ambiente, avança com pouco esforço para capitalizar o amplo potencial de energia renovável, e muitas vezes é alimentado pela corrupção.” Uma represa que apareceu do nada no ano passado foi uma das principais do projeto Barão do Rio Branco, plano de infraestrutura proposto logo após a posse de Bolsonaro em janeiro de 2019. Este projeto prevê uma barragem de 2.000 a 3.000 megawatts no Rio Trombetas, um afluente do Amazonas que flui por uma região isolada e rica em minerais.

A barragem proposta inundaria as terras quilombolas rio acima. Essas terras foram fundadas por escravos fugitivos. A inundação entraria em conflito com a Constituição do Brasil, muitas vezes violada e facilmente alterada, que prevê a proibição e a remoção de quilombolas e povos indígenas de suas terras. (O governo diz que consultará as comunidades possivelmente afetadas, promessa que se mostrou praticamente nula em outros projetos de barragem.) Essa barragem também ameaçaria uma das maiores praias da Amazônia para reprodução de tartarugas, que fica a jusante.

Não por acaso, Bolsonaro está desmantelando órgãos ambientais e sistemas de licenciamento para projetos de infraestrutura, e reduzindo as proteções para os povos indígenas.

Isso preparou o terreno para uma onda de construção de barragens que pode ser excessivamente destrutiva para uma região de incrível diversidade biológica. Ao mesmo tempo, as florestas tropicais da Amazônia são desmatadas para pastagens de gado e fazendas de soja, muitas vezes ilegalmente.

Todos os anos, o Ministério de Minas e Energia do Brasil publica um plano de energia que inclui grandes barragens de pelo menos 30 megawatts de capacidade instalada a serem concluídas em 10 anos. O plano mais recente, que vai até 2029, lista três barragens: a Tabajara em Rondônia, a Castanheira em Mato Grosso e a Bem Querer em Roraima.

Essa última barragem bloquearia o Rio Branco, assim chamado por sua cor, causada pela alta carga de sedimentos que carrega. Esses sedimentos criaram e mantêm o Arquipélago das Anavilhanas, um parque nacional cujas 400 ilhas no Rio Negro a jusante da confluência com o Rio Branco formam um dos maiores arquipélagos ribeirinhos do mundo. Seus ecossistemas pantanosos dependem dos sedimentos do Rio Branco e são considerados de importância internacional por sua diversidade biológica.

Em conjunto com este projeto, o mais recente “Plano Nacional de Energia” do Brasil, que vai até 2050, inclui a barragem do Chacorão, no rio Tapajós, que inundaria parte das Terras Indígenas Munduruku, além das barragens do Tapajós e seu afluente Jamanxim, que inundaria parte de Sawré Muybu, outra área Munduruku que até agora não teve a designação de Terra Indígena justamente para dar lugar a essas barragens.

Peru, Bolívia e Equador também têm grandes planos para barragens na Amazônia. Em 2010, Peru e Brasil aprovaram a construção de seis grandes barragens no Peru, a serem executadas por empreiteiros brasileiros e financiadas pelo banco nacional do Brasil. A maior parte da eletricidade delas seria exportada para o Brasil. Quando isso vai acontecer, não está claro: o contratante principal já foi arrastado num escândalo de corrupção não relacionado, juntamente com algumas figuras políticas no Brasil. Mas as barragens permaneceram listadas no Plano de expansão de energia para 2050.

No Brasil, os limites legais são testados constantemente, para ver quais leis serão cumpridas e quais serão ignoradas. A barragem de Belo Monte, maior projeto hidrelétrico da Amazônia, é um monumento de concreto dessa realidade. Tornou-se operacional em 2016 após inúmeros protestos de povos indígenas, ambientalistas e grande parte do público. A barragem inundou cerca de 518 quilômetros quadrados de planícies e florestas, deslocou mais de 20.000 pessoas e causou danos extensos ao ecossistema do rio.

Uma juiza federal a princípio decidiu que o licenciamento da barragem era ilegal porque as pessoas nas terras indígenas afetadas não foram consultadas conforme exigido por lei. Mas a construção foi autorizada e a barragem hoje está de pé. O projeto, que consiste em duas barragens, retira 80 por cento da água de um trecho de 72 quilômetros entre elas, ao longo do qual estão localizadas duas terras indígenas. Apesar do preço estimado em R$ 100 bilhões, a viabilidade econômica da barragem sempre esteve em questão. O ciclo sazonal natural do rio Xingu inclui um longo período de baixa vazão que impede Belo Monte de usar muitas de suas caras turbinas durante grande parte do ano.

O estudo da Nature Communications descobriu que algumas barragens de várzea na Amazônia podem na verdade ultrapassar as taxas de emissão de carbono das usinas de combustível fóssil. Além disso, essas barragens causam danos ambientais muito mais graves do que seus proponentes admitem, por benefícios muito menores do que alegam.

Ecossistemas fluviais são transformados em reservatórios, por exemplo, prejudicando a diversidade aquática. Barragens podem bloquear as migrações anuais de peixes, como a do bagre gigante do rio Madeira. De acordo com uma análise, depois que o Brasil construiu uma barragem no Madeira, em 2011, e outra em 2013, a captura de peixes naquela que foi a segunda maior pescaria fluvial do mundo despencou no Brasil, Bolívia e Peru. Milhares de pessoas perderam seus meios de subsistência de pesca, e o declínio acentuado desta também gerou tensões sociais que persistem até hoje na região.

Outro problema ocorre quando os sedimentos ricos em nutrientes transportados por esses rios são aprisionados atrás de represas em vez de carregados rio abaixo e depositados em planícies de inundação, onde são essenciais para a agricultura. Os nutrientes também auxiliam a cadeia alimentar da qual dependem os peixes rio abaixo, comprometendo a pesca ao longo de milhares de quilômetros de rios amazônicos.

Esses enormes represamentos também destroem as florestas, que se afogam nos reservatórios atrás deles e são cortadas para abrir caminho para o desenvolvimento que os acompanha e a construção das linhas de transmissão espalhadas por grandes áreas para fornecer eletricidade a consumidores e indústrias distantes. A subida das águas por trás dessas barragens também pode desalojar milhares de pessoas, como acontece há tempos no Amazonas.

Algumas barragens propostas são componentes importantes no planejamento de hidrovias que permitirão o transporte de soja e outros produtos por barcas. Isso aceleraria o desmatamento da floresta e a transformação de pastagens para o cultivo de soja. Essa mudança de pastagem para plantação de soja já é o principal fator de desmatamento, pois os pecuaristas vendem suas terras aos produtores de soja e compram terras a preço baixo em áreas mais remotas da floresta para abrir novas fazendas.

Existem consequências mais sutis também.

O mercúrio que ocorre naturalmente no solo, bem como no escoamento das operações de mineração de ouro, que muitas vezes podem ser encontrados rio acima das barragens, pode ser transformado em metil-mercúrio altamente venenoso por meio de uma reação química no fundo dos reservatórios, onde quase não há oxigênio na água. Altos níveis de mercúrio foram encontrados nos cabelos de pessoas que vivem no entorno da barragem de Tucuruí, no Pará e na Barragem de Balbina no Amazonas.

A falta de oxigênio no fundo desses reservatórios também causa outra reação química que produz metano, um gás de efeito estufa altamente potente. Ele borbulha na superfície, onde é lançado na atmosfera. O gás também entra na atmosfera quando a água do reservatório passa pelas turbinas e vertedouros de barragens.

O resultado de tudo isso é claro: os países da Amazônia deveriam ser extremamente cautelosos em represar mais rios em busca de eletricidade que equivocadamente consideram limpa e de baixo custo. Esses projetos são excessivamente caros, causam estragos ao meio ambiente e são uma injustiça para as pessoas que vivem perto deles. Além disso, muitas vezes eles não somam economicamente. Um estudo de 2014 publicado na revista Energy Policy alertou que “na maioria dos países, grandes barragens hidrelétricas são, em termos absolutos, muito caras e demoram demais a serem construídas” para fazerem sentido financeiramente.

O Brasil tem outras maneiras de gerar eletricidade - turbinas em alto mar e energia solar, por exemplo, com usinas hidrelétricas existentes disponíveis de reserva. Existem também amplas oportunidades para cortar o uso de energia por meio da conservação e redirecionamento da economia de indústrias que fazem uso intenso de eletricidade, como a produção de alumínio para exportação.

Os rios de fluxo livre da Amazônia são a força vital de suas florestas biologicamente ricas e dos povos indígenas que dependem deles há séculos. Tratar a Amazônia como uma zona de sacrifício para a extração de recursos naturais é injusto e desnecessário. Os custos humanos e ambientais são demasiadamente altos.

*Philip Fearnside é ecologista do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Traduzido por Ana Beatriz Bersano.

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Sabemos como parar os incêndios na floresta amazônica

O mundo pode aprender com a prática coletiva dos povos indígenas às mudanças climáticas

Marcia Nunes Macedo e Valéria Paye Pereira*, The New York Times

08 de outubro de 2020 | 10h00

“É muita terra para poucos índios.” Assim diz a expressão defasada, ressuscitada pelo presidente do Brasil, Jair Bolsonaro. Mas estes “poucos índios”, representando 305 povos e falando 274 línguas, conseguiram o que muitos governos tentaram fazer há décadas sem sucesso: controlar o desmatamento em mais de 1.150.000 quilômetros quadrados de floresta amazônica.

Os povos indígenas administram cerca de metade da Amazônia brasileira e, ano após ano, suas terras demonstram as menores taxas de desmatamentoda região. Mas, ultimamente, a vida dos povos indígenas tem se tornado mais difícil, pois o governo tem falhado em fazer cumprir as proteções constitucionais de seus direitos à terra. Madeireiros ilegais, grileiros, garimpeiros e narcotraficantes estão penetrando ainda mais fundo na floresta, agora sob a cobertura de uma pandemia.

Como resultado, apenas nos primeiros oito meses deste ano, por volta de 6.700 quilômetros quadrados de floresta foram desmatados — o que acabará adicionando à atmosfera cerca de 226 milhões de toneladas métricas de dióxido de carbono — e mais de 10.000 incêndios tem sufocado a região debaixo de um manto de fumaça.

Os povos indígenas mantiveram a Amazônia por milênios. Eles podem continuar o fazendo, com a colaboração de todos.

Para o povo Kuikuro da região do Xingu, o passado fornece pistas de como combater grandes incêndios florestais, como o que destruiu metade de suas terras em 2015. Os incêndios florestais não faziam parte da memória recente dos Kuikuro, mas arqueólogos descobriram evidências de estratégias que eles já usavam para controlar incêndios durante o Período Quente Medieval, no início do último milênio. Terraplanagem complexa — valas, estradas e diques — podem ter sido usados como aceiros.

Hoje eles organizam brigadas para combater e prevenir incêndios florestais com maior eficiência. Os brigadistas treinam e coordenam com o Prevfogo, programa governamental criado para o mesmo fim. Embora essas parcerias tenham se mostrado eficazes, os esforços de combate a incêndios são ameaçados por cortes nos fundos federais destinados a agências ambientais.

O Conselho Indígena de Roraima, que representa 35 Terras Indígenas no norte, é outro exemplo do protagonismo indígena em mudanças climáticas. Ele tem treinado a população local para usar ferramentas de mapeamento digital para coletar dados sobre recursos naturais. Também registrou como as populações locais estavam vivenciando e respondendo às mudanças climáticas usando um aplicativo de celular chamado Alerta Clima Indígena. O esforço culminou no desenvolvimento de planos detalhados sobre como usar os recursos de forma responsável e combater as mudanças climáticas em cada território.

Essas abordagens práticas e coletivas podem ser aplicadas a muitos outros desafios, como o gerenciamento de doenças emergentes. Os Kuikuro montaram uma resposta rápida ao covid-19 em seis aldeias, usando celulares para rastrear contatos e colocar os infectados em quarentena. Eles também fizeram uma campanha online para contratar médicos e enfermeiras e comprar suprimentos, praticamente eliminando a necessidade de viajar para cidades próximas. Essas intervenções decisivas valeram a pena: quase nenhuma morte de covid-19 foi relatada lá.

Em vez de aprender com os indígenas, o governo brasileiro tem os deixado de fora das discussões sobre como administrar seus próprios territórios. Continua a tratá-los como “tutelados do estado”, em vez de pessoas com o simples direito de ocupar suas terras e manter seu modo de vida. A comunidade internacional tem seguido o exemplo do Brasil. Os povos indígenas, por exemplo, permanecem como “observadores” sem direito a voto nas negociações em torno da Convenção de Mudanças Climáticas das Nações Unidas.

Mas os indígenas continuam demandando o seu espaço de direito nas mesas de decisão. A Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira foi um dos primeiros grupos a enviar uma delegação indígena do Brasil para as negociações climáticas da ONU. Líderes indígenas, muitos deles mulheres como a Sineia do Vale Wapichana, falaram diretamente com líderes mundiais e reportaram a suas comunidades. Eles organizaram uma coalizão Pan-Amazônica notável, que abrange os nove países da região, para alertar o mundo sobre os desafios enfrentados pelos povos indígenas e o papel do seus conhecimentos tradicionais para o combate à crise climática.

O mundo não pode continuar tratando os povos indígenas dessa maneira. As florestas da Amazônia podem absorver até 10 por cento das emissões globais de dióxido de carbono a cada ano. Suas árvores armazenam o equivalente a 10 anos de emissões globais de carbono. Ao ignorar o que os indígenas sabem sobre como proteger suas florestas, perdemos possíveis soluções para a crise climática. Perdemos tempo e dinheiro. Não é estratégico, e muito menos ético.

Sem os territórios indígenas e a aliança com os deus povos originários, o Brasil não conseguirá cumprir seus compromissos climáticos. Neste ano, o desmatamento já é o dobro do limite estabelecido pelo Plano Nacional de Mudanças Climáticas do Brasil para 2020.

O futuro das florestas tropicais e o futuro clima global estão indelevelmente vinculados à garantia dos direitos dos povos indígenas da Amazônia às suas terras e meios de subsistência. A defesa de seus territórios protege seus direitos sociais e culturais. Mas também protege ecossistemas naturais que são essenciais para o bem-estar de todos.

*Marcia Nunes Macedo é diretora do Water Program da Woodwell Climate Research Institute e pesquisadora associada do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia. Valéria Paye Pereira, do povo Kaxuyana, é assessora política da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira. Traduzido por Ana Beatriz Bersano.)

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A Amazônia pode salvar sua vida?

Cientistas estudam o potencial medicinal de plantas e animais na vasta floresta tropical da região

Mark J. Plotkin*, The New York Times

08 de outubro de 2020 | 10h00

A medicina ocidental é o método de cura mais bem-sucedido já desenvolvido e vem se aprimorando conforme a tecnologia avança e os medicamentos sintéticos proliferam. Mas a Mãe Natureza tem sintetizado substâncias químicas medicinais exóticas e maravilhosas por mais de três bilhões de anos, muitas das quais os pesquisadores nem em sonho poderiam prever ou imaginar.

Eles deveriam ir para a Amazônia.

Por mais de três décadas, trabalhei, colaborei e convivi com os xamãs da floresta enquanto aprendia alguns dos seus segredos. Na paisagem de sonhos da Amazônia floresce uma abundância de espécies de plantas e animais que proporcionaram à sociedade uma Farmacopéia de medicamentos de alcance surpreendente, de anticoncepcionais a tratamentos para hipertensão e malária, um analgésico dentário, relaxantes musculares cirúrgicos e substâncias químicas que expandem a mente.

A região é tão vasta e impenetrável que muito dentro dela permanece inexplorado. Não é de se espantar que a riqueza da paisagem e o impressionante conhecimento medicinal dos povos indígenas inspiraram admiração e perplexidade nos primeiros visitantes da Europa.

Já em 1600, o médico holandês Willem Piso observou vários tratamentos locais “muito eficazes” no Brasil, escrevendo: “Esses povos indígenas, apesar de sua completa falta de formação científica, repassaram para a geração seguinte muitos antídotos e remédios desconhecidos pela ciência clássica”.

Hoje, as magníficas florestas da região estão sendo destruídas, suas culturas indígenas interrompidas e extintas cada vez mais rapidamente. Mas o potencial medicinal da Amazônia está realmente crescendo, pois novas tecnologias nos permitem encontrar, isolar, avaliar, manipular e empregar substâncias naturais mais rápido do que nunca.

Se pudermos escapar da destruição, não teremos que escolher entre o microchip ou o curandeiro. Ambos podem nos levar a novas curas, se abordadas de maneira responsável e ética.

Nossa falta de conhecimento sobre a flora e a fauna amazônicas continua surpreendente. Um estudo recente estima que existam cerca de 16.000 espécies de árvores na Amazônia, das quais milhares ainda nem foram denominadas pelos cientistas, muito menos avaliadas pelo seu potencial medicinal.

Os cientistas não conseguem nem mesmo concordar sobre quantas espécies de plantas, animais e fungos habitam a floresta tropical sul-americana. Estamos coletando novas espécies mais rápido do que podemos identificá-las: no final de julho, um painel estimou que encontramos uma nova espécie na Amazônia a cada dois dias.

Essas descobertas não são apenas pequenos fungos e insetos. Apenas nos últimos anos, os pesquisadores descobriram criaturas aparentemente óbvias como uma nova espécie de golfinho de água doce, duas novas espécies de enguias elétricas, uma tarântula azul-cobalto e a árvore mais alta da Amazônia, que é quase 30 metros mais alta que a que estava registrada anteriormente. Num mundo onde os recordes são tipicamente quebrados por segundos ou centímetros, este último achado demonstra claramente o quanto ainda temos a aprender.

As maravilhas abundam. Uma delas é o sapo-verde. A análise laboratorial de sua pele rendeu várias proteínas novas, duas das quais foram investigadas como meios potenciais de aumentar a permeabilidade da barreira hematoencefálica, um desafio fisiológico importante para a administração de medicamentos diretamente ao cérebro — um santo graal da medicina moderna.

Dois outros novos grupos de proteínas encontrados no mesmo sapo são antimicrobianos, o que pode ajudar a fortalecer nosso arsenal de antibióticos; a resistência das bactérias aos antibióticos comumente usados é um problema sério e crescente nos hospitais norteamericanos. A descoberta mais impressionante foi o isolamento de um novo opióide, a dermorfina, que é 40 vezes mais potente do que a morfina.

Embora possa um dia servir de base para um novo analgésico não viciante, já provou sua utilidade de uma maneira lucrativa e sinistra: dopando cavalos puro-sangue. Investigadores descobriram que a dermorfina estava sendo administrada a cavalos de corrida para fazê-los correr mais rápido e sem dor; a substância não foi detectada pelos testes convencionais de drogas.

Para compreender melhor a abundância farmacêutica potencialmente disponível na Amazônia, precisamos expandir nosso olhar muito além do arquétipo do cientista ocidental em busca de plantas medicinais e animais conhecidos apenas pelos xamãs da floresta tropical. Algumas das pistas mais intrigantes originam-se de criaturas nocivas ou perigosas que não são usadas e são até mesmo evitadas pelos povos da floresta. Nas palavras do médico suíço Paracelsus, do século 16, o pai da toxicologia, a diferença entre um veneno mortal e um remédio que salva vidas pode ser apenas uma questão de dosagem. Daí um crescente interesse em estudar as plantas, animais e fungos venenosos da Amazônia.

Mesmo quando um veneno ou outro composto peculiar não pode ser convertido em medicamento, pode nos ensinar algo novo: a síntese do AZT, o primeiro tratamento eficaz para o HIV, foi inspirada por compostos exclusivos extraídos de uma esponja caribenha. Os venenos, com os quais a Amazônia está amplamente estocada, desempenharam um papel vital em nos ajudar a entender como os medicamentos funcionam no corpo humano, particularmente no sistema nervoso. Por exemplo, a floresta amazônica abriga aproximadamente 75 espécies de sapos venenosos de cores extravagantes. Mais de 400 novos alcalóides — uma classe de substâncias químicas biologicamente importantes que inclui cocaína, cafeína e estricnina — já foram encontrados em suas peles. O estudo desses novos compostos está levando a um melhor entendimento da função dos anestésicos locais, anticonvulsivos, antiarrítmicos e até mesmo de algumas toxinas no corpo humano.

A Amazônia é o lar de mais de uma dúzia de espécies de cobras venenosas, principalmente víboras da família da cascavel. Uma espécie que habita as pastagens ao sudeste da Amazônia possui um veneno que causa uma rápida queda de pressão arterial na vítima. O estudo desse composto resultou na síntese do captopril, um dos medicamentos mais eficazes e lucrativos já inventados, que por sua vez ajudou a gerar uma classe inteira de medicamentos para pressão arterial — inibidores da ECA, que salvaram a vida de milhões de pessoas com hipertensão.

Uma criatura igualmente assustadora é a temida aranha armadeira, talvez a aranha mais mortal da Terra. A Amazônia é abundante em aranhas — as estimativas atuais são de cerca de 3.000 espécies — e seus venenos tendem a ser coquetéis extraordinariamente complexos de proteínas, peptídeos perigosos e outras toxinas. Um componente do veneno da aranha armadeira está sendo estudado como um tratamento para disfunção erétil. Ao mesmo tempo, os escorpiões amazônicos estão recebendo cada vez mais atenção por causa de seu potencial farmacêutico, principalmente por suas propriedades analgésicas e antimicrobianas.

Outros temidos animais amazônicos geraram indícios terapêuticos potencialmente importantes, incluindo o morcego-vampiro e a sanguessuga-gigante, com 45 centímetros de comprimento. Ambos consomem sangue: o morcego cortando a pele da vítima e sugando o ferimento, e a sanguessuga se ligando a um hospedeiro e sugando o sangue por um órgão em forma de seringa. E cada um carrega um anticoagulante único em sua saliva: a sanguessuga produz hementina, e o morcego, draculina.

Devido ao fato de que ataques cardíacos e derrames provavelmente matam mais pessoas no mundo industrializado do que qualquer outra categoria de doença, e que os derrames são uma das principais causas de incapacidade entre os idosos, há uma necessidade urgente de encontrar e desenvolver novos medicamentos que podem melhorar ou retardar a coagulação do sangue. Ambos os compostos mostraram-se promissores nos primeiros testes clínicos mas não chegaram ao mercado. No entanto, pesquisas com criaturas amazônicas como essas e seus compostos exclusivos podem fornecer novas percepções sobre o processo de coagulação que pode levar a novas e melhores drogas sintéticas.

Numa perspectiva global, os fungos são o grupo de organismos com maior potencial, porém o menos pesquisado. Eles já nos deram a classe de medicamentos mais importante já descoberta: os antibióticos. Mais recentemente, o reino dos fungos nos forneceu outra classe de remédios de grande sucesso: estatinas, medicações para baixar o colesterol que estão entre as substâncias mais importantes e amplamente usadas no mundo industrializado de hoje. Embora ambas as classes de fármacos sejam derivadas de fungos de zonas temperadas, regiões tropicais como a Amazônia abrigam muito mais espécies.

Mais uma vez, a ciência sabe muito pouco sobre a utilidade potencial dos fungos tropicais. Os etnobotânicos no oeste da Amazônia encontram frequentemente o piri-piri, um junco de aparência diferente — uma planta florida semelhante a grama — que tem fama de apresentar muitas qualidades medicinais. Uma pesquisa detalhada pelo etnobotânico americano Glenn Shepard com colegas indígenas no Peru desvendou o segredo: virtudes medicinais atribuídas a essa planta que é relativamente inerte quimicamente, na verdade, vêm de um fungo que a infecta. A pesquisa revelou que este fungo produz oito novos alcalóides relacionados ao LSD, e é empregado pelos povos indígenas para tratar dores de cabeça, feridas de picadas de cobra, melhorar a coordenação, controlar a fertilidade e estancar a hemorragia relacionada ao parto. O Dr. Shepard considera o piri-piri uma espécie de “ginseng da Amazônia”, por causa de seus múltiplos usos medicinais, semelhantes a panacéias. Milhares e milhares de fungos na Amazônia continuam inexplorados, seu potencial medicinal desconhecido.

O desenvolvimento médico mais significativo nos últimos anos envolvendo organismos tropicais é a integração dos alucinógenos na medicina ocidental. Eles representam as ferramentas definitivas do xamã indígena, que utiliza plantas e fungos como instrumentos biológicos para investigar, diagnosticar, tratar e, às vezes, curar doenças que têm base parcialmente emocional ou espiritual. É por isso que esses curandeiros geralmente podem aliviar um problema de saúde que não responde às terapias empregadas por médicos ocidentais.

O uso dessas substâncias está ganhando aceitação rapidamente em ambientes clínicos tradicionais. Muitos esforços iniciais se concentraram no uso de alucinógenos administrados por xamãs indígenas: mescalina, psilocibina e ayahuasca — esta última da Amazônia. Foi demonstrado clinicamente que esses remédios que alteram a mente produzem efeitos terapêuticos promissores em alguns casos de dependência química, depressão, transtorno obsessivo-compulsivo e ansiedade de fim de vida em pacientes com câncer terminal.

É provável que ocorram mais estudos formais para o tratamento da anorexia, estágios iniciais da doença de Alzheimer, insônia, dor intratável e TEPT. Este recém-descoberto interesse em terapias alucinógenas não está apenas melhorando nossa compreensão da mente humana, mas também impulsionando uma maior valorização das práticas de cura xamânica. E essa sabedoria terapêutica xamânica não se limita aos alucinógenos: um único xamã pode conhecer e usar 300 plantas diferentes para fins de cura.

Em última análise, a pergunta deve ser feita: quem, em primeiro lugar, deve se beneficiar com os tesouros farmacêuticos da Amazônia?

A resposta é clara: os amazônicos. A Amazônia é o lar de cerca de 30 milhões de pessoas, e quase todos os que vivem fora das grandes cidades dependem, em algum grau, da imensa floresta como fonte de medicamentos.

Infelizmente, eles são os que mais sofrem quando a floresta é destruída ou degradada. Eles devem ter acesso aos compostos terapêuticos e participar dos lucros da comercialização dessas espécies. O mesmo deve acontecer com as comunidades e governos locais. A questão do respeito adequado pelos direitos de propriedade intelectual deve ser uma das principais preocupações.

Um exemplo concreto de como isso deve funcionar é o caso da árvore Sangue de Drago. Sua seiva é um componente básico do armário de curas botânicas de muitos xamãs. Um composto daquela árvore — crofelemer — foi aprovado pela Food and Drug Administration em EUA como o primeiro medicamento antidiarreico para pacientes com HIV / AIDS. Atualmente está sendo avaliado para diarreia induzida por quimioterapia, bem como outras aplicações potenciais. Todos os esforços estão sendo feitos para compartilhar os benefícios desta droga com as comunidades locais, incluindo a geração de empregos por meio do reflorestamento. Esse tipo de reciprocidade, ausente na maioria dos esforços anteriores em que os produtos farmacêuticos foram desenvolvidos a partir de colaboração com povos indígenas da floresta tropical, deve ser obrigatório para todos os esforços semelhantes no futuro.

O mundo inteiro sofrerá se a destruição da floresta tropical continuar, não apenas em termos de transtornos e custos econômicos concretos da mudança climática, mas também em termos de curas perdidas enquanto a floresta queima, apenas para que o mundo possa ter carne e soja a preços baixos.

Não pude voltar à Amazônia desde março. Mas, por meio do WhatsApp, me comunico com os xamãs que conheço há muito tempo. Eles me disseram que estão ingerindo plantas imunoestimulantes para manter o coronavírus sob controle, embora a eficácia desse tratamento ainda não tenha sido verificada de forma independente. Enquanto o fazem, a busca pela medicina continua: os xamãs estão vasculhando a floresta curativa em busca de plantas que possam ser um tratamento eficaz para as pessoas infectadas com o vírus em suas comunidades.

Mas com o advento da temporada de queimadas na Amazônia, causada pelo desmatamento desenfreado, sua prateleira de remédios está pegando fogo.

*Mark J. Plotkin é etnobotânico e presidente do Amazon Conservation Team, que trabalha com as comunidades locais para proteger as florestas amazônicas e as culturas tradicionais. Ele é o autor de “The Amazon: What Everyone Needs to Know”. Traduzido do inglês por Ana Beatriz Bersano.

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