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Um ex-pediatra no topo do mundo

Brasileiro mais velho a atingir o cume do Monte Everest agora quer ir a pé ao Polo Sul

Karina Ninni, Especial para O Estado

23 de fevereiro de 2011 | 00h01

Manoel Morgado orgulha-se do título de mais velho brasileiro a chegar ao cume do Everest. Venceu a montanha mais alta do mundo, com 8.850 metros, no ano passado, aos 53 anos. Mas muito antes disso o gaúcho já tinha se apaixonado pelo Nepal, país asiático de paisagens deslumbrantes e pessoas acolhedoras.

Manoel Morgado quer ir a pé ao Polo Sul 

“Fui ao Nepal pela primeira vez em 1983, depois de concluir a residência em Medicina. Minha então esposa tinha terminado a faculdade de Psicologia e decidimos que era a hora de fazer uma viagem grande. Achávamos que não conseguiríamos mais sair por muito tempo depois que começássemos a trabalhar e a estabilidade viesse. Pensei realmente que seria a única viagem longa da minha vida.”

O casal ficou dois anos fora, um na Europa e outro na Ásia.

“Passamos pela Índia, Sri Lanka, Bangladesh e Nepal. Quando cheguei ao Nepal, me apaixonei completamente. Eu tinha então 27 anos.”

Manoel afirma que a sensação que teve no país foi a de ter chegado a uma “Índia melhorada”. “Naquele tempo, não havia classe média na Índia. Era um país sensacional e diferente, mas paupérrimo. As condições de vida eram duríssimas. Aí cheguei ao Nepal e vi todo o exotismo da Índia emoldurado por uma paisagem deslumbrante e habitado por pessoas bem humoradas e de bem com a vida. Foi paixão imediata.”

Manoel voltou ao Brasil, abriu consultório, prestou concurso e foi trabalhar como médico em Itaquera, zonas leste de São Paulo. Mas sentiu que aquilo não duraria muito. “Fui percebendo que o estilo de vida que eu tinha aqui não coincidia com o que eu andava sonhando para mim. Como pediatra, em Itaquera, eu via que grande parte daquilo que eu tratava eram problemas sociais e não propriamente problemas de saúde. A criança vinha, a gente internava, tratava, e duas semanas depois ela estava de volta, porque sofria de desnutrição.”

Formado pela Escola Paulista de Medicina, filho de pais humildes que batalharam para ver o filho doutor, Manoel resolveu largar tudo e ir para o Nepal. “Isso foi em 1989. Resolvi fazer um curso de trekking e de guia de montanhas. Eram 30 sherpas (moradores das montanhas nepalesas) fazendo o curso e só eu de estrangeiro. Estava totalmente aberto a novas experiências, inclusive espirituais – eu que sempre tive um trauma imenso da cultura católica.”

Manoel foi até Dharamsala, onde vive o Dalai Lama. Depois passou um mês num monastério budista. “Esse foi um momento decisivo. Minha temporada no Nepal foi de seis meses, mas essa viagem durou ao todo três anos. Estive na Tailândia, Índia, Indonésia. Malásia, Austrália, Nova Zelândia...”, enumera o viajante profissional, que desde então, não tem residência fixa.

“Nunca mais tive casa. Montei uma empresa para guiar grupos para destinos de trekking e montanhas. Trabalho seis meses por ano guiando grupos para o Nepal, a Rússia, a Tanzânia, a Bolívia, o Marrocos e o Quirguistão. Nos outros seis meses toco meus projetos pessoais. Vivo em barracas e hotéis. Quase nunca venho ao Brasil. Quando venho, fico em um flat”, afirma. Ele garante que não sente falta da segurança, de filhos, de casamento nem de residência fixa.

“O lugar no mundo em que me sinto mais à vontade é o Nepal. Principalmente por causa das pessoas”, afirma. Manoel diz que deve sua vida a um sherpa. Passou mal numa escalada e foi carregado montanha abaixo pelo amigo nepalês. “Errei feio: fiquei com febre um dia antes, mas subi assim mesmo. Era um princípio de pneumonia. Como médico, sabia exatamente o que aconteceria comigo. Foi como poder narrar a própria morte. Até que meu amigo apareceu.”

Depois de ter levado 45 grupos para o Everest, Manoel decidiu que escalaria a montanha. “Planejei tudo com cuidado, por dois anos. Escalei montanhas mais baixas, na América do Sul. Depois subi o Monte McKinley, no Alasca. Além de ser a montanha mais alta da América do Norte, é a mais fria do mundo, com temperaturas por volta de 40 graus negativos.”

A maior conquista de Manoel aconteceu no dia 17 de maio de 2010, às 8 horas. “Subimos a noite toda o Everest. Por volta das 4h30 da manhã eu percebi que seria possível chegar. Porque a gente nunca sabe se o tempo vai fechar, se vai adoecer, cair uma avalanche, se o oxigênio vai acabar... Mas quando amanheceu o dia e o tempo estava aberto, e eu senti que chegaria, foi um momento tão lindo quanto atingir o cume.”

   

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