Epitácio Pessoa/AE
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Um carro para não chamar de seu

Ainda tímido no Brasil, compartilhamento de veículos reduz poluição e trânsito nas metrópoles de países desenvolvidos

Manuel Cunha Pinto, Especial para O Estado de S. Paulo

24 de agosto de 2010 | 23h43

Especialistas em transporte afirmam que a redução do trânsito e da poluição nas metrópoles passa pelo investimento no metrô e em corredores de ônibus. Mas enquanto as melhorias no transporte público no Brasil seguem a passos lentos, o que fazer com o automóvel, o vilão que polui e toma espaço nas ruas, levando muitas vezes só o motorista?

 

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O compartilhamento de carros (car sharing), que permite a várias pessoas usarem um único veículo por períodos curtos de tempo, é a opção adotada em cidades americanas e europeias – o modelo já chegou ao Brasil, ainda que timidamente. Com ele, pode-se aliar o conforto do carro particular a vantagens como tirar veículos das ruas, com menor emissão de gás carbônico. Segundo um estudo da Universidade de San José, Califórnia, feito com empresas do ramo nos Estados Unidos, um automóvel pode ser usado por até 13 pessoas.

 

Um dos alvos das companhias de car sharing são as pessoas que usam o carro alegando absoluta falta de opção. A diferença em relação ao aluguel tradicional está no custo e na praticidade do sistema. A americana ZipCar, que detém quase metade do mercado mundial, cobra US$ 8 por hora de uso, em qualquer dia da semana. Para quem recorre à locação, as taxas variam de US$ 77 a US$ 115 por dia. Além disso, segundo levantamento de outra empresa, a Mob CarSharing, 28% dos seus clientes na Europa decidem vender o carro ou desistem de comprar um.

 

Na garagem

 

No Brasil ainda não existe um levantamento parecido, já que o serviço é oferecido em São Paulo há apenas um ano, pela empresa Zazcar. Mas alguns dos 200 clientes já abriram mão do carro, como Victor Wallauer, de 26 anos, cujo automóvel ficava muito tempo na garagem. "Eu precisava dele só uma vez por semana", diz o produtor de eventos, que gasta 5 minutos na caminhada de casa para o trabalho, no Brooklin, zona sul.

 

Por ironia, a ideia de desistir do carro veio quando Wallauer pensava em comprar um novo. "Queria testar um Smart antes de comprar. E o car sharing era o jeito mais fácil."

 

"O car sharing é uma forma de mitigar o problema do trânsito de São Paulo", afirma Felipe Campos Barroso, sócio-diretor da Zazcar. "Em Londres e Nova York, há um carro compartilhado a cada esquina. Aqui, o serviço é incipiente, mas já vingou. O próximo passo é aumentar a frota e a quantidade de pontos de retirada e devolução."

 

"Tudo o que for feito para diminuir a frota e aumentar a fluidez é positivo", afirma o patologista Paulo Saldiva, coordenador do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. "Todos nós ganhamos saúde com isso." Segundo ele, 4 mil pessoas morrem por ano em São Paulo em virtude de problemas causados pela poluição do ar, que é 80% de origem veicular. O custo disso para o sistema de saúde chega a R$1,5 bilhão anual.

 

Mestre em Transportes e professor de Engenharia Civil do Centro Universitário da FEI, Creso Peixoto acredita que tão importante quando o impacto ambiental é o fato de o car sharing fazer parte de um processo educativo. "A ideia é não obrigar o motorista a deixar o carro em casa, mas dar opções boas o bastante para que ele queira isso."

 

 

Projeção

 

Se no Brasil o compartilhamento está engatinhando, em outros países ele já é um negócio lucrativo, que atrai até empresas convencionais de locação, como a Hertz. Segundo a consultoria Frost & Sullivan, em 2016 mais de 9 milhões de pessoas serão membros de algum serviço de car sharing na Europa e na América do Norte.

 

Na suíça Mobility, pioneira no mundo (opera desde 1989), um contrato anual de car sharing garante desconto de 50% nas tarifas do transporte público. Em Hoboken, em New Jersey, os carros compartilhados têm vagas exclusivas nas ruas. "Mais de 350 cidadãos aderiram ao serviço em menos de dois meses de funcionamento. E muitos já cancelaram suas permissões de estacionamento, ou seja, venderam seus carros", diz Ian Sacs, diretor de Transporte de Hoboken.

 

Também nos EUA, o Massachusetts Institute of Technology (MIT) desenvolve desde 2005 o CityCars, um projeto em parceria com a General Motors que prevê instalar em várias cidades estações de carros elétricos para uso compartilhado. O veículo funcionará com bateria recarregável via placas de captação de energia solar. Segundo o engenheiro Ryan Chin, que participa do projeto, os CityCars estarão nas ruas entre 2013 e 2015. "A meta é fazer o sistema, que será ligado ao transporte público, acessível para todos."

 

Em Paris, a prefeitura criou um programa para que 3 mil carros compartilhados comecem a circular em 2011. "Com o investimento (40 milhões), vamos reduzir nossas emissões de gás carbônico em 200 mil toneladas anuais", diz Sylvain Marty, diretor do projeto, batizado de Autolib. Colaboraram RENATO MACHADO E GUSTAVO CHACRA

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