Gilberto Soares/Futura Press
Movimento 'Vidas Negras Importam' conquistou adeptos por todo o mundo; transmissão de valores intramuros, ao mesmo tempo que na família, entrou na pauta empresarial   Gilberto Soares/Futura Press

Transformações precisam de rumo

Ano de 2020 contribuiu para o combate ao racismo estrutural, diz consultor, citando pandemia, caso Floyd, pauta ESG e campanha presidencial americana

Eduardo Geraque, Especial para o Estadão

26 de junho de 2021 | 23h00

O debate sobre o racismo estrutural, um dos temas importantes quando se discute a temática ESG, serve de exemplo para mostrar que, além de velocidade de transformação da sociedade como um todo, onde se quer chegar também é importante. Se há 20 anos a negação do problema era quase unânime no País, políticas públicas como a das cotas e, principalmente, quatro episódios registrados de forma simultânea no ano passado podem ser considerados como divisor de águas, na avaliação do consultor de diversidade e inclusão Ricardo Sales. 

“Na questão de um maior engajamento contra o racismo estrutural, o ano de 2020 foi um ponto de inflexão, como nenhum outro, basicamente por quatro razões. A primeira é a pandemia. A segunda o assassinato do George Floyd, que provocou mudanças importantes no próprio mundo empresarial. O terceiro é o avanço de toda a pauta ESG. O quarto ponto foi a campanha eleitoral nos Estados Unidos, onde a chapa vencedora Biden-Harris colocou o enfrentamento ao racismo estrutural como ponto central da administração”, afirma Sales.

O Sócio da Mais Diversidade, há 15 anos no ramo, explica que um termômetro da transformação é o próprio dia a dia dele. “Até 2018, o meu principal interlocutor nas empresas era o vice-presidente de Recursos Humanos. Desde o ano passado, é a liderança mais sênior e o conselho de administração, o que mostra uma mudança importante na visão das empresas”, avalia.

Para Sales, mesmo no Brasil, aqueles tempos em que a maioria das empresas negava a existência do problema do racismo estrutural ficaram para trás. “É verdade que estou falando com base em um recorte, de um grupo de empresas que representa a elite do setor. Neste contexto, a consciência sobre o racismo estrutural é maior.”

Apesar de existir todo um caldo de cultura empurrando a sociedade para uma mudança estrutural, a velocidade com que ela ocorre pode ser avaliada com base em alguns números apresentados por Sales durante o Summit ESG Estadão, realizado entre os dias 15 e 18 de junho. “Além da velocidade da transformação, também é preciso ter rumo. Muito ritmo sem direção pode nos consumir anos e nos levar a lugar nenhum. A pesquisa que fizemos no ano passado com 300 organizações brasileiras mostrou que 65% delas não têm uma estratégia para diversidade e inclusão e isso é sintomático quando queremos falar sobre onde se quer chegar.”

Na academia

Os desafios para incluir e promover a diversidade, e não apenas dos negros, estão presentes tanto nas organizações privadas quanto no universo público, como é o caso da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que nos últimos 20 anos também passou por uma revolução em todos os sentidos. 

Além de uma expansão física, com o surgimento de câmpus nas cidades de Diadema, Guarulhos, Osasco, Santos e São José dos Campos, além de um outro na zona leste de São Paulo, o arrocho orçamentário, nos últimos anos, coincidiu com uma mudança no perfil dos ingressantes na escola. Mais da metade dos alunos da instituição federal tem uma renda mensal de até 1,5 salário mínimo. O que faz com que as mudanças no ensino precisem ser acompanhadas por mudanças internas, de processos e de gestão.

“Na gestão da Unifesp existem pessoas, nos altos cargos de gestão, que representam os diversos grupos. A discussão sobre inclusão e diversidade é uma diretriz sempre presente”, afirma a cientista social Raiane Assumpção, vice-reitora da Unifesp. Segundo ela, a partir desse cenário uma grande reestruturação passou a ocorrer. 

“Hoje, por exemplo, temos a comissão sobre diversidade de gênero e a de diversidade sexual. Para que essas mudanças também não dependam de uma iniciativa pessoal, e fiquem atreladas a quem está na gestão, tudo isso está embasado pelas políticas estruturantes da universidade.” A instituição, a partir de 2013, criou rotinas profundas para que ideias sobre o papel da universidade fossem debatidas à exaustão. “O programa de desenvolvimento institucional da Unifesp prevê diretrizes, painel de acompanhamento de indicadores e comitês. Tudo para permitir que a comunidade acompanhe o que está ocorrendo. É uma tarefa bastante grande, mas que tem possibilitado um processo de mudança significativo”, avalia a vice-reitora da Unifesp. 

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Um futuro cada vez mais interativo, verde e social

Indo 'Da Teoria à Prática', evento online do 'Estadão' reuniu especialistas e trouxe estudos e métodos que começam a revolucionar as práticas ambientais, sociais e de governança

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2021 | 23h00

Com a pandemia da covid-19, o mundo corporativo ampliou o olhar sob o entorno, mais especificamente sobre a agenda de práticas sociais, ambientais e de governança (ESG, na sigla em inglês), que realmente só chegou com força ao País no ano passado. Apesar dos avanços, o Brasil ainda tem muito o que caminhar na regulação das chamadas finanças verdes. Na avaliação de especialistas que participaram do Summit ESG, evento online promovido pelo Estadão, ainda faltam informações e esclarecimentos sobre o tema, além da necessidade de criar padrões para não sufocar as empresas com as exigências. Mas, caso o Brasil consiga sucesso nessa empreitada, há chances de se tornar uma grande potência até o fim de 2030 e com relevância na agenda global.

Literalmente, chegou a hora da mudança. Principal convidado internacional, o inglês John Elkington, de 71 anos, um dos precursores do movimento global pela sustentabilidade, ressaltou a importância das atitudes de cada pessoa e de cada empresa, mas lembrou que as iniciativas individuais são insuficientes para enfrentar a crise climática no ritmo que o mundo precisa. “A mudança tem de ser mais ampla, do sistema como um todo. E temos sinais fortes de que isso está acontecendo”, disse. 

A Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) relatou, por exemplo, que, com a pandemia, muitos fundos de investimentos começaram a se autodenominar ESG – no total, são 160, apesar de ainda faltar entendimento e certa metodologia em relação ao assunto. E o caminho está aberto: de acordo com o relatório global “Chegou a Hora”, divulgado pela KPMG durante o Summit, 80% das 5,2 mil maiores empresas globais já formulam relatórios anuais de sustentabilidade – índice que chega a 85% entre as 100 maiores empresas brasileiras. “Antes, o investidor só queria saber do retorno financeiro, sem se preocupar com o impacto. Havia essa visão de um lado, e a filantropia no lado oposto. Agora estamos buscando o caminho do meio”, disse Andrea Minardi, professora do Insper, durante um dos painéis.

Outro ponto destacado é que dentre as três práticas expostas pelas letras E, S e G a que ainda tem mais difícil avanço é o social. É o que mostrou a pesquisa inédita “Mulheres na Liderança”, realizada com uma base de dados que cobre 110 mil cargos e quase 400 empresas. Resultado: apenas 14,7% dos cargos de liderança são ocupados por elas. Mas essa pauta, assim como as ligadas a racismo estrutural, inclusão e diversidade, também já começam a ganhar corpo no mundo corporativo.

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'A mudança tem de ser do sistema como um todo', defende John Elkington

Um dos precursores do movimento global pela sustentabilidade prega o 'capitalismo regenerativo como novo conceito'

Maurício Oliveira, Especial para o Estadão

26 de junho de 2021 | 23h00

Ao fazer a palestra de abertura do Summit ESG Estadão, o inglês John Elkington, de 71 anos, considerado um dos precursores do movimento global pela sustentabilidade, ressaltou a importância das atitudes de cada pessoa e de cada empresa, mas lembrou que as iniciativas individuais são insuficientes para enfrentar a crise climática no ritmo que o mundo precisa. “A mudança tem de ser mais ampla, do sistema como um todo. E temos sinais fortes de que isso está acontecendo”, disse. 

Fundador e líder da consultoria Volans, Elkington decidiu denominar o cargo que ocupa de “polinizador-chefe”, pois considera se tratar da síntese perfeita para a sua missão: acelerar a conscientização e as ações de sustentabilidade ao redor do planeta. Ele já fez mais de mil palestras, participou de 70 conselhos de empresas e publicou 20 livros, dos quais o mais recente é Green Swans: The Coming Boom In Regenerative Capitalism (Cisnes verdes: o boom iminente do capitalismo regenerativo, em tradução livre), lançado em abril do ano passado. 

“Capitalismo regenerativo” é como Elkington gosta de chamar a nova fase que ele vislumbra, da qual o cisne verde é um símbolo. “Ir daqui para lá não será uma tarefa trivial. Tempos de mudanças perturbadoras derrubam o mercado e as hierarquias políticas, criando ondas de choque que podem durar décadas – até mesmo gerações”, escreveu. Leia trechos da entrevista concedida por Elkington no dia seguinte à palestra de abertura do Summit ESG Estadão.

Há uma série de fatores que estão fazendo de 2021 um ano importante para a sustentabilidade. Além de ser o início de uma década considerada decisiva, há todo o aprendizado com as lições da pandemia?

Nenhum ano vê os sistemas mudarem inteiramente, mas pense em 1944, com a realização da conferência de Bretton Woods, ou em 1968, com os protestos estudantis, ou ainda em 1989, quando ocorreu o colapso de grande parte do mundo comunista, e é claro que uma nova ordem se torna muito mais clara a partir desses marcos. As pessoas começaram a perder a confiança no capitalismo, e as consequências disso estão cada vez mais claras. Até os capitalistas estão dizendo que o capitalismo e sua disciplina principal, a economia, devem ser “reinventados”, “reimaginados”, “redefinidos”. A pandemia despertou as pessoas para o fato de que existem crises sistêmicas que nossos governos estão ignorando ou minimizando. Elas começaram a se perguntar: se os governos fracassaram nessa ameaça imediata à saúde humana, como estão se saindo em desafios mais distantes, mas infinitamente mais sérios, como o da emergência climática e o da biodiversidade? A resposta, conforme mostrado novamente pelo encontro mais recente do G-7, é que governos estão falhando em demonstrar a liderança que o século 21 precisa. 

O senhor diria que um jovem de 18 anos pode estar se sentindo desesperançado em relação ao futuro?

Ele tem todo o direito de se sentir assustado. Qualquer ser inteligente estaria. Mas a situação está longe de ser de desesperança. Ainda podemos revertê-la, se conseguirmos colocar os líderes certos nos lugares certos. Greta Thunberg está mostrando como os jovens podem chamar a atenção do mundo, mas o desafio agora é passar dos protestos à ação efetiva e oportuna. Algumas empresas estão fazendo isso, mas dependem da ação governamental sustentada. Os mercados precisam ser remodelados para entregar as mudanças necessárias no sistema. Um exemplo são os subsídios aos combustíveis fósseis, que devem ser eliminados.

O senhor afirmou em sua palestra no Summit ESG Estadão que o greenwashing (falsa adesão ou adesão deturpada aos princípios de sustentabilidade) nem sempre ocorre por maldade, mas também por desconhecimento. Como diferenciar um do outro?

Eu não aprovo greenwashing, mas entendo que pelo menos parte disso é um sinal de excesso de entusiasmo, juntamente com compreensão limitada. Uma resposta perfeitamente humana. Mas, ainda que eu entenda por que o greenwashing acontece, ele continua sendo mortalmente perigoso, pois mina a confiança do público naquilo que empresas, governos e outras instituições estão dizendo e fazendo. Então, a primeira vez que uma empresa faz greenwashing, devemos explicar onde está o erro e incentivá-la a não errar novamente. Se o erro volta a ser cometido, torna-se um motivo justo para ataques.

O Brasil tem um governo que está claramente desalinhado com os princípios da sustentabilidade. É possível que o país evolua nesse tema mesmo assim? A iniciativa privada e a sociedade civil podem carregar essa bandeira?

Populismo e nacionalismo são um desastre para a sustentabilidade, onde quer que eles surjam. São visões que transformam a política em algo mais tribal, de curto prazo, e reduzem a transparência, permitindo a corrupção e a ineficiência grosseira. Não é coincidência que os governos populistas odeiem a livre imprensa nem que sejam tão incompetentes. Eles não trabalham por seus países. Substituem ações efetivas no mundo real por atitudes arrogantes e exibicionistas. O setor privado e os cidadãos podem carregar a bandeira, experimentando soluções regenerativas, mas essas iniciativas são restringidas pela falta de ação governamental eficaz. Que investidor estrangeiro sensato investiria nos ativos de capital natural do Brasil, se o governo continua a permitir e encorajar sua destruição? Da perspectiva das gerações futuras, a gestão Bolsonaro é um desastre – como foi a de (Donald) Trump nos Estados Unidos e são as de Johnson no Reino Unido, (Recep Tayyip) Erdogan na Turquia, (Narendra) Modi na Índia e (Xi) Jinping na China. Como Hitler, Mussolini ou Stálin, essas pessoas podem parecer que estão levando as coisas adiante, mas, muitas vezes, estão favorecendo resultados que ninguém imaginou que poderiam acontecer. Quanto tempo vai levar antes de vermos uma guerra na América do Sul desencadeada pela contínua mudança climática e uma tentativa desesperada de proteger nossos recursos naturais restantes?

Por fim, duas curiosidades: o que significa o nome da sua empresa, Volans, e que tipo de reação curiosa o senhor já enfrentou ao se apresentar com o cargo de “polinizador-chefe”?

Quando eu estava procurando um nome para a nova empresa, em 2008, eu queria uma palavra curta e, idealmente, com um significado alinhado à missão. Volans é um termo científico usado para animais, mas não pássaros, que voam, como alguns peixes, esquilos e até lagartos. É também o nome de uma constelação e eu gosto da ideia de usar as estrelas para navegar. Na primeira década da empresa, o peixe voador foi o nosso símbolo, até que um artista brasileiro que mora na Rússia, Silvio Rebêlo, criou o nosso emblema do beija-flor, um pássaro incrível: é o principal polinizador, tem uma enorme resistência e pode voar em qualquer direção, incluindo para trás. Quanto ao cargo de “polinizador-chefe”, fui o primeiro do mundo, embora o Financial Times tenha feito chacota. No geral, no entanto, a resposta é extremamente positiva.

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ESG: três letras que vieram para ficar

Na visão de parte cada vez maior do mercado, empresas que não se preocupam com políticas de sustentabilidade vão ficar para trás

Redação, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2021 | 23h00

Muita gente até já ouviu falar de ESG, mas tem dúvidas sobre a real importância da sigla. Composta pelas iniciais, em inglês, de Ambiental, Social e Governança (ASG), os três pilares devem guiar as políticas de sustentabilidade das corporações e dos governos. “No fundo, é apenas uma outra forma de definir sustentabilidade, adotada pelo mercado financeiro”, afirmou o diretor no Brasil do Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU), Carlo Linkevieius Pereira, durante um dos painéis do Summit ESG Estadão.

Foi no Pacto Global – maior ação de sustentabilidade corporativa do mundo, com mais de 16 mil membros em 160 países – que a sigla surgiu, em 2004. Foi citada pela primeira vez no relatório Who Cares Win (Ganha quem se importa, em tradução livre), que tinha o propósito de fomentar uma agenda de sustentabilidade para o setor financeiro. Depois de se tornar muito difundido na Europa e um pouco menos nos Estados Unidos, o conceito finalmente chegou com força ao Brasil, no ano passado, em meio à pandemia. 

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80% das 5,2 mil maiores empresas globais já elaboraram Relatórios de Sustentabilidade, aponta o levantamento 'Chegou a Hora'
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Todos os indícios são de que não se trata de algo passageiro. Ao contrário, a jornada ESG pressupõe estratégias de longo prazo, que podem ser decisivas até mesmo para estabelecer quais empresas continuarão existindo no mercado em um futuro nem tão distante. 

Na visão de uma parte cada vez maior do mercado financeiro, a empresa que ainda não se deu conta dessas mudanças corre sérios riscos de se tornar menos atraente para investidores. A jornada ESG de uma organização é composta por um amplo conjunto de ações necessárias para que ela demonstre que está preocupada não apenas em proporcionar lucro para seus acionistas, mas também com o bem-estar dos funcionários, a redução da desigualdade social, o desenvolvimento da comunidade e a preservação do ambiente. São as atitudes esperadas no cenário de consolidação do chamado “capitalismo de stakeholders” – ou seja, um capitalismo que se preocupa em contemplar os interesses de todos.

Avaliação

O passo inicial da jornada ESG é um diagnóstico aprofundado do estágio em que a organização se encontra nos três pilares, com indicadores baseados em critérios científicos e reconhecidos internacionalmente. As metodologias mais difundidas no mercado para a realização desse diagnóstico exigem um grande detalhamento dos números – mais de 400 indicadores devem ser mensurados e acompanhados. O diagnóstico costuma ser consolidado anualmente nos Relatórios de Sustentabilidade, ferramenta que ganha crescente importância como fonte de informação para investidores, uma vez que, além de ser um retrato momentâneo da empresa, é também referência para avaliar como a organização tem evoluído.

A sócia líder de ESG na KPMG do Brasil, Nelmara Arbex, apresentou a visão de que se inicia um momento essencial para a sustentabilidade no planeta. “Esta é a década do ‘vamos fazer’.”

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85% das 100 maiores empresas brasileiras já apresentaram Relatórios de Sustentabilidade, aponta levantamento da KPMG
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Futuro vai depender de decisões deste ano

Medidas do início desta década poderão ser marco definitivo entre preservar ou destruir

Maurício Oliveira, Especial para o Estadão

26 de junho de 2021 | 23h00

O ano de 2021 é considerado fundamental para a sustentabilidade no mundo, por causa de uma soma de fatores. Além de uma maior conscientização decorrente da pandemia, que demonstrou a nossa vulnerabilidade diante do desequilíbrio do planeta, trata-se do início da década que demonstrará se a humanidade é capaz de se mobilizar em torno de grandes causas, como as estabelecidas pelo Pacto Global por meio dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

Há também o otimismo decorrente da ascensão ao governo dos Estados Unidos de Joe Biden, que estabeleceu um plano de recuperação econômica pós-covid amparado em iniciativas de baixo carbono – direção oposta à que vinha sendo estabelecida pelo seu antecessor, Donald Trump

Até o fim da década, se depender do democrata, uma em cada cinco crianças nos EUA deve ir para a escola em ônibus elétricos. Serviços federais, como os correios, só usarão carros movidos a eletricidade. Prédios antigos terão maior eficiência energética. Dos pátios das fábricas americanas sairão painéis solares e sistemas de captura de carbono. Pela proposta do novo presidente americano, o governo investirá em inovação e pesquisa, abandonando os combustíveis fósseis, que movem o país hoje. A meta é ambiciosa: metade da energia virá de fontes renováveis. 

Um grande termômetro do momento que estamos vivendo em relação à sustentabilidade será a COP-26, conferência sobre o clima da Organização das Nações Unidas (ONU), marcada para novembro em Glasgow, na Escócia. Há grande expectativa por avanços concretos nas definições de regras do mercado internacional de carbono e, também, pelo reforço dos compromissos governamentais com as metas estabelecidas no Acordo de Paris, firmado em 2015, durante a COP-21.

Na ocasião, representantes de 195 países – incluindo o Brasil – assinaram o compromisso pela redução das emissões de carbono, com o objetivo de limitar o aumento da temperatura global neste século a 1,5 ºC. O cumprimento do acordo exigia uma redução imediata e contínua da produção de gases do efeito estufa, mas o ritmo depois disso não tem sido suficiente, o que tem levado a um descompasso crescente entre o desejo manifestado no Acordo de Paris e a realidade.

Compensação

De acordo com estudo do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), a manutenção da meta de 1,5º C exige reduzir as emissões pela metade até 2030 e completamente até 2050. 

Para o professor Eduardo Viola, do Instituto de Relações Institucionais da Universidade de Brasília (UnB), especialista em política ambiental, a meta definida pelo Acordo de Paris já se tornou impossível de ser alcançada. “No caminho em que estamos, o aumento da temperatura no século poderá chegar a 4 ºC. Se conseguirmos limitar a 2 ºC, já será uma grande vitória”, afirma.

Quinto maior produtor de carbono do planeta, responsável por 3,2% das emissões globais, o Brasil se comprometeu, ao assinar o Acordo de Paris, a reduzir em 37% as emissões de gases do efeito estufa até 2025, e 43% até 2030, tendo como base de comparação o patamar de 2005. Essas metas se tornam cada vez mais distantes, no entanto, à medida que os índices de desmatamento no País continuam subindo – essa é a principal causa das emissões brasileiras, enquanto em outros países as questões principais costumam ser o transporte, a matriz energética e os processos industriais.

Ainda que não sejam as grandes vilãs das emissões brasileiras – ao menos não diretamente –, as grandes corporações do País estão contribuindo para o cumprimento do Acordo de Paris ao anunciar o projeto de eliminar suas emissões dentro de um determinado período – são as chamadas metas “Net Zero”. 

Aquelas que não conseguirem isso apenas com ajustes em seus processos contam com a possibilidade da compensação – ou seja, a compra de créditos de carbono para fechar a conta. “É importante que essa alternativa seja vista como complementar ao esforço máximo da organização. Não pode ser a estratégia principal, pois isso seria apenas transferir o problema”, ressalta Lauro Marins, líder em ESG da consultoria Resultante Research.

Fazer o certo

“Quando falamos de ESG, estamos falando de oportunidades e de riscos”, ressalta Sonia Favaretto, presidente do Conselho da Rede Brasil do Pacto Global e ex-diretora de Sustentabilidade da B3, a Bolsa de Valores do Brasil. “Por isso, além de se perguntarem sobre o que ganham ao seguir essa agenda, as empresas precisam se perguntar também sobre o que podem perder se não seguirem essa agenda.” 

Claudia Yoshinaga, coordenadora do Centro de Estudos em Finanças da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (FGV-Eaesp), lembra que investidores e acionistas costumam fazer um questionamento: será que tudo isso se paga?

Ela ressalta que não se trata de algo simples de responder, pois é difícil isolar o resultado de uma ação tomada de forma simultânea com várias outras. Assim, análises simplistas podem levar a distorções. “Tenho sempre receio de estudos que afirmam categoricamente que ‘ESG traz valor financeiro’ ou ‘ESG não traz valor financeiro’.” É por isso que a principal motivação da empresa deve ser, acima de tudo, a convicção de que isso é o certo a fazer.

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Finanças verdes tornam-se a aposta

O nível de sustentabilidade demonstrado pelas empresas no mundo todo já vem ganhando relevância como um critério de investimento

Maurício Oliveira, Especial para o Estadão

26 de junho de 2021 | 23h00

Ok, não sejamos “Polianas”: por mais sustentável que seja uma empresa, ela não atrairá muitos investidores se não estiver dando lucro. Mas é exatamente nesse ponto que o conceito ESG está revolucionando o mercado financeiro: a ideia é demonstrar, cada vez mais, o quanto é possível conciliar as duas coisas.

“Antes, o investidor só queria saber do retorno financeiro, sem se preocupar com o impacto. Havia essa visão de um lado, e a filantropia no lado oposto. Agora estamos buscando o caminho do meio. Retorno, sim, mas levando em conta o impacto”, disse Andrea Minardi, professora do Insper, durante um dos painéis do Summit ESG Estadão.

Celso Lemme, professor do Instituto de Pesquisa em Administração da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppead/UFRJ), ressaltou que esse processo envolve até a revisão do conceito de dever fiduciário – o compromisso que existe entre um investidor e o agente financeiro. Anteriormente, lembrou o professor, investir em empresas com base nos critérios de sustentabilidade poderia ser considerado um desvio desse dever. “Agora é o contrário. Observar as questões ambientais na gestão dos recursos é parte das obrigações com o dono do dinheiro.”

Adaptação

Para Rogerio Monori, diretor executivo de Corporate & Investment Banking e Tesouraria do Banco BV, os bancos têm papel de indutores dessa transformação, com a missão de alocar o capital da forma que mais interessa aos stakeholders, e não apenas aos acionistas. “Já optamos por deixar de fazer transações que seriam muito rentáveis, mas envolviam empresas que deixavam a desejar em ESG”, descreveu. O BV já é Net Zero em suas operações e, líder do mercado de financiamento de automóveis, tem a meta de neutralizar, até 2030, as emissões de toda a frota que financia.

Fernanda Camargo, integrante do Grupo Consultivo de Sustentabilidade da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), considera que a fase é de educação e de adaptação para todos que atuam nesses mercados. “Já temos no Brasil 160 fundos que se dizem ‘verdes’, ‘ESG’ ou ‘sustentáveis’, mas há grandes dificuldades de entendimento e na formulação dessas metodologias”, descreveu.

A Anbima deve se envolver progressivamente no monitoramento e na certificação desses fundos, anunciou Fernanda. “Mas é importante definir parâmetros factíveis. Se colocar a barra muito alta, ninguém adere. É preciso ir compartilhando muita informação para ir subindo a barra aos poucos.” 

Reputação

Empresas que desprezam o peso que as práticas ESG vêm ganhando podem sofrer grandes impactos na imagem – e nas finanças. Toda a movimentação em torno das práticas ESG vem chamando a atenção de dois públicos essenciais para as empresas: os investidores e os consumidores. “Um estudo recente demonstrou que 85% dos consumidores brasileiros dizem se sentir melhor ao optar por produtos sustentáveis”, afirmou o professor Marcus Nakagawa, especialista em sustentabilidade da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), durante um dos painéis do Summit ESG Estadão.

Do ponto de vista do mercado financeiro, a repercussão é semelhante. “Hoje, 70% dos investidores querem que esses critérios sejam levados em conta nos seus investimentos”, diz Frederic de Mariz, líder no Brasil de UBS, empresa global que presta serviços financeiros a pessoas físicas e organizações, com foco especial em gestão de fortunas. Ele diz perceber a preocupação crescente das famílias mais ricas do País em contribuir para a melhora das condições gerais de vida e, assim, deixar um legado. 

Esse maior interesse de investidores e consumidores envolve, também, um nível maior de vigilância e cobrança sobre as ações das empresas. O professor Nakawaga chama a atenção para os riscos crescente de práticas como o greenwashing, termo em inglês que define a falsa adesão ou a adesão superficial aos princípios de sustentabilidade. “A tolerância das pessoas é cada vez mais baixa, especialmente dos mais jovens. Fenômenos como o ‘cancelamento’ nas redes sociais são rápidos e têm alta capacidade destrutiva para a reputação das marcas”, alerta o professor. “Oito em cada dez integrantes da geração Z, que está entrando agora no consumo, param de comprar de empresas envolvidas em situações consideradas negativas”, ele acrescenta.

Core business

Os riscos evidenciam a importância da busca, pelas empresas, de informações sólidas sobre os princípios ESG. Muitas ainda cometem o erro de divulgar números que podem ser facilmente contestados. Um exemplo típico está na participação feminina em cargos de gestão. Ao anunciar essa métrica, é fundamental deixar claro quais níveis hierárquicos estão sendo incluídos na contagem.

Outro ponto crucial para a reputação das organizações, alertam os especialistas, é dar o devido peso aos indicadores que têm relação direta com os negócios da organização. Uma transportadora precisa focar nas mudanças climáticas e uma empresa de call center, com grande número de empregados, tem de dar destaque à relação com os trabalhadores, por exemplo. Se a transportadora enfatiza o incentivo ao esporte ou a empresa de call center destaca o projeto de coleta seletiva de lixo, isso pode soar como uma nuvem de fumaça para disfarçar a falta de atuação nas áreas que são realmente as mais importantes para essas empresas.

8 Razões para pensar em um novo modelo

1. Investimento

Segundo o jornal Financial Times, em 2018 o setor de investimentos em ESG foi estimado em cerca de US$ 31 trilhões. 

2. Compra

Pesquisa da consultoria McKinsey revelou que 85% dos brasileiros dizem que se sentem melhor comprando produtos sustentáveis, e uma pesquisa global mostrou que 97% dos entrevistados esperam que as marcas solucionem problemas sociais.

3. Desempenho

Um estudo da Universidade de Nova York apontou que 58% das empresas que seguem os princípios de sustentabilidade registraram melhora dos resultados operacionais e performance financeira.

4. Lucro

O Fórum Econômico Mundial estima um aumento de 25% a 36% na lucratividade; 20% nas taxas de inovação; e 30% na habilidade de identificar e reduzir riscos nos negócios nas empresas que investem na diversidade de suas equipes conjugarem mais conhecimentos e habilidades, repertório emocional e margem de acesso a novos mercados.

5. Desenvolvimento

A KPMG constatou, em seu estudo “Chegou a hora”, que 67% das 100 maiores corporações brasileiras conectam as informações apresentadas em seus Relatórios de Sustentabilidade aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, compostos por metas a ser alcançadas pelos países até 2030.

6. Startups

Relatório da consultoria ACE Cortex, identificou ao menos 343 startups com soluções relacionadas ao ramo ESG no Brasil. De acordo com o trabalho, 180 atuam no setor ambiental, 130 com negócios de impacto social e 33 com soluções de governança.

7. Atualidade

Ainda conforme a ACE, 46% dos empreendedores e colaboradores de grandes companhias afirmam já lidar com programas de ESG em suas empresas e 92% acreditam no valor desse conceito.

8. Fundos

A Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) fez um levantamento que aponta que, com a pandemia, 136 fundos de investimentos já se denominam ESG.

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Medição de indicadores já virou uma regra

80% das 5,2 mil maiores empresas globais formulam relatórios de sustentabilidade

Maurício Oliveira, Especial para o Estadão

26 de junho de 2021 | 23h00

A disseminação dos Relatórios de Sustentabilidade indica a importância que os indicadores ESG ganharam. De acordo com o relatório global “Chegou a Hora”, divulgado pela KPMG durante o Summit ESG Estadão, 80% das 5,2 mil maiores empresas globais já formulam relatórios anuais de sustentabilidade – índice que chega a 85% entre as 100 maiores empresas brasileiras. 

Quando levadas em consideração apenas as 250 maiores companhias do mundo, o documento é produzido por 96% delas. Em 1993, quando a KPMG realizou o levantamento pela primeira vez, apenas 12% das empresas publicavam relatórios desse tipo. A sócia líder de ESG na KPMG do Brasil, Nelmara Arbex, prevê que os Relatórios de Sustentabilidade serão amplamente adotados nos próximos anos também pelas médias e até mesmo pequenas empresas.

Entre os fatores avaliados estão até métricas usadas para países e governos, como é o caso dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). Trata-se de outra grande referência surgida do Pacto Global: a Agenda 2030. Os 17 ODSs estão relacionados a áreas como fome, saúde, educação, distribuição de renda, igualdade de gênero, meio ambiente, aquecimento global, água, saneamento e energia. Esses temas foram destrinchados em 185 indicadores no Brasil – há variações de país para país, relacionadas às peculiaridades locais e ao ponto de partida de cada um nos diferentes aspectos apresentados.

Um aspecto fundamental dos ODSs foi enfatizar a responsabilidade que as grandes corporações têm sobre suas cadeias – ou seja, já não basta cuidar apenas de si e simplesmente fechar os olhos para o que acontece além dos muros da empresa. Outra visão enfatizada pelo Pacto Global é o entendimento de que promover a sustentabilidade não se limita à prática de ações ambientais, que costumavam ter protagonismo nas discussões. As questões sociais e de governança – incluindo o combate à corrupção, tão evidenciada nos últimos anos – vêm ganhando espaço e relevância. 

Fator competitivo

Os ODSs ganharam tanta relevância que a KPMG constatou, em seu estudo “Chegou a hora”, que 67% das 100 maiores corporações brasileiras conectam as informações apresentadas em seus Relatórios de Sustentabilidade aos objetivos da ONU, compostos por metas que devem ser alcançadas pelos países até 2030. Muitas empresas acabaram assumindo também esses desafios.

Embora a rede brasileira do Pacto Global seja uma das que mais crescem no mundo, já passando de mil empresas signatárias, a situação geral do País na busca pelo cumprimento dos ODSs não é boa. De acordo com a Universidade de Cambridge, que acompanha essa evolução ao redor do planeta, o Brasil está na 61.ª posição na proporção de atingimento das metas, entre os 165 países avaliados. O atual índice brasileiro é de 71,3%, semelhante ao da Tunísia e do Peru, enquanto os líderes são a Finlândia (85,9%), a Suécia (85,6%) e a Dinamarca (84,9%).

É nesse cenário de expectativas por avanços reais e mensuráveis que os conceitos de ESG surgiram como um grande consolidador do conjunto de práticas sustentáveis de uma organização, aponta Onara Lima, diretora de Sustentabilidade da Ambipar, empresa que é referência em gestão ambiental. 

“Cuidar da sustentabilidade é um fator competitivo para as empresas. Essas práticas trazem oportunidades, além de mitigar riscos e criar valor a longo prazo”, diz a executiva. “Quem ainda enxerga ações de sustentabilidade como custo está defasado, pois é perfeitamente possível integrar as metas ESG à estratégia das organizações”, afirma.

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Setor privado sai em defesa do clima

Grandes empresas brasileiras, de diversos setores, definiram prazos e planos de ação para zerar as emissões de gases de efeito estufa

Maurício Oliveira, Especial para o Estadão

26 de junho de 2021 | 23h00

A iniciativa privada costuma ser mais ágil que o poder público quando o cenário pede adaptação a novos contextos. Além disso, na situação atual do Brasil, é notório que o governo federal não está alinhado às boas práticas de sustentabilidade. A soma desses aspectos amplia o protagonismo das empresas brasileiras no combate à crise do clima.

Para Carolina Genin, diretora de clima do instituto de pesquisas WRI Brasil, o País desfruta de situação privilegiada no processo de transição para uma economia de baixo carbono. Estudo recente liderado pela organização, intitulado “Uma nova economia para uma nova era – elementos para a construção de uma economia mais eficiente e resiliente para o Brasil”, demonstra que o País pode levar adiante políticas de redução das desigualdades e de promoção do desenvolvimento sustentável e, ao mesmo tempo, fomentar a atividade econômica e a geração de empregos.

“Não precisamos começar do zero, reinventar a roda. É só dar sequência ao que já temos”, afirmou Carolina. A modelagem econômica realizada para o estudo projeta que acelerar a transição para a economia de baixo carbono no Brasil poderia resultar, até 2030, na geração de 2 milhões de empregos e de R$ 2,8 trilhões adicionais no Produto Interno Bruto (PIB), além de ser um aspecto decisivo para a atração de investimentos estrangeiros. “Os principais setores da economia brasileira, especialmente o agronegócio, devem assumir o protagonismo desse processo”, observou Carolina.

Net Zero, a missão

O setor do agronegócio esteve representado no debate por Gilberto Tomazoni, CEO da JBS, um dos maiores players globais da indústria de alimentos. Ele lembrou que o mundo enfrenta o desafio de alimentar uma população que continuará crescendo, até chegar a quase 10 bilhões de pessoas por volta de 2050 – e isso terá de ser feito em paralelo à redução do ritmo do aquecimento global. 

Tomazoni descreveu a meta Net Zero assumida pela empresa – zerar as emissões de gases causadores do efeito estufa até 2040. “Definimos esse objetivo não apenas porque é a coisa certa a fazer, mas porque é o único caminho que temos”, afirmou o executivo. Para desenvolver as várias frentes de ação relacionadas à meta, a companhia projeta investimentos de US$ 2 bilhões no fomento da inovação interna. 

O CEO da JBS reconheceu que a empresa tem grande responsabilidade como intermediária entre os produtores de carne e os consumidores. “Já monitorávamos os nossos fornecedores diretos, e agora criamos uma plataforma para monitorar os fornecedores dos fornecedores, algo que se tornou possível com a tecnologia de blockchain.”

Outra das maiores empresas brasileiras, a Vale, também participou das discussões do Summit ESG Estadão. Hugo Barreto, diretor de Sustentabilidade e Investimento Social da companhia, lembrou que a mineração é um setor repleto de desafios e de riscos para administrar. “Ao mesmo tempo, é uma atividade essencial para a sociedade contemporânea e tem grande importância para a economia do Brasil. Representa 3% do nosso Produto Interno Bruto (PIB) e contribui decisivamente para a balança comercial”, descreveu. 

A empresa anunciou recentemente o compromisso de recuperar e proteger 500 mil hectares de florestas até 2030, parte do esforço para alcançar a neutralidade de carbono até 2050. Esse trabalho será realizado de forma integrada a outra linha de ação da Vale, o fomento de negócios com impacto socioambiental positivo, capazes de criar renda e empregos às comunidades que vivem em biomas como a Amazônia, o Cerrado e a Mata Atlântica

Não há mais tempo

A Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp) também contribuiu com as discussões sobre o protagonismo do setor privado no combate à crise climática. O superintendente de Comunicação, Fabio Toreta, lembrou que a sustentabilidade está naturalmente integrada ao core business da companhia. Para ele, a adoção pela Sabesp das melhores práticas exigidas pelo mercado tem sido impulsionada há muitos anos pela composição de capital misto – o principal acionista é o governo de São Paulo, mas 49,7% das ações pertencem a empresas privadas. 

A segurança hídrica é uma questão de especial interesse para a Sabesp, pois afeta diretamente o setor de abastecimento de água. Depois da crise de 2014-2015, em que foi preciso acionar o volume morto do Sistema Cantareira, a companhia realizou uma série de obras para reduzir os riscos de que essas dificuldades voltem a ocorrer, a exemplo de interligações de mananciais e criação de outros sistemas para a produção de água. “Estamos neste momento com um índice pluviométrico menor do que naquele período e, ainda assim, a situação está tranquila”, afirmou o executivo.

Para Carolina Genin, do WRI Brasil, há setores mais avançados na corrida pela sustentabilidade, enquanto outros parecem ainda não ter se dado conta da urgência do tema. Um exemplo citado por ela é a indústria automobilística brasileira. “É um setor que está tentando ganhar tempo ao manter padrões que não são mais aceitáveis”, afirmou. O grande problema é que não há mais tempo a ganhar – só a perder.

Governo sem agenda

Se o Ministério do Meio Ambiente pretende "passar a boiada", a agenda econômica do governo brasileiro ainda está distante de adotar um perfil "verde". Questões como a tributação do carbono e o incentivo a programas de emprego sustentáveis, por exemplo, ainda não conseguem avançar com mais afinco no Brasil. Essas reflexões fizeram parte do último painel do Summit ESG, evento online promovido pelo Estadão, que teve como convidados Alberto Bombig, editor da Coluna do Estadão, e Pedro Fernando Nery, consultor de economia no Congresso e colunista do jornal, e mediação da jornalista Karla Spotorno.

Para Bombig, o atraso nas políticas sobre os temas não é surpresa porque a agenda ambiental do governo "vai na contramão" do que apontam os especialistas. "Pode parecer pouco, mas, para o meio ambiente, os resultados de uma coisinha pequena que mexe em Brasília são literalmente devastadores." Avançando para o social, entre discussões sobre o auxílio emergencial e o impacto econômico da pandemia, segundo Pedro Fernando Nery, "o difícil mesmo é pensar em uma política (assistencial) permanente". 

 

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As ações sociais têm de começar dentro da empresa

Corporações precisam 'arrumar a casa' para conseguir causar algum impacto; e o engajamento ajuda a resolver questões globais

Luiza Pollo, Especial para o Estadão

26 de junho de 2021 | 23h00

Calcular impactos ambientais e avaliar governança corporativa parecem ser processos bastante intuitivos. Mas o S do ESG acaba virando uma incógnita: quais mudanças sociais podemos esperar de uma empresa? E como avaliar seu impacto? Segundo o relatório global “The Time Has Come” de 2020, o mais recente, desenvolvido pela KPMG com base em 5,2 mil empresas de 52 países, o Brasil está preocupado com essas questões. Mundialmente, 80% das corporações divulgam relatórios de sustentabilidade ou responsabilidade corporativa, enquanto por aqui a média sobe para 85%. “Temos problemas importantes para resolver, e sabemos que as empresas são centros de recursos financeiros, intelectuais, de relacionamentos, e que sem elas fica cada vez mais difícil resolvê-los”, disse Nelmara Arbex, sócia-líder da prática de ESG da KPMG no Brasil, durante o painel A Solução da Desigualdade Passa pela Integração Social, no Summit ESG 2021. 

Para ela, o exemplo de responsabilidade social começa dentro da própria empresa, nas práticas que aplicam com seus funcionários. Salários justos, condizentes com condições de vida digna para os empregados, relações transparentes com a cadeia de fornecedores, troca ativa com a comunidade onde está inserida – ajudando no acesso a treinamentos, tecnologias e emprego –, além de filantropia, são alguns exemplos de como o S se reflete nas corporações. 

Segundo o relatório da KPMG, 67% das empresas se preocupam em conectar as informações de seus relatórios com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), 17 pontos definidos pelas Nações Unidas para “acabar com a pobreza, proteger o meio ambiente e o clima e garantir que as pessoas, em todos os lugares, possam desfrutar de paz e de prosperidade”, como define a própria ONU, até 2030.

Educação

Dentre eles está a educação, bandeira defendida no Summit por Alexandre Sanches Garcia, pró-reitor, professor e coordenador do Centro de Pesquisa ESG da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (Fecap). “Quando os líderes se atualizam, fazem formação continuada, isso tem efeito multiplicador na instituição, não só aplicando o que aprendeu, mas também entre os colaboradores, que podem se espelhar.”

Do ponto de vista dos investidores, Ana Siqueira, CFA e sócia cofundadora da Artha Educação, defende que as avaliações empresariais precisam levar em consideração que “negócios são fundamentalmente pessoas”. “Como analista de renda variável, eu olhava toda a parte de governança e, só depois de ter uma visão geral eu ia para os números. Quando você vai direto para os números, você esquece de pensar quais são os valores da empresa, a qualidade, a reputação”, afirma.

Três perguntas para Claudia Yoshinaga, do Centro de Estudos em Finanças da FGV-EAESP

Por que os conceitos E e G estão mais consolidados? E porque isso não ocorre com o S (sustentabilidade)?

Quase todo analista de renda variável vai dizer que olha aspectos de governança na hora de fazer uma recomendação de uma empresa. Desde o início dos anos 2000, com grandes escândalos corporativos, os olhos do mercado se voltaram para isso. (Quanto ao ‘S’) talvez a pauta social seja mais difícil de ser percebida. Isso porque o primeiro afetado acaba sendo o público interno da empresa. São os funcionários que conseguem avaliar se a empresa tem medidas adequadas ou não para tratar a sua força de trabalho. 

Como quantificar o impacto social? Existem exemplos que possam ser trazidos? E como estamos no País?

Na Noruega, por exemplo, foi aprovada uma medida que tornou obrigatória a participação das mulheres em conselhos de empresas. Assim foi possível medir o impacto dessa medida. No Brasil, a preocupação ainda se resume a cumprir as leis trabalhistas. Não demos o passo a mais para promover diversidade e inclusão.

Como essas questões podem ser solucionadas? O público pode causar algum barulho?

Sim. Mas eu diria que precisa vir principalmente da parte dos acionistas, em especial os institucionais, que têm uma porção mais representativa do capital das empresas. 

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Transparência por votos e negócios

Reguladores e investidores entraram com ênfase no debate ESG por melhores práticas, em um caminho que afeta o público e o privado

Eduardo Geraque, Especial para o Estadão

26 de junho de 2021 | 23h00

O ano é 2007. Na Suécia, pela primeira vez em todo o planeta, um governo nacional decidiu implementar uma lei que obrigava as empresas estatais do país, por serem propriedade do povo, a divulgar informações ESG, práticas que envolvem ações nas vertentes ambientais, sociais e de governança. Se nos primeiros anos os avanços em termos de transparência foram tímidos, hoje, quase 15 anos depois, a realidade sueca serviu de base tanto para o próprio país avançar quanto como forma de inspiração para outras nações, até em outros continentes.

“Quando olhamos agora para o processo de Green Deal Europeu podemos dizer que a regulação lá atrás facilitou a adaptação das empresas suecas ao novo conjunto de leis e a normas ambiciosas do continente, que busca ser carbono neutro até 2050”, afirma Glaucia Terreo, diretora da Global Report Initiative (GRI) no Brasil. A executiva afirma que há ao menos 168 regulações ou normas publicadas hoje no mundo em 67 países. 

Para Glaucia, toda a cultura envolvendo as práticas ESG, que engloba até a transparência das ações, é algo que já ganhou “tração” no mundo pelo fato de que reguladores e investidores entraram com ênfase no debate. “Não há como uma empresa ser saudável em um planeta doente. O tema deixou de ser nicho e está ficando cada vez mais clara a relação do contexto ao redor e o sucesso dos negócios”, afirma a executiva do GRI no Brasil. 

Questão nacional

No caso brasileiro, segundo ela, “não é diferente”. “O mercado financeiro e os investidores, além dos conselheiros de administração das empresas, estão fazendo com que os relatos ESG ganhem a devida importância estratégica bem como a necessária consistência.”

De acordo com os dados da GRI são aproximadamente 400 empresas que utilizam a metodologia internacional do grupo no País.  “Vemos todos os dias novas empresas divulgando informações ESG. Temos bons relatos e outros que ainda estão passando pelo processo de aprendizado. Mas uma coisa não se pode negar: ESG é bom para a perenidade das empresas”, diz Glaucia.

O fato de muitas empresas estarem mergulhando cada vez mais no entendimento do tema não significa que nunca praticaram ações voltadas para o ambiental, o social e para a governança. O problema é que nem sempre esses temas eram amarrados de forma eficaz. “A verdade é que ESG sempre existiu nas empresas: relações trabalhistas, meio ambiente, direitos humanos, fornecedores e governança. O que inexistia ou era frágil era a gestão desses aspectos com estratégia, metas, indicadores e a devida conexão disso tudo com a criação ou a destruição de valor”, explica Glaucia. 

Fatos que ilustram esse ponto de vista são os grandes acidentes relacionados às empresas do setor de mineração nos últimos anos, por exemplo, tanto no Brasil quanto no mundo. Em muitos casos, uma decisão tomada apenas pelo viés financeiro acabou tendo um efeito cascata negativo para o grupo. No novo contexto, a questão financeira deve ter o mesmo peso que os preceitos do universo ESG. O que vale agora tanto para o setor privado quanto para o público.

Público

No caso dos governos, segundo Rodrigo Perpétuo, secretário executivo do ICLEI (Governos Locais pela Sustentabilidade na América do Sul), a transparência é fundamental para que as preocupações ESG sejam consolidadas e divulgadas. “Primeiramente, os governos precisam conhecer o território e as pessoas que nele habitam. É preciso ter dados. Quando vemos a falta de orçamento para o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (o levantamento decenal foi atrasado pela pandemia e a falta de recursos na gestão Jair Bolsonaro já levou o caso à Justiça), a gente fica muito preocupado porque essa é a base da política pública, que para ser feita de forma fidedigna precisa ter informações e ser baseada na ciência”, diz Perpétuo. 

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Diversidade e inclusão devem ser complementares

'A verdadeira inclusão é aquela onde todos são reconhecidos e escutados', observa consultora independente

Eduardo Geraque, Especial para o Estadão

26 de junho de 2021 | 23h00

Uma diversidade ampla dentro do mundo corporativo não leva necessariamente à inclusão. Os dois processos são complementares e precisam caminhar juntos. 

“A diversidade é como se fosse uma corrida de 100 metros, enquanto a inclusão é um processo que se assemelha mais a uma maratona”, afirma Dulcejane Vaz, economista e consultora independente para inclusão, fazendo uma comparação que torna mais fácil o entendimento.

Segundo ela, engajar todos os funcionários e colaboradores de uma companhia requer tempo e investimentos, incluindo o capital humano. “Não se pode ter a ilusão que é algo de curto prazo”, diz. Os cincos ‘P’ da Sustentabilidade (planeta, pessoas, parcerias, paz e prosperidade, como vistos na figura abaixo) estão na base de tudo.

Perpassando o debate sobre inclusão e diversidade está outro elemento que não pode ser esquecido, segundo a consultora. “A transparência do G, da Governança, também tem de ser total”, explica. São empresas com processos flexíveis em que as estratégias da diversidade e da inclusão estão introjetadas no dia a dia das relações profissionais que mais conseguem avançar. “A verdadeira inclusão é aquela onde todos são reconhecidos e principalmente escutados. Uma coisa é você fazer parte do time, outra é você entrar no jogo”, afirma Dulcejane. 

O olhar empático, além da inclusão, também deve se voltar para a diversidade. “Hoje, esse assunto tem um aspecto muito mais amplo. Ele envolve também classe social, formação escolar, aspectos culturais e religiosos”, diz ela. Segundo a consultora, mesmo no Brasil a mudança de mentalidade a favor tanto da inclusão quanto da diversidade está avançando.

Considerando quem está do lado de dentro do balcão de negócios, Renato Gasparetto, vice-presidente de Relações Institucionais e Sustentabilidade da Vivo, concorda. “Penso que todo esse processo é também fruto de uma mudança que ocorre de dentro para fora. Para nós, desde 2006, sustentabilidade é compromisso de desenvolvimento. O G (de governança) é o que difere o joio do trigo. O ESG deixou de ser opção e passou a ser pressuposto”, afirma o executivo da empresa de serviços de conectividade digital.

Exemplo

Entre os exemplos de ações práticas citados por Gasparetto durante o Summit ESG Estadão estão o programa Vivo Sustentável, de reciclagem de eletrônicos nas lojas da empresa, e o de inclusão de pessoas acima dos 50 anos. “Parte do nosso público prefere ser atendido nas lojas por pessoas com a mesma idade.”

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Governo aberto surge como o grande facilitador

É preciso criar ações públicas transversais que dialogam com educação, aspectos sociais e de mobilidade

Eduardo Geraque, Especial para o Estadão

26 de junho de 2021 | 23h00

O governo aberto, defende o executivo do ICLEI Rodrigo Perpétuo, está na base de todo processo que pretende envolver a população na construção de uma cidade mais sustentável, um dos pilares do debate ESG. “O dado precisa ser divulgado para a sociedade para que ela se aproprie dessa informação e participe das decisões de governo e dos processos de formulação das políticas públicas. A função do poder público é fomentar o diálogo social, é educar também a população, prepará-la para que ela possa não apenas entender, mas também criticar a informação que está disponível.” 

De acordo com Perpétuo, todo esse processo é essencial, por exemplo, em desenhos de ações públicas na área climática. “No nosso caso, nós temos uma plataforma onde as cidades que se comprometeram com o tema depositam relatórios que englobam as análises de risco e as vulnerabilidades climáticas do território. Assim como os inventários de emissão de gases de efeito estufa dos municípios.”

Com esses dados, afirma o executivo do ICLEI, é que políticas públicas transversais, que dialogam com a questão da educação, aspectos sociais e até de mobilidade da cidade, vão ser construídas. “Com tudo isso divulgado na plataforma existe transparência e a sociedade pode acompanhar a evolução das ações do poder público.”

Outro grande desafio na área da sustentabilidade, segundo Perpétuo, é que as cidades assumam metas e compromissos, para que o debate plural ultrapasse o limite dos mandatos dos governos. Uma das formas de lidar com isso no microcosmo das grandes metrópoles, como São Paulo, é participar por exemplo dos processos de construção – e de revisão, como agora – dos Planos Diretores

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Bandeiras progressistas devem ter eco na prática

Tão importante quanto a ideia que se levanta é o que a empresa faz realmente na prática, sob pena de risco à imagem

Eduardo Geraque, O Estado de S.Paulo

26 de junho de 2021 | 23h00

Nos três pilares do mundo ESG, ambiental, social e governança, tão importante quanto a ideia que se levanta é o que a empresa faz realmente na prática. Sob pena de os riscos à imagem de determinada corporação serem irreparáveis. “A corrida pelo tema ESG cria alguns riscos. Um deles, em termos mais gerais, é o de a empresa apresentar uma postura um pouco oportunista, de precisar levantar uma bandeira que algumas vezes não consegue representar na prática”, afirma a advogada Gabriela Guimarães, sócia da FourEthics Consultoria.

Dentro de cada um dos três temas, a consultora também enxerga várias situações onde problemas cruciais podem surgir. “Os grandes escândalos recentes de corrupção demonstram que nem sempre o respeito às práticas de governança vem sendo observado. No caso do pilar social, um grande risco são as ações de responsabilidade social da empresa, por exemplo, estarem sendo usadas para um pagamento indevido, voltado à corrupção”, analisa Gabriela. Um exemplo prático, afirma a representante da FourEthics, pode surgir em casos onde uma ONG indicada por um agente público é utilizada para uma atividade política e recebe por isso, algo que é vedado por lei desde 2015.

Na questão ambiental, lembra Gabriela, houve problemas com laudos fraudados para atender a exigências legais. “Às vezes são ações isoladas e cabe ao escritório de compliance trabalhar em conjunto e dar uma atenção especial. Os próprios empresários estão mais atentos a essa temática como um todo porque está demonstrado que os investidores, até agora a pessoa física, estão atentos também. É um assunto que traz mais retorno para as empresas e vai gerar maior longevidade para elas também.”

Educação

Toda essa mudança de cultura, na visão de Fabio Costa, gerente-geral da Salesforce Brasil, deve surgir também da educação. “Para que você transforme a percepção em relação à ética do respeito ao próximo, do respeito à comunidade a que você pertence.”

Os indivíduos de uma empresa, segundo Costa, precisam transmitir os mesmos valores não apenas intramuros, mas também quando eles vão para casa e interagem com a família, com o vizinho e com a comunidade. “O que a gente não pode deixar ocorrer, quando se fala de diversidade e inclusão, por exemplo, e isso às vezes ocorre, é que grupos minoritários, que não tenham muito compromisso com uma responsabilidade de transparência, contaminem a forma de atuar da organização como um todo”, afirma o executivo da Salesforce Brasil. Para Costa, nos casos emblemáticos de escândalos recentes, dificilmente uma dessas organizações citadas estava 100% envolvida com o problema. “São exceções na verdade. O que temos de fazer é identificar esses grupos dentro da organização”, afirma. 

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Mulheres lideram, mas ainda é pouco

Apesar de terem participação crescente em cargos-chave, elas ainda encontram travas na carreira, principalmente com a maternidade

Luiza Pollo, Especial para o Estadão

26 de junho de 2021 | 23h00

Quando Leila Abraham Loria descobriu que estava grávida, há 36 anos, a reação de seu chefe passou longe da comemoração. “Parecia que eu estava contando que a mãe dele tinha morrido. Ele não conseguiu me dar parabéns, só perguntou: ‘E agora?’. Ele disse que nunca esperava que eu fosse ficar grávida”, lembra ela, que na época já era superintendente na área de vendas da empresa e estava casada havia sete anos. 

Hoje presidente do Conselho de Administração do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), Lelila vê um cenário um pouco diferente, mas com muitos desafios. “Eu percebo que o mercado foi mudando ao longo do tempo, mas ainda tem sido difícil. Mesmo em multinacionais, que você acha que são super estruturadas, super respeitosas”, disse ela durante o painel “Liderança Feminina e ESG”, no Summit ESG.

Cristina Andriotti, CEO da Ambipar, passou por uma situação próxima disso. “Na minha primeira gravidez, há 29 anos, eu trabalhava em um banco e realmente foi uma ‘barra’. Eu demorei para conseguir um cargo gerencial e, quando voltei da licença maternidade, minha vaga estava preenchida”, recorda.

Cristina só não fez parte das estatísticas levantadas pela FGV e conseguiu se reinserir no mercado de trabalho, destaca ela, por ter um companheiro que dividia a responsabilidade do cuidado com os filhos e com a casa. “Faz muita diferença ter ao seu lado alguém vibrante, que acredita no potencial da mulher.”

A maternidade não é a única – nem a primeira – barreira para as mulheres chegarem a cargos de liderança nas empresas. Apresentada no Summit Estadão, a pesquisa “Mulheres na Liderança”, realizada com uma base de dados que cobre 110 mil cargos e quase 400 empresas, mostra que apenas 14,7% dos cargos de liderança em empresas são ocupados por mulheres. “A baixa diversidade permeia as diferentes esferas de liderança”, destacou Solly Sayeg, index manager e head de ESG Data na Teva Índices. Houve um aumento do número de cadeiras ocupadas por mulheres em conselhos de administração nos últimos anos, mas ainda hoje quatro em cada dez conselhos não têm presença feminina. Por outro lado, o crescimento tem sido lento, porém constante.

Patrícia Coimbra, vice-presidente de Capital Humano, Administrativo, Sustentabilidade e Marketing da SulAmérica, lembra que a simples presença de diversidade – seja de gênero, idade, raça, ou outras – na empresa não é suficiente. É preciso inclusão. “Eu não me lembro quem disse esta frase, mas ‘Diversidade é chamar para a festa, é chamar para dançar’.” A empresa, que já tem mulheres ocupando mais da metade dos cargos de liderança e da equipe em geral, está buscando novas abordagens para lidar com a inclusão de forma mais afirmativa e proativa, não apenas orgânica, ressalta ela, para acelerar esse processo.

Uma das iniciativas é pensar em flexibilidade. A pandemia do novo coronavírus fez aumentar a carga de trabalho não remunerado das mulheres, que chegam a passar 31 horas semanais em tarefas de cuidados, segundo levantamento da Organização das Nações Unidas (ONU). Por outro lado, mostrou às empresas que é possível permitir mais tempo de trabalho remoto, facilitando a conciliação da maternidade com as funções do dia a dia.

Outra solução foi trazida por Camila Farani, sócia e presidente do Comitê de ESG do Banco Modalmais. Ela relata que, há alguns anos, chefiava uma equipe formada 95% por mulheres. “Sempre tinha alguém grávida”, conta. “Por isso, construímos uma creche para que as mães pudessem deixar seus filhos com tranquilidade a caminho do trabalho.”

Camila ressalta, no entanto, que essas soluções precisam vir de forma igualitária para homens e mulheres. Liberar os pais do trabalho para que levem os filhos ao médico, ou permitir um dia em home office a eles para cuidarem das crianças, precisa ser feito com a mesma naturalidade com que se faz em relação às mulheres, destaca.

Camila lembrou ainda que, além das questões relacionadas à licença maternidade, é comum que mulheres tenham de superar a chamada síndrome da impostora – quando não conseguem aceitar que são bem-sucedidas pelos seus méritos. Relações conflituosas com homens no trabalho e situações de constrangimento e assédio continuam ocorrendo. Nesses casos, diz Camila, é preciso que mulheres se apoiem e levem as queixas aos canais da empresa e aos superiores. “A mulher não pode deixar que ninguém a desqualifique ou diga que não é capaz.”

Rachel Maia, fundadora e CEO da RM Consulting, lembra que não se pode deixar vencer pelo cansaço. “São discussões em que nós vamos até ser repetitivas, nós que acreditamos nisso. Temos de usar grandes influenciadores dentro das empresas para que possamos colocar essas questões em pauta.”

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O poder da mentoria como rota para avançar nessa situação

Mais concorrido que vestibular, programa formador de conselheira tem inserção de mais de 60% das alunas

Luiza Pollo, Especial para o Estadão

26 de junho de 2021 | 23h00

A presença feminina nos conselhos de administração ainda deixa muito a desejar. Segundo levantamento da Teva Índices, elas representam apenas 14% dessas posições em 2021, e 39,7% das empresas listadas na Bolsa não têm nenhuma mulher no conselho. 

Apesar de desanimadores, esses números vêm melhorando ao longo dos anos, e a fundação Women Corporate Directors (WCD) está à frente de diversas iniciativas. Uma delas é o programa Diversidade em Conselho, em parceria com a B3, o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), a International Finance Corporation (IFC) e a Spencer Stuart.

Em 2020, o programa teve, em sua quinta edição, mais de 700 inscritas para 40 vagas. “É mais concorrido do que muito vestibular para entrar em universidade”, comemora Leila Abraham Loria, presidente do Conselho de Administração do IBGC e cochair da WCD.

São seis e oito sessões individuais de mentoria, além de palestras e encontros em grupo. A ideia é aproximar as mulheres de conselheiros e conselheiras de destaque, que as ajudem com troca de experiências, formação e networking, para que saiam mais preparadas para assumir posições em conselhos. Leila explica que há diversos mentores homens, exatamente com o objetivo de torná-los embaixadores da causa, conhecendo, contratando e indicando mulheres.

O programa acumula sucessos, e 60 a 70% das ex-participantes já fazem parte de algum conselho atualmente, afirma Leila, mas a participação de mulheres negras ainda estava aquém do esperado. Para melhorar essa situação, foi criado também o Conselheiras 101 em 2020, que consistiu em 15 encontros de 1h30 a 2 horas. “Se a síndrome da impostora já atinge as mulheres com tanta força, imagina então para as mulheres negras. Sentimos que elas nem participavam das reuniões da WCD porque lá a maioria já era conselheira”, lembra Leila. 

A ideia é contribuir tanto na formação profissional quanto na segurança e na autoestima das mulheres. No momento não há inscrições abertas para os programas, mas as interessadas podem acompanhar os sites e as redes sociais da WDC e do IBGC para mais informações.

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Consumidor mais jovem manda e já faz escolha 'social'

Millennial e Z são gerações mais exigentes e cobram das marcas a participação nas soluções dos problemas, o que mudará o mercado

Luiza Pollo, Especial para o Estadão

26 de junho de 2021 | 23h00

Não é exagero dizer que praticamente todos os consumidores têm alguma preocupação social com os produtos que consomem – ou pelos menos dizem ter. A pesquisa Edelman Trust Barometer, que entrevistou 8 mil pessoas em 8 países, mostra que 97% deles esperam que as marcas resolvam problemas sociais. E no Brasil não foi diferente. Pobreza (58%), questões trabalhistas (52%), mudança climática (51%), racismo estrutural (51%), bem-estar/otimismo (53%) e segurança (52%) são as questões mais apontadas pelos entrevistados no País. 

Pode até ser que os valores ainda não se convertam necessariamente em práticas de consumo para todos esses 97%, mas as empresas veem com clareza a preocupação ESG do seu público. “Preço sempre vai ser uma questão porque a gente vive em uma sociedade de bastante desigualdade de renda. Mas, para uma parte da população, essas outras questões passam a ter um peso tão ou ainda mais importante”, afirmou Andrea Salgueiro Cruz Lima, CEO da Whirlpool no Brasil, durante o painel “Consumidores estão preocupados com isso?” do Summit ESG 2021. 

Andrea destaca principalmente os mais novos, das gerações millennial (nascidos entre aproximadamente 1981 e 1996) e Z (entre 1996 e os anos 2010), para os quais esse é um fator mais decisivo na compra. “Entre o pessoal mais jovem, todo mundo tem essa consciência, seja da classe A, B, C ou D”, concorda Hans Christian Temp, membro do Conselho da Organização Cidades sem Fome, que viabiliza principalmente a criação de hortas urbanas em São Paulo.

A demanda crescente dos consumidores se reflete também nos investimentos. Uma pesquisa do UBS BB Global Banking, com mais de 5 mil investidores em cinco países, mostrou que 70% dos entrevistados gostariam que seus investimentos fossem alinhados com os próprios valores, relatou durante o debate Frederic de Mariz, head para o setor financeiro e ESG da instituição. Além disso, 40% disseram que já deixaram de comprar algum produto porque a marca ou a empresa não estava alinhada com sustentabilidade. “Fazer a coisa certa pela ética, filantropia, claro que essa parte é importante. Mas isso também é bom para os negócios”, disse. 

Cancelamento

Com os olhos dos consumidores voltados às boas práticas, as marcas começam a ser assombradas pelo fantasma do “cancelamento”. Um deslize nos princípios pode causar uma onda de rejeição amplificada pelo poder de viralização nas redes sociais. “Esse é o maior medo das marcas”, afirmou no evento Marcus Nakagawa, professor da ESPM e coordenador do Centro ESPM de Desenvolvimento Socioambiental. 

Fazer um belo storytelling para vender o produto maquiado de princípios éticos que não são postos em prática pode até colar, mas a história não se sustenta por muito tempo “Tem muita empresa aproveitando, tanto na parte operacional quanto no marketing, o tal do greenwashing, o diversity washing, pink money…”, citou Nakagawa. 

A lista de “jeitinhos” para enganar o consumidor engajado é longa; então como saber escolher? A chave está em saber o que pesquisar, em meio a tanta informação disponível na internet, para não cair em discursos vazios. Mariz, do UBS, recomenda que consumidores e investidores interessados em se engajar de verdade confiram os relatórios de sustentabilidade das empresas das quais costumam comprar. Parece complicado demais? 

Rastreio online

Um passo inicial, segundo Nakagawa, é rastrear a internet atrás de produtos e marcas que apresentem selos reconhecidos, como eureciclo ou ISO 14001, ou então analisar o que outros consumidores dizem em páginas como Proteste, Reclame Aqui e Conar. E vale também elogiar as empresas que colocam na prática aquilo que pregam, para ajudar outros consumidores nessa escolha.

Você sabia?

Pode-se dizer que se engana quem pensa que os produtos das hortas só entram nos cardápios elaborados de apartamentos de Pinheiros. As vendas de orgânicos em geral cresceram mais de 50% no varejo já no primeiro semestre de 2020, impulsionadas por um maior volume de compras para cozinhar em casa na pandemia, aponta a Associação de Promoção dos Orgânicos (Organis). 

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O orgânico que perde a pompa e ganha a vizinhança

Organização mostra como é possível fazer integração social de grupos vulneráveis com agricultura sustentável

Luiza Pollo, Especial para o Estadão

26 de junho de 2021 | 23h00

Hans Christian Temp, membro do Conselho da Organização Cidades sem Fome, não mede as palavras para ressaltar o papel dos compradores no negócio que coordena. “É um mercado que está se desenvolvendo por causa dos consumidores.”

A Cidades sem Fome nasceu em 2004 com o objetivo de propiciar integração social de grupos vulneráveis, com base na agricultura sustentável. A organização viabiliza a criação de espaços de horticultura na cidade para empregar trabalhadores que plantam e colhem alimentos orgânicos principalmente em bairros da zona leste de São Paulo. São hortas urbanas comunitárias e escolares, estufas agrícolas e expansão da agricultura familiar.

O E do ESG aparece de forma mais óbvia, com a transformação de espaços urbanos em verdes, com a redução do uso de agrotóxicos e um olhar mais cuidadoso com a natureza. Mas todo o restante do processo também é pensado para ser sustentável – desde a produção até o pagamento justo de todos os envolvidos no processo, dos funcionários aos entregadores externos. 

Quem trabalha nas hortas, por exemplo, ganha aproximadamente 2,5 salários mínimos (R$2.800), bem acima da renda média nacional, que no primeiro trimestre de 2021 teve queda e ficou em R$ 995, de acordo com pesquisa do FGV Social. O G, de governança, se reflete na prestação de contas minuciosa que a empresa faz a seus parceiros – todos privados, incluindo alguns até de outros países.

Para Temp, é essencial que o orgânico não vire um produto de luxo, e a maioria dos alimentos que crescem nas hortas urbanas do projeto em São Paulo é vendida ali mesmo, na vizinhança. “Percebemos que nas periferias as pessoas têm muito interesse, porque os alimentos vendidos nos supermercados ali não são classe A, como nas regiões mais ricas”, afirma ele. “O consumidor tem percebido que pode comprar orgânicos a preço de feira.”

Até a domicílio

Isso não quer dizer que a produção não chegue mais longe. Mercados em outras regiões de São Paulo já vendem os produtos da Cidades sem Fome, e é possível adquiri-los também por delivery. Hans percebe que o interesse vem principalmente dos consumidores de menos idade – em todas as classes sociais. “Os jovens têm total consciência de que querem que seu alimento seja de fontes socialmente sustentáveis.”

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A moda, de vilã para heroína da causa ESG

Marcas podem assumir papel de liderança na conscientização do consumidor

Luiza Pollo, Especial para o Estaddão

26 de junho de 2021 | 23h00

A indústria da moda vive uma contradição: ao mesmo tempo em que é a segunda mais poluente, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU) – atrás apenas do óleo e do gás –, também tem um dos papéis mais importantes para convencer os consumidores de que as práticas ESG importam. Definir tendências é o motor desse mercado, e, portanto, é uma das melhores portas de entrada para tornar o consumo consciente mais do que uma tendência. 

“A moda tem dois vetores de protagonismo na mudança para o desenvolvimento sustentável: ela evolui nas próprias práticas, naquilo que fabrica, mas também é protagonista na transformação do comportamento da sociedade. Tanto quanto o cinema, a literatura e as artes, a moda é uma das protagonistas da cultura”, disse Oskar Metsavaht, fundador da Osklen e embaixador da Unesco para Sustentabilidade, durante o painel “As Boas Práticas para a Moda Sustentável” do Summit ESG 2021 Estadão.

Da parte da indústria, os esforços já são visíveis, ainda que o impacto não seja o suficiente. Mauro Mariz, diretor de Gente, Gestão e Sustentabilidade da Riachuelo, destacou a importância das grandes empresas liderarem esses esforços para amplificar o impacto em escala. A própria Riachuelo, por exemplo, já produz calças jeans que gastam até 90% menos água e 85% menos produtos químicos. Os números variam, mas, para se ter ideia, uma única peça em produção normal chega a consumir 8 mil litros de água, conforme o cálculo da ONU. Isso é o quanto uma pessoa costuma beber ao longo de sete anos.

Fica claro que pensar em sustentabilidade em uma indústria que produz sozinha 10% das emissões globais de carbono e contribui com 20% das águas residuais (ou seja, com impurezas) é urgente e exige esforços em toda a cadeia de produção, ressaltaram os participantes do painel. Mas o E de ESG não pode ser o único foco.

“A gente sabe que não se trata apenas do ambiental”, observou Felipe Guimarães Fleury, docente dos cursos de Negócios da Moda e Design de Moda da Universidade Anhembi Morumbi, sobre a inserção do ESG na área. “Estamos falando de conter danos à natureza, mas também de uma melhoria da sociedade como um todo. Dar oportunidades para as minorias, realizar ações para promover diversidade, e até mesmo implementar medidas para combater fraude e corrupção dentro das empresas.”

Mariz, da Riachuelo, conta que uma das preocupações da empresa tem sido pensar em toda a cadeia produtiva sob olhar de boas práticas: da contratação de trabalhadores no Nordeste que nunca antes tiveram carteira assinada até a eliminação correta de produtos químicos na hora de tingir a peça. E quanto custa tudo isso? Metsavaht, que fundou a Osklen sob princípios de sustentabilidade, afirma que o custo extra dessas práticas vem diminuindo para o consumidor final, à medida que as novas tecnologias de produção ganham escala. 

Educar

No entanto, ele argumenta que é papel das próprias marcas educar a sociedade sobre o valor de uma peça produzida com consciência ambiental e social. “A gente paga mais pelo status de luxo de uma marca, mas tem de entrar no mindset o critério de escolha de um status mais contemporâneo: escolher produtos de origem sustentável”, disse ele, que cravou o conceito de novo luxo nos anos 2000. “Projetos de valores humanos e ambientais importantes são o verdadeiro luxo do século 21”, resume.

Os participantes do painel defendem que esse custo seja dividido também com o poder público, em forma de benefícios fiscais a empresas que se comprometem com uma cadeia sustentável. Sem incentivos, os pequenos empreendedores são os que mais sofrem com o impacto dos custos de transformação, observou a mediadora do painel, empresária, fundadora da Fhits e colunista do Estadão Alice Ferraz.

Em meio às grandes empresas, com capital de investidores que já valorizam o ESG e com maiores possibilidades de adaptação, os pequenos veem dificuldade em se sustentar nesse mercado, mesmo que consigam encontrar soluções inovadoras. Para Mariz, a indústria da moda só vai realmente mudar se começar a olhar para esses pequenos esforços e valorizá-los. “Começar a criar condições para parcerias é fundamental. Isso está no nosso planejamento estratégico, olhar especificamente essas inovações, em qualquer elo da cadeia de produção”, diz ele. “Acho que a gente está indo para um momento em que sai da competição e vai para a cooperação.”

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Consumir menos e reaproveitar mais são o paradigma

Economia circular e compartilhamento de roupas surgem como aliados na redução do impacto da indústria

Luiza Pollo, Especial para o Estadão

26 de junho de 2021 | 23h00

“O mais importante da moda é diminuir o consumo.” A frase pode parecer ter saído diretamente da boca de um ambientalista, mas quem disse isso foi Oskar Metsavaht, fundador da Osklen. Preocupado com critérios ambientais e sociais desde a concepção da marca, o empresário é também embaixador da Unesco para Sustentabilidade e diz não acreditar em uma democratização da moda que preze pelo consumo igual de todos. Não se esse consumo for exagerado. “Para mim, democratização nessa área significa democratizar o conhecimento da moda, entender o valor das peças, levar a informação. Não temos de democratizar o consumo para que ele seja ainda maior”, afirma.

Outro desafio, segundo os debatedores, é garantir o upcycling na moda, ou seja, o reaproveitamento de materiais. Felipe Guimarães Fleury, docente de Negócios da Moda e Design de Moda da Universidade Anhembi Morumbi, diz que o processo depende da educação dos consumidores e Metsavaht destacou que a logística reversa, para o upcycling, é cara. 

Mesmo para quem quer usar peças do momento, que na próxima estação já podem estar ultrapassadas, também há saídas mais sustentáveis. Uma delas são as empresas que alugam roupas. Existem lojas que oferecem uma espécie de “guarda-roupas compartilhado” aos clientes, que pagam planos mensais e podem escolher um número determinado de peças para emprestar por esse período. A Roupateca, de São Paulo, é um exemplo. “Pensamos que poderíamos criar um espaço que estimulasse o entendimento do consumo que passa longe da posse, perto do acesso”, escrevem as fundadoras em carta aberta às clientes.

A tendência de compartilhar bens e não mais comprá-los já se reflete em diversos mercados – de carros a casas de temporada e mesmo com o streaming de filmes –, e vem como uma resposta mais responsável ao consumo desenfreado. “A sensação de posse sempre foi muito importante, mas isso começa a mudar, com um modelo de negócio em que oferecer acesso funciona”, observou Guilherme Brammer, CEO e fundador da Boomera, no painel complementar Economia Circular.

Mesmo compartilhando, em algum momento, os produtos chegam ao fim da vida útil. E é aí que entra mais uma iniciativa para tornar o mercado mais sustentável: em vez de descartar, reaproveitar os resíduos. É a chamada economia circular. “O sucesso de uma marca sempre foi visto como a venda do próximo produto, a gente criou essa ideia de linearidade”, observa Brammer. Com a Boomera, o objetivo é ajudar as marcas a se inserirem no processo da economia circular – do engajamento à logística reversa, passando por etapas de design e pesquisa.

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