Alex Silva/Estadão
Alex Silva/Estadão

‘Terra da garoa’ ou cidade do temporal? Estudo mostra novo padrão de chuvas

Mudanças climáticas já tornaram precipitações mais frequentes e fortes em São Paulo

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

15 Agosto 2017 | 03h00

Depois de analisar dados meteorológicos do Sudeste dos últimos 74 anos, um grupo de cientistas concluiu que as mudanças climáticas já estão alterando o padrão de chuvas na região, com aumento da precipitação sobre o território paulista e redução sobre o Rio e o Espírito Santo. Graças à intensa urbanização, cidades como São Paulo sentem efeito mais intenso.

O novo estudo revela que nesse período, no Estado de São Paulo, houve aumento médio tanto da frequência de dias chuvosos como do volume das chuvas extremas. Ao mesmo tempo, ficaram mais raros os dias com chuva amena. A tendência deve manter-se nos próximos anos, segundo os autores.

A pesquisa apontou também que no Rio e no Espírito Santo houve uma redução na frequência dos dias chuvosos e no volume da precipitação, mas aconteceu uma concentração de fortes tempestades em um número menor de dias. O estudo teve seus resultados publicados ontem na revista científica International Journal of Climatology.

Em vários estudos anteriores, climatologistas já previam que um dos principais efeitos das mudanças climáticas em curso será a exacerbação dos eventos extremos, incluindo o aumento da frequência e da intensidade de tempestades e secas severas. A nova pesquisa teve o objetivo de verificar se essas previsões estão virando realidade, segundo uma das autoras do artigo, Maria Assunção Faus da Silva Dias, professora aposentada do Instituto de Astronomia Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP).

Os pesquisadores verificaram a quantidade de dias sem chuva, com de chuva fraca (com menos de 5 milímetros) ou extrema. Os dados foram extraídos de 36 estações meteorológicas no Sudeste. “Percebendo os padrões do regime de chuvas nas últimas décadas, podemos projetar as tendências. Constatamos que onde chove muito vai chover mais e onde há seca ficará mais seco”, disse.

Ilhas de calor. Segundo a pesquisadora, em regiões altamente urbanizadas, como a capital paulista, as chuvas são ainda mais exacerbadas pelas ilhas de calor. “Nos últimos 70 anos, a temperatura na região urbana de São Paulo aumentou cerca de 4°C - elevação equivalente à que prevemos para os próximos cem anos em escala mais ampla. Além de ter causado o fim da garoa, esse fenômeno aumenta as chuvas extremas. O ar das regiões mais frias no entorno da cidade converge para essa bolha de calor, provocando intensas tempestades.”

Segundo Maria Assunção, outro fator que pode ajudar a explicar a mudança dos padrões de chuva é uma alteração na chamada Zona de Convergência do Atlântico Sul - uma faixa de nuvens de chuva que costuma se estender desde a Amazônia até o Sudeste, chegando ao oceano. “Uma das hipóteses é que, com as mudanças climáticas, essa zona de chuvas se deslocou ligeiramente para o sul.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.