Temporada de caça fracassa, mas degelo ameaça filhotes de focas brancas

Temperatura mais alta que a normal no inverno provocou derretimento das placas de gelo onde focas dão cria no Canadá

Ian Austen , New York Times

02 Abril 2010 | 19h20

A caçada anual às focas brancas na costa leste do Canadá será bem menos concorrida este ano. Mas isso não significa que a vida será fácil para esses animais, cujas peles já foram disputadas a peso de ouro por fabricantes de casacos.

O inverno ameno no normalmente gélido Golfo de Saint Lawrence é um dos fatores que desencorajaram caçadores a sair em busca dos bebês foca – eles costumam espancar os bichos até a morte com bastões de ferro, num espetáculo sinistro cujas imagens são usadas por ativistas favoráveis à proibição da caça. O problema é que o inverno atípico também afeta os bebês foca: o gelo marinho é o hábitat por excelência das focas brancas e é lá que elas costumam dar cria, em parte para proteger os filhotes de predadores em terra.

Com o aumento da temperatura na ilha de Terra Nova e noutras comunidades ao redor do golfo, centenas de focas brancas tiveram de percorrer até 160 quilômetros para encontrar blocos de gelo onde pudessem dar cria, já no fim do inverno. Nesta primavera, moradores da região começaram a avistar nas últimas semanas filhotes boiando em pequenos blocos em processo de derretimento.

“Só se fala disto na ilha”, diz Jeannie Billard, que monitora as focas com binóculos da sua pousada em Port au Choix, Terra Nova. “É algo muito inusitado. Você precisa ter muita sorte para ver algo assim uma ou duas vezes na vida.”

Com pouco gelo e a população de focas brancas muito espalhada pelo golfo, a maioria dos caçadores foi persuadida a ficar em casa. “Não vimos focas na costa por aqui. Acho que elas foram para o norte, a quase 500 quilômetros de distância. É muito longe”, diz Robert Courtney, presidente da associação de pescadores da região de Cabo Brenton, que fica na província de Nova Scotia, mais ao sul do golfo. Segundo ele, os 30 a 40 barcos do Cabo Breton ficarão fora da caçada às focas brancas este ano.

A situação é parecida nas vizinhas Ilhas Magdalen of Quebec. Até agora, um único barco, cuja tripulação pretende fornecer carne de foca a restaurantes, saiu em busca dos animais.

Apesar de terem ficado livres do caçadores, os filhotes de focas brancas estão morrendo. Muitos se afogaram ao nascer, depois de cair de fatias minúsculas de gelo. Os que resistiram foram esmagados por placas de gelo em movimento ou ficaram separados das mães. Outros bebês, que conseguiram nascer em praias, foram vítimas de coiotes ou mesmo águias. Com o degelo, os sobreviventes também ficarão sem paradas para descanso quando seguirem para o mar, o que pode ser fatal.

Dados do governo canadense indicam que o Golfo de Saint Lawrence tem uma população de 6,9 milhões de focas brancas. Em anos normais, nascem cerca de 280 mil filhotes.

“A mortalidade vai ser maior que o normal”, diz Garry Stenson, biólogo do Departamento de Pesca e Oceanos, que tem como base Saint John, na Terra Nova. Colega de Stenson, Mike Hammill, de Mont Joli, em Quebec, disse que a última vez em que os filhotes enfrentaram condições tão adversas foi em 1981. “Naquele ano, a impressão era de que todos os bebês tinham morrido.”

Embora cientistas relutem em atribuir eventos isolados ao processo de mudança climática, muitos moradores do golfo creditam a falta de gelo na primavera ao aquecimento global. O  órgão de previsões meteorológicas do governo canadense informou que até meados de março a camada de gelo tinha atingido o nível mais baixo desde que os registros começaram a ser feitos, há 40 anos.

A expectativa de aumento na mortalidade dos bebês foca levou grupos defensores dos direitos dos animais a aumentarem, sem sucesso, a pressão sobre o governo pelo cancelamento da temporada de caça. Mas a crise econômica e o veto do Parlamento Europeu à venda de produtos derivados da caça comercial de focas têm derrubado o preço das peles. Antes vendidas por mais de US$ 100 a unidade, elas agora saem por US$ 8 a US$ 15 cada uma.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.