Johan Ordonez / AFP
Johan Ordonez / AFP

Temperatura na Antártida passa dos 20°C pela primeira vez, segundo cientistas brasileiros

A medição foi feita na Ilha Marambio, na Península Antártica, e atingiu o recorde em uma semana anormalmente quente; temperatura anterior mais alta tinha sido registrada no dia 7: 18,3ºC

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

13 de fevereiro de 2020 | 19h16
Atualizado 14 de fevereiro de 2020 | 11h13

SÃO PAULO - A Antártida vem apresentando dias de calor anormal neste verão e atingiu, no último domingo, 9, a temperatura mais alta do registro histórico, 20,75 °C. A medição foi feita às 13h na Ilha Marambio, na Península Antártica, por pesquisadores brasileiros.

O recorde anterior havia acabado de ser batido, três dias antes, quando pesquisadores argentinos detectaram a temperatura de 18,3°C na base Esperanza, também na Península Antártica. Antes disso, o dia mais quente tinha sido 24 de março de 2015, com 17,5°C, de acordo o Serviço Nacional Meteorológico da Argentina.

Para toda a região Antártica, que inclui outras ilhas sub-antárticas fora da massa continental, a temperatura mais alta foi de 19,8°C medida na Ilha Signy em janeiro de 1982.

“A semana entre 6 e 11 de fevereiro foi historicamente anormal. Todos os dias, na metade do dia, tivemos temperaturas acima de 16°C. E no dia 9 teve esse pico”, explicou ao Estado o pesquisador da Universidade Federal de Viçosa (UFV) Carlos Schaeffer, coordenador do Terrantar.

“Nesses 17 anos que venho para cá, nunca tinha pego temperaturas tão elevadas e sim, usei short e camiseta no dia 9. A península Keller, onde se encontra a estação brasileira, está com um degelo nunca visto antes”, relatou ao Estado o pesquisador Márcio Francelino, também da UFV, que está neste momennto na Antártida.

O projeto, ligado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) da Criosfera, conta com 26 sítios de monitoramento de solos congelado (permafrost) e da camada ativa (parte do solo que congela e descongela) espalhados pela região antártica, em um raio de 1.500 km. A base de Marambio fica relativamente próxima da Esperanza e da Estação Antártica Comandante Ferraz, do Brasil, recém-inaugurada.

“No dia 6 de fevereiro, quando a Esperanza  registrou 18,3°C, um dos nossos sítios, localizado na Ilha Seymour (Marambio), ao leste da Península Antártica, e distante 90 km ao sudeste de Esperanza, registrou no mesmo dia a temperatura de 16,43°C. Já tinha ficado espantado com esses valores. No dia 9, a estação Comandante Ferraz registrou a temperatura incrível de 19,38°C e quando verifiquei a do nosso sítio em Seymour, nesse mesmo dia a temperatura chegou a 20,75°C, no horário das 13 horas”, conta Francelino.

Apesar de ainda ser cedo para associar essa anomalia às mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global, o registro chama a atenção dentro de um histórico recente de temperaturas mais altas.

“O que temos é um registro meteorológico, que ocorre num espaço de curta duração, mas eles podem ser parte de um sinal de uma tendência que vai se propagar no longo prazo. A mudança climática implica em uma evolução no tempo. Mas é um marco. Pela primeira vez se registram mais de 20°C. Pode ser sinal de alguma perturbação no sistema que vai levar a um novo patamar que a gente não sabe ainda qual vai ser”, afirma Schaeffer.

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) havia informado na semana passada, quando foram anunciados os dados da Esperanza, que um comitê vai verificar a medição para estabelecer se de fato trata-se de um recorde. Em geral, somente as estações com longo período de medição e que fazem parte da rede da OMM entram no registro oficial. A base brasileira é mais recente, tem somente dez anos de série histórica, então poderá não ter o dado registrado oficialmente. 

“Esse nosso sistema de monitoramento é voltado para estudar o permafrost, então inserimos sensores de temperatura e umidade do solo em diferentes profundidade e sempre adicionamos um sensor de temperatura do ar a cerca de 1,5 m de altura. Esses sistemas, mesmo utilizando equipamento de ponta, não são registrados na OMM e, por isso, não podem ser reconhecidos como dados oficiais”, explica Francelino.

“Mas o mero registro desses valores é algo que deve ser mais bem estudado. Houve picos curtos ao longo de duas semanas. A temperatura média nessa região é de 0,5°C. Em nossos sítios, durante um período de 13 anos, a temperatura do permafrost tem variado muito pouco, permanecendo estável na maioria deles e em alguns mostrando uma ligeira tendência de aquecimento. Apenas um mostrou resfriamento. Mas nossos dados ainda têm um curto intervalo para esse tipo de estudo”, complementa.

Aquecimento global

Segundo a OMM, a Península Antártica – ponta noroeste do continente mais próxima da América do Sul – está entre as regiões do planeta que estão se aquecendo mais rapidamente. Foram 3°C de aumento de temperatura nos últimos 50 anos.  Na região, a quantidade de gelo perdida anualmente pela camada de gelo cresceu na ordem de seis vezes entre 1979 e 2017. Cerca de 87% das geleiras (corredeiras de gelo que deslizam do interior do continente para o mar) ao longo da costa oeste da península recuaram nos últimos 50 anos. Em algumas deles, esse recuo ocorreu de modo acelerado nos últimos 12 anos.

Imagens de satélite europeu mostraram rachaduras crescendo rapidamente nos últimos dias na geleira da Ilha Pine. Segundo a OMM, esta é uma das principais artérias da camada de gelo da Antártida Ocidental. Duas grandes fendas foram identificadas pela primeira vez no início do ano passado e cresceram muito rapidamente para aproximadamente 20 km de comprimento.

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