Thomas Peter/Reuters
Thomas Peter/Reuters

Temperatura média mundial aumenta em 1ºC pela primeira vez e gases batem recorde

Para a ONU, tendência deixará o mundo 'mais perigoso e mais inóspito para as futuras gerações'; dados foram publicados poucas semanas antes da Conferência do Clima da ONU, em Paris

Jamil Chade, Correspondente de O Estado de S. Paulo

09 Novembro 2015 | 08h13

Atualizada às 12h56

GENEBRA - Apesar de todo o discurso de líderes internacionais sobre as ações que estão adotando para reduzir as emissões de gases de efeito estufa, dados apontam que, pela primeira vez, o mundo pode registrar em 2015 uma elevação média de 1°C em comparação à Era Pré-Industrial. Dados também revelam que, em 2014, a concentração de CO2 e outros gases de efeito estufa bateu um novo recorde e "continua em seu aumento sem freio, alimentando as mudanças climáticas". Para a ONU, essa tendência vai deixar o mundo "mais perigoso e mais inóspito para as futuras gerações".

Os dados foram publicados poucas semanas antes da Conferência do Clima da ONU, em Paris, e trazem o alerta de que o que acontece no planeta obedece a regras da natureza e não podem ser renegociadas. "O CO2 permanece na atmosfera por centenas de anos e, nos oceanos, por um período ainda maior", aponta a ONU. "Emissões do passado, presente e futuro terão um impacto cumulativo tanto no aquecimento global como nos oceanos. As leis da física não são negociáveis", alertou a entidade.

Segundo o Escritório de Meteorologia do Reino Unido (conhecido como Met Office), o mundo deve terminar o ano com uma temperatura média 1°C acima da média entre 1850 e 1900 e será o mais quente da história. Entre janeiro e setembro deste ano, a taxa já ficou 1,02ºC acima nos anos pré-industriais. Se a tendência for mantida, o ano vai romper a barreira, pela primeira vez.

A elevação de 1ºC seria o meio do caminho até a marca de 2ºC e estabelecido pelos cientistas como o ponto que o planeta não poderia ultrapassar, sob o risco de viver importantes transformações. Tanto a concentração de gases como o novo dado sobre temperaturas deve aumentar a pressão para uma solução entre negociadores em Paris. 

"Esta é a primeira vez na história que atingimos essa marca de 1ºC e fica claro que é a atividade humana que está levando o clima a um território desconhecido", disse Stephen Belcher, do Met Office. Além das emissões, o que deve contribuir para que 2015 atinja a nova marca é a forte influência do El Nino. 

O que assusta os cientistas é que o aquecimento tem se acelerado. Em 2013, a ONU indicou que as temperaturas aumentaram em 0,85 graus entre 1880 e 2012. Mas 2014 registrou as temperaturas mais elevadas da história e 2015 pode superar a marca, o que ainda se repetiria em 2016. 

Nas negociações diplomáticas, os governos levaram quase 20 anos para usar a meta de 2ºC como parâmetro, apesar de ela ser conhecida desde a década de 70. Em 1992, no Rio de Janeiro, a proposta de colocar a marca como um teto não foi aprovada e ela somente seria reconhecida em 2010, em Cancun. 

Estufa. Parte significativa do aquecimento, segundo os cientistas, estaria ocorrendo justamente pelo impacto dos gases de efeito estufa e as constatações apontam para um cenário alarmante. 

Segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM), houve ainda um incremento de 36% do efeito de aquecimento do clima entre 1990 e 2014. Isso foi causado pela longa duração e acumulação de gases como o CO2, o metano (CH4) e o N2O gerados por atividades industriais, agricultura e residências.

De acordo com os dados, a concentração atmosférica de CO2 atingiu 397,7 partes por milhão (ppm) em 2014. No Hemisfério Norte, ela superou a marca simbólica de 400 ppm em abril de 2014. Uma vez mais, na primavera de 2015, a concentração global de CO2 superou a marca de 400 ppm. Para 2016, a projeção é de que essa concentração aumentará ainda mais. 

O CO2 é responsável por 83% do aumento do efeito estufa nos últimos dez anos. Em comparação ao período pré-industrial, ele sofreu um aumento de 143%. 

"Todos os anos alertamos que a concentração de gases bate recorde", apontou o secretário-geral da OMM, Michel Jarraud. "E todos os anos dizemos que o tempo para reverter essa tendência está acabando", disse. "Precisamos agir urgentemente se quisermos que as temperaturas do planeta estejam em níveis que possamos administrá-las", insistiu. 

Para Jarraud, o mundo em breve estará vivendo a realidade de uma concentração de CO2 acima de 400ppm. "Não podemos ver os gases. Eles são uma ameaça invisível, mas muito real", disse. "Isso significa temperaturas mais elevados, mais climas extremos, como ondas de valor, inundações, aumento dos níveis do mar", alertou. "Isso está ocorrendo agora e estamos entrando em território desconhecido em uma velocidade assustadora", disse.

No caso do metano, gerado inclusive pela agricultura, a alta é de 254% em comparação aos níveis pré-industriais e, em 2014,também bateu um novo recorde com 1833 partes por bilhão. Já a concentração de N2O está 121% acima do ano de 1880. 

Vapor. Um dos alertas, porém, se refere à combinação cada vez mais perigosa entre o CO2 e o vapor de água. "O ar mais quente gera uma maior umidade e, portanto, aumenta as temperaturas das superfícies causadas pelo CO2 que, por sua vez, gera maior elevação dos níveis da vaporização das águas e, portanto, aumenta o efeito estufa", indicou a entidade da ONU.

Num cenário em que a concentração de CO2 fosse duplicada em comparação à Era Pré-Industrial, o vapor de água poderia gerar um aumento do aquecimento atmosférico três vezes maior que os demais gases. "O excesso de energia preso no CO2 e outros gases está aquecendo a superfície do planeta, o que pode levar a mais vapor de água, que por sua vez, poderia gerar mais calor", alertou Jarraud. 

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