Aqualuz/SDW
Aqualuz/SDW

Limpeza por radiação solar e filtragem rápida: técnicas simples levam água tratada a áreas pobres

Tecnologia da Aqualuz, já usada em todos os Estados do Nordeste, purifica água da chuva com o uso da luz do sol; startup PWTech facilita o acesso a moradores da Ilha do Bororé, na capital paulista

Eduardo Geraque, especial para o Estadão

09 de maio de 2022 | 10h00

Em São Macário, assentamento no interior de Alagoas, seu José, avô de duas meninas de 6 e 8 anos, se emocionou no início de 2021, na primeira vez em que viu a funcionar tecnologia Aqualuz. “A água tratada levou um homem ao chão para se ajoelhar, agradecer e chorar”, conta Anna Luisa Beserra, jovem baiana premiada na Organização das Nações Unidas (ONU) por causa do seu invento. Hoje a casa de Seu José é um exemplo de como tecnologias simples, que transformam a água imprópria em potável, podem ajudar áreas distantes e vulneráveis. 

Seu José vive em uma casa sem banheiro, nem água tratada ou encanada, nem reservatório.  O trabalho da roça e todos os afazeres domésticos são feitos com água que precisa ser buscada a uma hora de distância. São quatro viagens por dia. “As meninas foram abandonadas pela mãe, a caçula ainda tinha meses de vida. E ele as recebeu como filhas”, conta Anna Luisa.

Desde os 15 anos, até o prêmio dado pela ONU em Nova York, em 2019, quando tinha 21, a biotecnóloga investiu bastante tempo em laboratórios de química até o desenvolver o Aqualuz. O dispositivo faz a desinfecção de água da chuva captada em cisternas pelo semiárido por meio da radiação solar, outra matéria-prima abundante na região. A tecnologia não precisa de manutenção externa ou energia elétrica e pode durar 20 anos apenas com limpeza de água e sabão. 

“Nosso objetivo é levar saneamento básico e água potável a quem mais precisa”, afirma Anna Luisa, diretora executiva da startup SDW. Atualmente, são mais de 14 mil pessoas beneficiadas em 15 Estados, principalmente no Nordeste, onde todos os Estados foram contemplados com a iniciativa.

“Como não pensei nisso antes?”, costuma ouvir o engenheiro químico Fernando Silva, CEO da startup PWTech, quando apresenta a sua ideia. Na verdade, é um equipamento bastante simples, de apenas 12 quilos, que purifica a água doce da chuva, de rios e de represas. A capacidade de filtragem da máquina, que tem 80cm x 40cm x 60cm, é de 5 mil litros por dia. 

(O sistema) É um conjunto de membranas de ultrafiltração que, inclusive, pode passar por uma manutenção que não demora mais do que dez minutos”, explica Silva, que destaca o fato de 35 milhões de pessoas não terem acesso à água potável no Brasil.. A tecnologia, que demorou três anos para ser desenvolvida, contou com a colaboração de pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e da Universidade de São Paulo (USP). 

A 30 quilômetros do centro de São Paulo, ainda nos limites do município, um dos equipamentos desenvolvidos pela startup paulista está em operação na Ilha do Bororé – na verdade, tecnicamente, ela é uma península. Apesar de estar quase toda cercada pelas águas da Represa Billings, na zona sul, os milhares de habitantes da região vivem em situação precária em termos de saneamento, por causa do convívio estreito entre os poços artesianos e as fossas.

“Na ilha, em razão da falta de infraestrutura na comunidade, são comuns idas frequentes a unidades de saúde com sintomas de quadros virais, como diarreia, enjoo, febre, vômito e calafrios”, explica Silva. O projeto da instalação da máquina de filtragem de água ocorreu por meio de um crowdfunding (financiamento coletivo) e em parceria com a Amib, associação local de moradores.

São mais de cem equipamentos já produzidos, que estão em operação, principalmente atrelados a programas sociais de empresas, também em regiões periféricas do Pará e do Maranhão. “Por meio de programas do governo de cooperação internacional, nossos equipamentos também foram para o Haiti, depois do terremoto trágico que ocorreu lá e, mais recentemente, para a Ucrânia”, afirma Silva.

A aposta é que as ideias inovadoras possam ser cada vez mais replicadas e copiadas. No caso da SDW, o plano de negócios compreende a venda de projetos de responsabilidade social aos interessados, além de outros quatro tipos de tecnologias, também voltadas para a disponibilidade hídrica. 

Em relação ao Aqualuz, explica Anna Luisa, todos os projetos feitos até hoje estão atrelados ao setor privado. “Não conseguimos despertar o real interesse do governo." E os planos, no curto e médio prazo, continuam. A ideia é abrir um instituto ainda este ano e, até 2024, internacionalizar a presença das tecnologias de acesso à água. 

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