Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Samuel Antenor, especial para o Estado

23 Outubro 2018 | 02h00

SÃO PAULO - A sustentabilidade vem ganhando cada vez mais espaço na agenda das empresas, refletindo a tendência de aumento no consumo consciente e das discussões ambientais pela sociedade. Mas, principalmente, porque se tornou uma vantagem competitiva e influencia na lucratividade. Não faz mais sentido voltar atrás nesse movimento, independentemente da política vigente. Esta foi a principal mensagem passada pelos participantes do Fórum Sustentabilidade, promovido pelo Estado e patrocinado pela Ambev na última quarta-feira.

No painel “Melhores Práticas para os Desafios Socioambientais”, Marina Grossi, presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), apontou que a discussão acontece num momento oportuno. Para ela, o Acordo de Paris - tratado assinado por 195 países para conter o aquecimento do planeta - e os objetivos de desenvolvimento sustentável, ambos estabelecidos em 2015, fizeram com que a sociedade passasse da sensibilização para a ação. 

“Muitas empresas buscam as melhores práticas, compartilham experiências e, em seu portfólio, a área de sustentabilidade cresce mais do que as áreas tradicionais”, observou. Para ela, o Brasil tem vantagens competitivas, decorrentes dos grandes ativos da biodiversidade. 

“O desenvolvimento sustentável entrou definitivamente na conta da competitividade internacional. O setor privado se organizou e se comprometeu com a sustentabilidade, mas, para ampliar sua participação, é preciso colocar os competidores do mesmo lado”, disse.

Ela ressaltou que a competitividade se impõe quando se extrapolam as fronteiras das empresas, da comunidade e do governo, e que o Brasil, signatário do Acordo de Paris, pode ter vantagem ainda maior na nova geopolítica mundial. “Quando os Estados Unidos disseram que sairiam do acordo, suas empresas se manifestaram de imediato, deixando claro que para elas era mais interessante cumprir o previsto no acordo. Ou seja, sustentabilidade significa também competitividade e lucro.”

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A sustentabilidade precisa ocorrer em escala, envolvendo mudança de tecnologias e posturas. Competidores precisam estar juntos.
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Marina Grossi, presidente do Cebds

A opinião é compartilhada pelo diretor do Pacto Global para Sustentabilidade da ONU, Carlo Pereira: “As mudanças climáticas estão atreladas a questões energéticas, hídricas e sociais. Isso diz respeito a países, mas também a empresas. A agenda de desenvolvimento sustentável é a principal ‘lista de tarefas’ da humanidade, com desafios integrados, interligados e indivisíveis”. 

Para ele, não se pode pensar a sustentabilidade de maneira isolada nem deixar pequenas empresas alheias. “Ao contrário do que acontece no setor público, especificamente com governos que tenham restrições ao multilateralismo, o setor privado é interligado globalmente. Por isso, as empresas entendem que ser sustentável é uma vantagem competitiva”.

Embora o Brasil esteja à frente em termos de governança no setor privado, o número de empresas sustentáveis ainda é pequeno, ponderou Pereira. “A sustentabilidade na cadeia produtiva deve integrar as grandes, mas também as pequenas e médias empresas. Temos desafios transponíveis, desde que mais companhias entendam que isso é um diferencial de mercado.”

Rodrigo Figueiredo, vice-presidente de Sustentabilidade e Suprimentos da Ambev, defendeu que é preciso avançar. “Devemos partir da conscientização para as ações, em parceria entre empresas, governos e meios de comunicação, para garantir relevância ao tema.”

Mercado

Para os especialistas, mesmo num eventual descumprimento pelo Brasil do Acordo de Paris, tema aventado na campanha eleitoral pelo candidato Jair Bolsonaro (PSL), as empresas já entenderam que aquelas que cumprirem metas de sustentabilidade terão melhores condições de competir no mercado. “Qualquer país que for na contramão do Acordo de Paris vai perder competitividade”, disse Figueiredo. Para ele, o desafio agora é tornar a sustentabilidade algo grandioso, pois seu impacto acontece em toda a cadeia. “Se uma grande empresa consegue ser exemplo, seus fornecedores vão responder a isso, mudando seu foco para negócios sustentáveis.” 

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Se uma empresa consegue ser exemplo de sustentabilidade, seus fornecedores vão responder a isso, mudando seu foco para negócios sustentáveis.
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Rodrigo Figueiredo, vice-presidente de Sustentabilidade da Ambev

Poder público

Gil Scatena, coordenador de Planejamento Ambiental da Secretaria do Meio Ambiente de São Paulo, defendeu que é preciso que a sustentabilidade e as questões ambientais integrem o setor público como ocorreu com o privado, que se fortaleceu com base no conhecimento acumulado nos últimos anos e nas responsabilidades sociais assumidas. 

“As políticas devem ser mais integradoras, do ponto de vista do poder público, para que a sustentabilidade gere negócios sociais e investimentos do setor privado, pois agrega valor, produz inovação, gera emprego e renda”, afirmou. Ele defende ser essencial a parceria entre Estado, empresas e sociedade civil. “Devemos pensar a sustentabilidade como um ponto de sinergia, um desafio que precisa ser vencido em conjunto.”

Scatena citou como exemplo a questão dos aterros sanitários, lembrando que o gargalo econômico dificulta sua gestão e aprimoramento. Para ele, se não houver um processo econômico virtuoso, dificilmente haverá dinheiro para a gestão na ponta. “É preciso buscar soluções regionalizadas. Não dá para cada município ter seu próprio aterro. Isso é uma agenda urgente para o setor público, mas também para o privado, pois saneamento e tratamento de resíduos são negócios.”

Avaliação

Eventual saída do Brasil do tratado de combate ao aquecimento global pode representar uma perda de oportunidades.

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Eduardo Geraque, especial para o Estado

23 Outubro 2018 | 02h30

SÃO PAULO - Em um contexto de mudanças climáticas, investir na chamada infraestrutura verde e focar também na demanda de água são duas soluções prioritárias para o País evitar transtornos com a escassez hídrica. Segundo os especialistas que debateram sobre o tema durante o Fórum Estadão Sustentabilidade, não existe uma solução única para fugir de futuras crises hídricas. A saída tem de ser sempre sistêmica, afirmam.

“Não tem bala de prata. Precisamos de um conjunto de ações bem calibrado”, afirma Guarany Osório, coordenador do Programa de Política e Economia Ambiental do Centro de Estudos em Sustentabilidade da Fundação Getulio Vargas.

Para o pesquisador, apenas as grandes obras de engenharia para aumentar a oferta de água, a chamada infraestrutura cinza, não são suficientes. “Temos que ter também instrumentos voltados para a demanda. Como mecanismos de mercado baseados na quantidade de água que é consumida pelas pessoas”, diz Osório.

Estimativas feitas pela FGV na região do semiárido brasileiro para os próximos 50 anos mostram uma perspectiva preocupante. “Quando você aplica os cenários climáticos para a bacia Piancó-Piranhas-Açu, por exemplo, um dos locais que estudamos, se não considerar a mudança climática significa negligenciar um déficit hídrico adicional de 133% ao problema, que já é grave”, diz. Por isso, defende, é preciso “ter soluções novas para resolver o problema”.

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O problema das mudanças climáticas é grave, e tende a piorar ainda mais, por isso temos que trabalhar para não ficar ainda mais caro no futuro.
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Guarany Osório, coordenador do FGVCES

Para Samuel Barreto, gerente nacional de água da ONG The Nature Conservancy, o problema é que a chamada infraestrutura verde - ações que visam ao reflorestamento de áreas ao redor de mananciais ou à preservação de matas que estão de pé - está longe da prioridade dos governantes. “Temos deixado esses projetos em quarto ou quinto plano. Mas precisam estar em primeiro lugar, porque contribuem para a melhoria da qualidade e da quantidade de água. Não podemos abdicar de nada.”

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A era que nós estamos vivendo é a era do imprevisto. Aquilo que ocorreu no passado em relação à água dificilmente vai ocorrer no futuro.
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Samuel Barreto, gerente de água da The Nature Conservancy

Soluções combinadas

Além do investimento nas áreas verdes, que ajudam na melhora da oferta de água, o especialista afirma que as obras de engenharia também são importantes. E também lembra de outro problema grave que existe no Brasil em relação aos recursos hídricos. “O País perde, em média, 37% de tudo o que é produzido de água. Em algumas regiões do País perde-se 70%, como na Amazônia”, diz Barreto. O biólogo defende uma combinação de todas as soluções. “Pelo lado da demanda, na agricultura e na indústria temos que melhorar esses sistemas. Eles são ineficientes”, afirma.

Para Renato Saraiva, diretor do departamento de Revitalização de Bacias Hidrográficas e Acesso à Água da Secretaria de Recursos Hídricos e Qualidade Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, a crise de recursos hídricos vivida pelo Brasil nos últimos anos não é obra do acaso. “Ela decorre de um grande modo de desenvolvimento em que a variável ambiental foi negligenciada”.

O gestor, assim como os outros debatedores, é um entusiasta da infraestrutura verde. “Continuamos precisando muito da infraestrutura cinza, dos engenheiros civis, mas precisamos dos geólogos, dos hidrólogos, dos agrônomos, dos botânicos e dos ecólogos para compreendermos melhor a água na natureza.

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Samuel Antenor, especial para o Estado

23 Outubro 2018 | 03h00

SÃO PAULO - Um dos segredos para que pequenos empreendedores ganhem competitividade pode ser a inserção de ações sustentáveis nos negócios. A observação foi feita durante o painel Empreendedorismo e Inovação para o Meio Ambiente, no Fórum Estadão Sustentabilidade

“Um ponto primordial é que empreendedores vejam problemas como desafios e aprendam a lidar com as dificuldades enquanto crescem”, disse Suzana Padua, presidente do Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ). 

Ela destacou que um diferencial para quem empreende é desenvolver uma visão socioambiental de sua atuação, pensando no que precisa ser feito para a coletividade. “A sustentabilidade é uma maneira de se relacionar com a comunidade, de atingir positivamente outras pessoas e instituições. Nas pequenas empresas é um diferencial.” 

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Temos de valorizar a força das pessoas que acreditam em seus princípios. E precisamos melhorar a comunicação do empreendedorismo.
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Suzana Padua, presidente do IPÊ

Para Helen Camargo de Almeida, coordenadora do Núcleo de Inovação e Articulação Institucional do Centro de Sustentabilidade do Sebrae, empreender é um estado de espírito. “O empreendedor não está só na empresa, mas em todos os lugares onde atua. É alguém engajado, em múltiplos sentidos”. Ela defende que o empreendedor precisa, sobretudo nos pequenos negócios, ter disposição para ser colaborativo, inserindo-se na comunidade, identificar práticas que já sejam sustentáveis e buscar informações disponíveis para aplicar em seu negócio. 

Outra chave importante é procurar, nas áreas pública e privada, um ambiente adequado à atividade e que ofereça incentivo ao empreendedorismo, afirmou Mercedes Blásquez, líder do projeto Low Carbon Business Action, iniciativa financiada pela União Europeia para envolver pequenas e médias empresas no Brasil na diminuição da emissão de gases-estufa e promoção de empregos. 

“A taxa de não sucesso entre os empreendedores ainda é muito alta. Por isso deve-se buscar apoio, e parceiros internacionais podem trazer tecnologias novas e diferentes maneiras de ver o negócio”, recomendou, sugerindo aos empreendedores buscar programas de parcerias internacionais disponíveis.

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Todas as empresas que apoiamos, para que possam poluir menos, são pequenas. É possível ter uma mudança sem ser uma grande empresa.
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Mercedes Blásquez, líder do projeto Low Carbon no Brasil

Solitário

A medida parece adequada sobretudo por ser o empreendedorismo uma atividade solitária, disse Alexandre Alves, general partner da Inseed Investimentos, que atua na formação de portfólios e no desenvolvimento de inovação de impacto social. “O empreendedor vê um problema e tenta resolver, mas para isso é preciso ter capital. Junto com o investidor, vem a governança, o que faz toda a diferença.” Para ele, cada vez mais, o investidor busca canalizar seu investimento em negócios equilibrados, com responsabilidade social e ambiental. 

“O caminho do social é difícil, mas indicadores de governança de mercado de capitais geram confiança. Empreendedorismo e inovação de impacto são as melhores formas de cuidar da sustentabilidade”, disse.

Segundo Helen, essas questões já são vistas como estratégia. “Pesquisa do Sebrae mostrou que os pequenos empreendedores buscam primeiro resolver assuntos de conformidade legal e licenciamento, mas que sustentabilidade vem em seguida, quando percebem que podem ser mais competitivos.”

Avaliação

No desenvolvimento de um novo projeto é preciso ser engajado não só na empresa mas também junto à comunidade em busca de soluções.

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Escassez hídrica pode se tornar constante em SP

Mudança do clima mantém sinal amarelo aceso; para cientistas, região deve continuar sofrendo com as oscilações extremas

Eduardo Geraque, especial para o Estado

23 Outubro 2018 | 03h30

SÃO PAULO - A crise hídrica que afetou a Região Sudeste do Brasil, em especial São Paulo, a partir de 2013 e com mais força entre 2014 e 2015, pode ter sido um evento extremo único no registro histórico da meteorologia paulista. Mas em um cenário em que as temperaturas estão cada vez mais altas - afetando a evaporação dos reservatórios -, e a tendência de chuvas sobre o Sistema Cantareira é de queda, as condições para a ocorrência de novas crises hídricas continuam sobre a mesa. 

Soma-se a isso o fato de que, apesar de a crise hídrica ter diminuído o padrão de consumo das famílias, parte da população retomou gastos de água que estão acima do esperado. 

Especialistas que se debruçaram sobre as causas da crise apontam que, considerando as séries históricas de chuvas e temperaturas que existem para a região, tratou-se de um evento único. E dizem que ainda não é possível afirmar que seja uma consequência ou tenha sido mais grave por causa das mudanças climáticas que afetam o planeta. Tampouco, porém, significa que o aumento das emissões antrópicas de gases de efeito estufa esteja fora da equação.

“Quando se avalia a frequência e a tendência de eventos extremos, pode se supor que a estiagem registrada no Sudeste faz parte das mudanças que estamos sentindo em função do aquecimento global”, afirma Tercio Ambrizzi, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo.

Como a temperatura média global tem aumentado sistematicamente, inclusive batendo recordes globais nos anos mais recentes, segundo Ambrizzi, o sistema climático como um todo passa a sentir este aumento de energia e reage para manter um equilíbrio global. 

“Existe uma grande probabilidade de a região Sudeste do Brasil, e também a região metropolitana de São Paulo, continuarem a sofrer oscilações de extremos climáticos em decorrência da elevação da temperatura global, podendo levar à ocorrência de secas ou inundações”, diz o pesquisador.

Segundo ele, o fato de as precipitações no Sudeste brasileiro estarem abaixo da média desde 2011 já é suficiente para que o sinal amarelo sobre a falta de água na região permaneça ligado. “Somente este dado é preocupante e teríamos que pensar em ações de adaptação”, afirma. Para o especialista, educar a população sobre a importância da água e discutir maneiras de usá-la com consciência é um ponto importante de qualquer estratégia para se combater a escassez de água. 

“Mas também temos de investir em tecnologia e equipamentos para economizar água, tanto em níveis residenciais quanto em empresas de forma geral”, diz. Ambrizzi também defende a importância de reutilizar a água e do desenvolvimento de projetos de infraestrutura para aumentar as reservas de água para a população. 

Nova cultura

“Para combater o risco de desabastecimento hídrico é preciso promover uma nova cultura da água, com a participação mais efetiva da sociedade, do setor privado e dos governos”, complementa Samuel Barreto, gerente de água da ONG The Nature Conservancy (TNC).

Ele cita como exemplo de novos caminhos que começaram a ser trilhados após o quase colapso do abastecimento público de água em São Paulo a criação, em 2015, do programa “Coalizão Cidades pela Água”. De acordo com o especialista em recursos hídricos, a plataforma de ação coletiva atuou para unir os esforços da ONG com os do setor privado para buscar formas de promover segurança hídrica. 

O projeto identificou 25 regiões metropolitanas na América Latina que sofrem de estresse hídrico. Destas áreas, 12 estão no Brasil - onde vive 31% da população brasileira e está 45% do PIB nacional. O principal objetivo do programa é investir na chamada infraestrutura verde, ou seja, em restauração florestal, para preservar a qualidade dos reservatórios de água.

No Brasil, segundo Barreto, empresas que dependem da água para os seus negócios aderiram ao projeto. É o caso de Ambev, Coca-Cola Femsa, PepsiCo, Fundación Femsa e Klabin. No total, pelas contas da TNC, cerca de 30 mil hectares foram restaurados nas cabeceiras de bacias hidrográficas, com mais de 2.500 famílias beneficiadas. Nos três anos da iniciativa, R$ 200 milhões foram aportados em projetos em seis regiões metropolitanas brasileiras: Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro, Distrito Federal, Belo Horizonte e Espírito Santo. O que engloba uma população de 27 milhões de pessoas.

Avaliação

Especialistas em recursos hídricos defendem uma mudança de cultura por parte de empresas e da população para evitar novas crises.

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Eduardo Geraque, especial para o Estado

23 Outubro 2018 | 04h00

SÃO PAULO - A ausência de novas crises hídricas vai depender de uma nova postura de toda a sociedade, na visão do especialista em educação e meio ambiente Pedro Jacobi, pesquisador da Universidade de São Paulo

“O caminho para sociedades sustentáveis se fortalece na medida em que se desenvolvam práticas educativas que, pautadas pelo paradigma da complexidade, aportem para a escola e os ambientes pedagógicos uma atitude reflexiva em torno da problemática ambiental. Precisamos ter ênfase em educação para a sustentabilidade”, diz o acadêmico, um dos autores do Livro Branco da Água, recém-lançado pelo Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP). 

Durante a crise hídrica, Jacobi foi um entusiasta da estruturação do terceiro setor em grupos como a Aliança Pela Água, que ajudou a população a evitar a falta de água em suas casas. 

Por outro lado, foi um crítico tanto do poder público - que, segundo ele, faltou com transparência -, quanto da mídia, que não teria, para o pesquisador, dado voz para todos que estavam sofrendo com o problema. “Se o quadro é de escassez hídrica, o governo tem de fazer campanhas contínuas de caráter preventivo. E a Região Metropolitana de São Paulo precisa ser caracterizada permanentemente como uma área afetada pela escassez de água”, diz.

“Lembrando que escassez é diferente da crise hídrica vivida entre 2013 e 2015”, afirma Jacobi. Sobre a mídia, opina que falta profundidade quando trata o tema. “A mídia precisa focar mais no seu papel de prevenção e não de agente da catástrofe.”

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Casal inventa ‘ouvido biônico’ antivazamentos

Falta d’água gera ideias inovadoras para ajudar a conter perdas no sistema de distribuição de forma mais rápida

Eduardo Geraque, especial para o Estado

23 Outubro 2018 | 04h30

SÃO PAULO - A preocupação em fazer diferença no campo da sustentabilidade e a perspectiva real de falta de água entre 2014 e 2015, durante a aguda crise hídrica, geraram várias ideias inovadoras que se mostraram não apenas importantes do ponto de vista ambiental como também boas oportunidades de negócio para os profissionais que mergulharam no caminho do empreendedorismo.

Em São Paulo, o casal Marília Lara e Antônio Oliveira, mesmo não sendo da área de saneamento, resolveram apostar em uma ideia em 2015 que vem se mostrando viável. “Nós queríamos investir em algo que fizesse diferença para o planeta”, afirma Marília, administradora com mestrado em marketing.

Oliveira, engenheiro e matemático formado pela Universidade de São Paulo (USP), largou a área para juntos começarem a investir na Stattus4. Eles conseguiram um financiamento público da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para deslanchar uma incubadora, hoje premiada, dentro do parque tecnológico de Sorocaba.

Em um primeiro momento, conta Marília, eles pesquisaram, junto a empresas que distribuem água nas cidades, se a perda nas tubulações era algo importante para o negócios delas. E descobriram que o impacto dos vazamentos é grande para o setor de saneamento, ainda mais em áreas que vivem em constante estresse hídrico, como é o caso de São Paulo. 

Resolveram desenvolver uma espécie de “ouvido biônico” para escutar vazamentos nas tubulações de água dos centros urbanos. A técnica é adaptada do trabalho dos geofonistas, profissionais especializados em procurar vazamentos nas redes com o uso do geofone - uma haste de alumínio que, por meio do ruído dos vazamentos, identifica onde pode estar o problema.

“Nós desenvolvemos um sensor que é instalado nos hidrômetros. Eles gravam o ruído da água no equipamento por alguns segundos e, por meio de um aplicativo, enviam estes áudios para a nuvem”, diz Marília.

A inteligência artificial dos computadores vai analisar depois, com base em um banco de dados com milhares de amostras, qual ruído gravado no campo mais se assemelha ao som de um hidrômetro que já tenha de fato registrado um vazamento. “São analisadas 70 características acústicas em um trecho de quatro segundos de gravação. Esta análise, depois, é jogada sobre o mapa da cidade, e os prováveis locais com problema aparecerão em vermelho.”

Segundo Marília, o sistema não identifica o local exato do vazamento, o que pode vir a ocorrer no futuro, mas reduz o tempo de vistoria que precisa ser feito no campo. “Em um projeto piloto em Votorantim, que tem 160 mil habitantes, nós reduzimos o tempo de exploração da cidade em um terço”. 

Pelas contas da empresária, se antes a empresa de distribuição de água da cidade demorava de 12 a 15 meses para vistoriar todos os hidrômetros da sua rede, com a aplicação do sistema do ouvido biônico isso caiu para 4 a 5 meses. “A área de ação caiu de 100% para 1%”, afirma Marília. “Nosso sistema já foi testado em 23 cidades do Brasil e vamos para outras em breve.”

Irrigação e filtragem

Da cidade para o campo, outra ideia inovadora premiada nos últimos anos é a da Agrosmart. “A empresa nasceu em 2014 para ajudar o agricultor com a irrigação da lavoura. Faltava muito informação na agricultura”, afirma Guilherme Raucci, responsável pela área de sustentabilidade da empresa, hoje uma das maiores da América Latina no setor. Os fundadores da empresa são netos e filhos de agricultores e conheciam, no dia a dia do campo, as dificuldades do setor.

Unindo tecnologia e a ciência de dados, o sistema oferecido ao agricultor permite que ele tenha informação personalizada sobre as chuvas nas diversas partes de sua propriedade, sem precisar vistoriar o campo. Os sensores desenvolvidos pela empresa coletam informações de forma automática, sem passar pelas redes de celulares ou de internet. Eles geram, depois, mapas de chuva específicos para a propriedade analisada. 

Com os dados, o produtor não vai conseguir apenas economizar água, segundo Raucci. “Ao identificar as mudanças do clima na região e quanto realmente choveu na sua propriedade, a tomada de decisão por parte do agricultor fica mais fácil. Vai fazer com que ele não apenas economize água e energia, mas que melhore a produtividade de uma forma geral. Melhora toda a qualidade da produção.”

Inovação também vem sendo aplicada para despoluir água, solo e ar. Este é o objetivo dos chamados “jardins filtrantes”, da Phytorestore Brasil. A empresa, que surgiu na França há 30 anos como fruto de um trabalho do arquiteto paisagista Thierry Jacquet, desenvolve projetos sustentáveis com valorização arquitetônica e paisagística dos locais. No Brasil, um dos principais projetos é com a L’Oreal, no Rio, em que os jardins são usados para tratar águas pluviais e resíduos industriais e sanitários. Ainda há reúso para irrigação e nos banheiros.

Desperdício

37% em média é o que se perde no Brasil entre captação e distribuição.

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Eduardo Geraque, especial para o Estado

23 Outubro 2018 | 05h00

SÃO PAULO - A estagnação das políticas públicas no setor dos resíduos sólidos provocou o aumento da quantidade de lixo enviado para locais inadequados em 2017. A volta dos lixões não apenas gera mais impactos ao ambiente e à saúde da população, como faz com que o País, ao também não incrementar a cadeia da reciclagem, desperdice oportunidades econômicas com o lixo.

Cálculos da Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe) apontam que nos últimos cinco anos foram enviados para lixões 45 milhões de toneladas de materiais recicláveis, que poderiam movimentar mais de R$ 3 bilhões por ano. 

“Os índices de reciclagem estão estagnados. É uma área que está patinando, apesar de ter um potencial enorme de ganhos e de geração de emprego, desde que a política nacional de resíduos sólidos seja implementada”, diz Carlos Silva Filho, diretor presidente da Abrelpe.

Entre 2016 e 2017, a quantidade de resíduos enviada para lixões aumentou 3%, segundo o mais recente Panorama dos Resíduos Sólidos do Brasil, divulgado em agosto pela entidade. O documento anual, publicado há 15 anos, mostra que 40,9% de todo o lixo gerado no Brasil não tem destinação correta.

“A questão dos resíduos sólidos regrediu no Brasil”, diz Silva Filho. Para ele, a não implementação total da Política Nacional dos Resíduos Sólidos, aprovada há 8 anos, após tramitar por duas décadas no Congresso Nacional, pode ser explicada por alguns fatores.

“De um lado, as esferas públicas não colocam as políticas sobre resíduos sólidos em suas agendas prioritárias - pelo contrário, elas passam ao largo disso. De outro, também existe uma falta de pressão por parte dos cidadãos. Enquanto o setor privado meio que espera o que vai ocorrer”, afirma Silva Filho.

Para ele, uma pesquisa do Ibope ilustra a situação. Dados coletados em 2018 com 1.816 pessoas em todas as regiões revelam que 98% enxergam a reciclagem como algo importante. Por outro lado, 75% responderam que não separam seus resíduos no dia a dia. “Ainda existe uma diferença grande entre o discurso sobre as lixeiras coloridas e realmente pôr a mão na massa.” 

O paralelo com a crise hídrica de 2014 e 2015, que afetou o Sudeste, mostra como a questão do lixo ainda não impactou o hábito das pessoas. A geração de lixo por pessoa no Brasil cresceu 0,48% de 2016 para 2017. “Na crise hídrica, as pessoas baixaram seu consumo de água, que continuou baixo após o fim da estiagem. Mas com o lixo não ocorre isso. A geração per capita chegou a cair em anos anteriores por causa da crise econômica. Mas voltou a crescer.”

Dívida

Pelos cálculos do Sindicato Nacional das Empresas de Limpeza Urbana (Selurb), feito a partir da dados e exemplos internacionais, o Brasil acumulou uma espécie de dívida, no valor de R$ 730 bilhões. “Essa é a quantia que deve ser gasta para remediar a poluição gerada pelos lixões na última década”, afirma Marcio Matheus, presidente do Selurb. A conta considera apenas os custos para remoção do lixo enviado para locais inadequados, a descontaminação desse solo e o envio dos resíduos para um aterro sanitário adequado. Danos à saúde, os impactos sociais e econômicos não entraram na conta.

Matheus defende que é preciso que os municípios brasileiros partam para soluções regionalizadas - como fizeram os Estados Unidos, que construíram 1.400 aterros regionais em 15 anos. E, o mais importante, criem arrecadações específicas para cuidar da questão do lixo.

“A equação econômica não fecha para os municípios. É insustentável. As prefeituras resistem cobrar do poluidor. A logística reversa está atualmente no caixa das prefeituras”, afirma. Para ele, o consumidor, o comércio e a indústria também precisam pagar parte da conta.

De acordo com o Índice de Sustentabilidade da Limpeza Urbana (Islu), 61,6% dos municípios brasileiros não têm fonte de arrecadação para o setor. Mas entre as cidades que têm algum tipo de taxa ou tarifa para coleta e destinação do lixo, 70% dispõem os resíduos sólidos de forma adequada.

Dados

O custo para remediar a poluição gerada pelos resíduos não destinados corretamente já soma R$ 730 bi em uma década.

3.352 municípios das cinco regiões, não dão destinação correta ao lixo coletado na casa das pessoas

1.610 cidades usam lixões como destino final de seus resíduos sólidos

29 milhões de toneladas de resíduos sólidos vão para locais inadequados no País

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Eduardo Geraque, especial para o Estado

23 Outubro 2018 | 05h30

SÃO PAULO - Um dos preceitos básicos da política nacional de resíduos sólidos é evitar com que mais e mais lixo fique acumulado nos aterros sanitários. Essa é uma das linhas de atuação de projetos encampados pelo Low Carbon Business Action, uma iniciativa da União Europeia em parceria com pequenas e médias empresas brasileiras para apoiá-las na transição para tecnologias de baixo carbono. 

“Os três objetivos macro são gerar um investimento da ordem de 300 milhões de euros no Brasil, baixar a emissão de gases de efeito estufa ao redor de 18,5 milhões de toneladas ao ano e, também, promover a geração de 1.300 empregos”, afirma Mercedes Blázquez, líder do Low Carbon no Brasil.

Dos quase 300 projetos discutidos ao longo das rodadas de negociação em três anos, cerca de 52% é da área de resíduos sólidos. O projeto uniu ideias brasileiras, que precisavam ser desenvolvidas, com tecnologias já testadas e em uso na Europa. “Mas também recebemos projetos na área de energias renováveis e de agricultura, atrelados à floresta”, diz Mercedes.

Um dos exemplos, em fase de implementação, está sendo desenvolvido em Curitiba (PR). Com base em uma tecnologia alemã, o Ceasa da capital paranaense vai montar uma usina de biogás. A energia que será usada pela própria instituição virá dos restos de alimento coletados no Ceasa e em outro locais. Segundo Mercedes, o projeto engloba o trabalho de catadores de lixo da região. “É um modelo que se aproxima da economia circular.”

Outro projeto nessa linha está sendo desenvolvido em São Paulo com tecnologia dinamarquesa. A ideia é que um dos aterros da região metropolitana, administrado pela Ecourbis, também ganhe uma usina de biogás, que será alimentada pela parte orgânica do lixo coletado em São Paulo. O método importado da Escandinávia facilita a separação das fases orgânicas e inorgânicas dos resíduos sólidos que chegam ao aterro. 

“O potencial deste projeto, que deverá ser implementado em até dois anos, é enorme. Se ele funcionar bem em um dos dez maiores aterros de São Paulo, ele poderá ser replicado para outros 35 aterros”, afirma Mercedes. No caso, há tanto o ganho econômico, quanto o social e o ambiental.

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‘Economia circular põe valor no que viraria lixo’

Líder da Fundação Ellen MacArthur no Brasil, Luisa Santiago explica as vantagens do modelo

Entrevista com

Luisa Santiago, líder da Fundação Ellen MacArthur no Brasil

Eduardo Geraque, especial para o Estado

23 Outubro 2018 | 06h00

SÃO PAULO - Inserir o ganho econômico à lógica da sustentabilidade é um dos pontos centrais da ideia da economia circular. O conceito, que surgiu na academia nos anos 1970, principalmente em países europeus, começa a ganhar corpo. Mas ainda é um processo inicial, explica, em entrevista ao Estado, Luisa Santiago, líder da Fundação Ellen MacArthur, criada em 2010 na Inglaterra. A instituição, que escolheu o Brasil como sede do seu primeiro escritório fora da Europa, é uma das principais catalisadoras dos projetos de economia circular no mundo.

Em termos conceituais, quais as principais diferenças entre a economia circular e a linear?

Na economia linear se extrai valor dos recursos da natureza. Eles são transformados e, depois, descartados. É basicamente uma economia de extração de valor e de desperdício. Na circular cria-se valor sobre os recursos que já existem. Trabalhamos com a possibilidade de manter aquele recurso em uso por mais tempo. Em ciclos, de alto valor, por meio de várias estratégias. Nós enxergamos a economia circular como uma economia de material, e os materiais da natureza são entendidos como nutrientes. Tem os biológicos, de base renovável, e os técnicos, que são os recursos finitos. Com os biológicos, o que se pretende é que eles regenerem o mundo natural, em vez de degenerá-lo. É preciso pensar como gerar valor econômico enquanto regenera os sistemas vivos. Nos nutrientes técnicos, como são finitos, tem de pensar como mantê-los e geri-los nas suas mais diversas aplicações, em alto valor.

Qual é o principal objetivo? 

No cerne da economia circular está a captura de lucro. Aproveitar oportunidades econômicas desperdiçadas na economia linear. Pelo processo tradicional, os materiais são desperdiçados, mas o valor embutido nesses materiais também são. O ponto de partida para que a ideia de economia circular tivesse tração no mundo foi o trabalho da Fundação Ellen MacArthur, que calculou os potenciais econômicos sobre a mesa e o quanto se perdia nos diversos modelos lineares.

O conceito de economia circular está bem desenvolvido no Brasil? Em quais setores?

Em nenhum lugar do mundo está muito desenvolvido. Existem, talvez, alguns bolsões. Na Europa, onde o conceito surgiu, o movimento foi testado e colocado em prática de diversas formas. Por empresas, como modelos de negócio, e em pesquisas, no setor acadêmico. E também pelos governos. Desde 2014, existe um conjunto de normas da Comissão Europeia para seus países-membros sobre economia circular. 

Quais os empecilhos para o conceito ganhar robustez aqui? 

Existem projetos de inovação liderados pela indústria, pelo setor de negócios. Pequenas empresas, startups surgem com a ideia de circularidade. Mas faltam políticas públicas. A regra atual favorece a economia extrativa. Ao taxar os múltiplos ciclos, os modelos de negócio mais circulares ficam desfavorecidos. É um momento de transição. Existe um modelo bem estabelecido, da economia linear. É preciso inovar para mudar os princípios do jogo. Os conceitos da circularidade precisam ser mais bem entendidos para que regulações mudem.

Que exemplos destacaria?

As Lojas Renner, por exemplo, fizeram um concurso de inovação de ideias em várias categorias ligadas à moda. E passaram a incorporar a economia circular em sua filosofia e na sua estratégia. Procurou, como seus fornecedores, eliminar perdas ao máximo. Passou a criar novas cadeias de fornecimento onde é possível processar e reutilizar fibras dos tecidos que eram descartados. Hoje, vendem inúmeras peças de roupa com esse tecido de fibras refeitas. Na Philips, a estratégia mudou. O modelo de negócio passou da venda de lâmpadas para a de serviços de iluminação. Dentro da economia circular, esta ideia da economia de serviço é interessante. A empresa, inclusive no Brasil, gera lucro a partir de menos materiais.

Existem setores onde é mais fácil implementar os conceitos?

Na Europa, os setores de bens de consumo duráveis e não duráveis foram os primeiros a aderir. Porque conseguiram enxergar a importância de capturar o valor econômico. Em vez de comprar produtos, passou a existir o compartilhamento de meios de mobilidade, de máquinas, de utensílios domésticos. No setor dos eletrônicos, com computadores, e no mundo da moda, a economia circular avançou muito. O setor de embalagens plásticas também está se envolvendo e deve se comprometer com metas globais. Mais recentemente, começamos também a trabalhar com o setor de alimentos, no chamado ciclo biológico. A evolução ocorre de forma paralela.

Quem é

*LUISA SANTIAGO É MESTRE EM PRÁTICAS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E DOUTORA EM GERENCIAMENTO AMBIENTAL. NO MESTRADO, FOI AUTORA DO PRIMEIRO ARTIGO ACADÊMICO SOBRE ECONOMIA CIRCULAR NO BRASIL.

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Epifania sobre recursos veio após regata de volta ao mundo

Velejadora britânica Ellen MacArthur teve ideia de circularidade após ficar dois meses no mar, em 2005

Eduardo Geraque, especial para o Estado

23 Outubro 2018 | 06h30

SÃO PAULO - Ao passar mais de dois meses no mar, em uma regata solitária de volta ao mundo em 2005, a velejadora britânica Ellen MacArthur, hoje com 42 anos, percebeu a realidade de viver com recursos finitos. 

Seu plano na época era circum-navegar o planeta o mais rápido possível, de modo que fazer paradas para reabastecimento estava fora de cogitação. “Administrar com parcimônia os recursos materiais disponíveis era uma questão de vida ou morte”, contou depois de concluir a jornada. Ela já havia feito outra grande regata solo um ano antes.

“Quando Ellen cruzou a linha de chegada, ela teve uma epifania. A noção de limitação dos recursos que ela sentiu nos 72 dias que ficou no mar deveria ser aplicado à economia global”, explica Luisa Santiago, representante da Fundação Ellen MacArthur no Brasil.

Após a regata de 2005, Ellen, que virou um dos rostos mais conhecidos em defesa da economia circular, anunciou que largaria as grandes regatas. “Ela passou a fazer uma jornada. Ficou cinco anos conhecendo e conversando com dirigentes de empresas, com membros dos governos e líderes de escolas de pensamento acadêmico para chegar a uma forma que tornaria realidade a ideia da economia circular. O que temos hoje é fruto disso”, diz Luisa. 

Crise

A partir de 2008, com o mundo mergulhado em uma crise econômica, o cenário contribuiu para o surgimento da fundação, que nasceu dois anos depois com a missão de acelerar a transição para uma economia circular. “Essa necessidade global de escrever uma história de economia de longo prazo passou a ser bem aceita desde então”, explica a gestora brasileira. 

Desde então, a fundação atua em cinco frentes conectadas: produção de estudos e relatórios com evidências sobre o benefício da transição; atuação junto a empresas e governos; oferta de cursos online sobre economia circular; produção de estudos de caso e livros para o público em geral e atuação junto a organizações ao longo de cadeias de valor.

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