Soros pede uso de verba do FMI para combater mudança climática

Financiamento para países ricos poderia ser usada em fundo para países pobres.

Eric Brücher Camara, BBC

10 de dezembro de 2009 | 17h24

O investidor George Soros apresentou nesta quinta-feira durante a reunião das Nações Unidas para o clima, em Copenhague, uma proposta para financiamento de ações contra mudanças climáticas em países em desenvolvimento.

A ideia do multimilionário é utilizar linhas de financiamento liberadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) para ajudar países industrializados durante a crise econômica mundial - mas que nunca foram acionadas.

"Isso supera os problemas de financiamento", disse Soros à BBC. "Pode ser muito importante, porque as mudanças climáticas são um problema real e existencial para o mundo."

Organizações não-governamentais elogiaram a ideia. O Greenpeace afirmou que "todos os líderes mundiais" deveriam estudá-la, mas de qualquer maneira, "países industrializados têm que pôr dinheiro na mesa até o fim da semana que vem".

A ActionAid classificou a proposta de "empolgante" e também pediu que governantes a avaliem.

Polêmica

A aprovação de um fundo de financiamento para ajudar no combate à mudança climática em países em desenvolvimento causou polêmica nos três primeiros dias da reunião de Copenhague.

A proposta dos países industrializados sinaliza o investimento de US$ 10 bilhões por ano para um fundo de emergência, apelidado de fast start fund.

A ideia, no entanto, esbarra nas expectativas de diversos países que, como o Brasil, afirmam que um fundo de curto prazo não será suficiente para se chegar a um acordo.

Com a sugestão de Soros, o dinheiro para este fundo emergencial poderia ser multiplicado. E o empréstimo seria lastreado pelas reservas de ouro do FMI.

O megainvestidor afirmou que a ideia foi bem recebida por representantes de governos de países ricos.

'Cozinhando vivo'

Para Soros, mesmo que existam dúvidas sobre o aquecimento global - o que o Painel Intergovernamental para Mudanças Climáticas (IPCC) negou, mesmo depois do escândalo da divulgação de emails que, segundo céticos, questionariam os argumentos científicos do fenômeno -, o investimento seria válido.

Saiba mais na BBC Brasil sobre os emails

"Eu pessoalmente acho que as provas científicas são esmagadoras, mesmo apesar deste abuso entre alguns cientistas", disse o investidor.

"Além disso, se a escolha fosse entre ser cozinhado vivo e desperdiçar dinheiro desnecessariamente, eu preferiria gastar um dinheiro. Porque muito antes de sermos cozinhados, vamos nos matar, se não enfrentarmos a mudança climática."

O financiamento que Soros propõe ser usado é conhecido como Special Drawing Rights (SDR) e só está sujeito a juros depois que o dinheiro entrar em circulação.

Assim que isso acontecer, incidiriam juros de 0,5% ao ano, mas eles seriam pagos, na sugestão de Soros, pelas reservas de ouro do FMI, que atualmente valem mais de US$ 100 bilhões.

'Falta de vontade política'

Com isso, os países em desenvolvimento não teriam que se endividar com o pagamento juros.

Além disso, Soros sugere que os países em desenvolvimento podem até lucrar com os investimentos feitos com o dinheiros dos SDR, ao vender créditos de carbono para países ricos nos mercados internacionais.

E o ouro seria usado como lastro para o caso de os mercados de carbono não se valorizarem com é esperado.

"O que está faltando é só vontade política para combater as mudanças climáticas com o uso de SDRs", disse.

Soros afirmou ainda que até os Estados Unidos apoiaram a sugestão em princípio, mas temem que a ideia não seja aprovada no Senado.

"A graça dessa ideia é que ela não entra nas folhas de orçamento. É uma situação em que todos saem ganhando."BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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