Sol volta a nascer em cidade no Ártico depois de meses

Em Longyearbyen, que se auto-intitula a cidade mais ao norte do mundo, luz do sol é grande acontecimento

Elisabeth Rosenthal, de The New York Times,

03 de março de 2008 | 18h41

Nesta semana, uma vila remota no Ártico - que se auto-intitula a cidade mais ao norte do mundo - está em clima de expectativa e ansiedade. E não é por causa do urso polar que apareceu nas adjacências do vale semana passada (ele foi dado como alimentado e as autoridades decidiram deixá-lo vagar em direção ao litoral, ao invés de abatê-lo por questão de segurança pública).  Os 2000 habitantes de Longyearbyen, localizada em uma ilha a 965 quilômetros do Pólo Norte, estão aguardando ansiosamente um outro visitante, cuja chegada está bem próxima. De experiências passadas, eles sabem que o visitante irá esquentar o clima e fazer as cores da cidade voltarem à vida - o branco da neve; o azul do mar; o vermelho, o amarelo e o verde das casas de madeira, bancos, restaurantes e escolas. No próximo sábado, 8, o Sol vai nascer de novo em Longyearbyen pela primeira vez desde outubro. Enquanto a maior parte do mundo não dá atenção para luz e sombras, para os residentes dessa cidade, depois de meses de escuridão completa, a previsão de luz do sol é um grande acontecimento.  Elke Morgner e Allison Bailey, dois estudantes graduados pelo instituto de pesquisa local, estavam enfrentando o gelo a 10 quilômetros de Longyearbyen esta semana para tirar medidas da tundra (tipo de vegetação de regiões árticas) quando viram um pequeno traço de luz solar em torno de uma montanha. Apesar das temperaturas de -20°C (com sensação térmica de -40° devido ao vento), eles largaram suas ferramentas e admiraram a visão. Enquanto trabalhavam, a quantidade de luz cresceu e tomou boa parte do vale. Em seu caminho de volta para casa, eles fizeram uma linha com seus trenós motorizados para a luz. E lá estava, entre duas montanhas: o Sol. "Olhem!", eles gritaram em uníssono. "Olhem!", os cientistas se abraçaram, fizeram pequenos jigs na neve e depois ficaram imóveis, chocados. De volta ao campus na cidade, relatórios antecipados sobre a chegada da luz solar foram checados e outros estudantes pegaram seus trenós e foram ver o Sol.  "Como ele era?" um estudante perguntou, enquanto outros se aglomeravam ao redor dos que acabavam de retornar e que tiravam suas roupas de neve no lobby do instituto, University Studies in Svalbard, batizado com o nome da ilha. "Lindo", ele disse. E, depois de pensar um momento, acrescentou, "brilhante!".  Longyearbyen, originalmente uma cidade de mineração de carvão que deve o nome ao americano que a fundou há um século, fica em escuridão total por metade de novembro e todo janeiro. Durante a primeira parte de novembro e em fevereiro, quando o Sol está bem abaixo do horizonte, a luz é apenas indireta, um breve período de crepúsculo.  Mas agora, com o Sol subindo cada vez mais perto do horizonte, cada dia é 20 minutos mais longo que o anterior, e perceptivelmente mais claro. No próximo sábado, 8, luz solar direta, juntamente com sombras e calor, chegarão, começando com um nascer do sol efetivo.  Por algumas poucas semanas depois disso, os residentes vão aproveitar a alternância diurna de luz e escuridão como é de costume em outras regiões. Ao fim de março, a transformação estará completa: de abril a setembro, será um dia perpétuo nessa cidade, agora lar da universidade e de uma indústria turística, assim como de mineradores.  A chegada da luz do dia é como um renascimento anual, transformando as vidas e as rotinas. Embora pessoas não hibernam exatamente, residentes dizem que se cansam facilmente no escuro inverno. Estudantes da graduação dormem em suas mesas.  Agora, as coisas se movimentam de novo. Inger Marie Hegvik, que trabalhou no aeroporto por 15 anos, disse dormir duas ou três horas a mais nos meses escuros, e que sua energia cresceu drasticamente nos últimos dias.  "É excelente", ela disse enquanto comprava vinho na loja local. "Tudo fica mais fácil". Para celebrar a chegada do Sol, o escritório dela planejou uma festa em uma cabana na montanha essa semana. Durante a noite semana passada, homens cantavam no pub e restaurante local, o que é incomum para eles. Nesta sexta-feira, 29, na Royal Kindergarten (uma das três pré-escolas da região), uma dúzia de crianças que viveram na escuridão nesse inverno, estão ocupadas pintando e colando papel nas janelas cheias de neve da escola.  Eles estão aprendendo uma música para o festival que vai juntar todos os estudantes da cidade na semana que vem: "O Sol é bom. O Sol é ótimo. O Sol é quente. Ele bronzeia a pele. O Sol brilha toda manhã para mim". O dia em que chega o Sol é considerado um feriado público.  De repente, as pessoas estarão dirigindo seus carros e scooters à luz do sol e não mais na escuridão. Eles poderão ver seus filhos enquanto eles correm à frente. Eles poderão caminha até a geleira.  O retorno do Sol também significa o retorno do calor a essa gélida terra, embora o conceito seja relativo. Temperaturas de verão chegam apenas a 6°C. A temperatura mais alta já registrada é de 18°C. Mas para muitos dos habitantes mais antigos há um sentimento de remorso nessa época do ano, também. Como num fim de semana chuvoso, a noite perpétua do inverno de Longyearbyen pode ser um tempo de contemplação.  "O inverno é tão bom, há todas essas coisas que você quer fazer", disse Birgit Brekken, que se mudou para a cidade como babá há 30 anos e agora trabalha em uma butique que está recebendo a primeira leva de turistas. "Você escreve longas cartas ao invés de fazer um telefonema. É um tempo em que você pode sossegar e ler".  Agora, aqueles projetos não terminados deverão esperar até ano que vem, ela disse. "De repente é fim de fevereiro, e o Sol está voltando, e você tem que se ocupar de novo".

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