Só proibir atividade não resolve, dizem especialistas

Moratória pode aumentar a ilegalidade e dificultar monitoramento da pesca, se não vier acompanhada de planos de recuperação

Herton Escobar, O Estado de S. Paulo

07 Março 2015 | 19h14

A decisão de proibir a pesca de espécies ameaçadas não é questionada apenas por pescadores. Ambientalistas e cientistas com experiência em gestão pesqueira ouvidos pelo Estado concordam que a proibição, por si só, não é necessariamente a melhor estratégia de conservação, dada a falta de informações e de monitoramento da atividade pesqueira no País.

“Não existe gestão sem informação e temos uma lacuna muito grande de conhecimento sobre o que é pescado e consumido no Brasil”, diz Cristiano Vilardo, diretor sênior de Política e Estratégia Institucional da ONG Conservação Internacional (CI Brasil). “Simplesmente proibir a pesca não funciona; é contraproducente. Você joga muitos pescadores na ilegalidade e dificulta ainda mais o monitoramento da atividade.”

Melhor do que uma moratória, segundo ele, seria desenvolver planos de gestão pesqueira específicos para cada espécie, com monitoramento e geração de dados essenciais para a recuperação de seus estoques. Em uma carta de posicionamento conjunto, as organizações CI Brasil, WWF Brasil e SOS Mata Atlântica defendem que a lista seja “mantida integralmente”, mas reconhecem a necessidade de se fazer “uma revisão nos critérios para selecionar as espécies que poderão ter o uso sustentável permitido”.

Segundo Matheus Freitas, especialista em biologia reprodutiva de peixes recifais, o problema não é a avaliação científica do status de ameaça das espécies, mas a maneira como a lista foi divulgada e as estratégias de manejo que estão sendo propostas. A proibição da pesca, segundo ele, é uma decisão mais política do que científica. “Fui avaliador de várias espécies e nunca fiquei sabendo que aquelas consideradas ameaçadas seriam fechadas para a pesca”, diz. “Fui pego de surpresa, tanto quanto os pescadores.”

“A lista revelou a situação insustentável da pesca brasileira, sem dados, mal manejada, com espécies exploradas acima da capacidade de suporte dos estoques. Só colocar na lista e proibir, porém, não basta. É necessário discutir como reverter a situação dessas espécies”, diz a diretora-geral da ONG Oceana Brasil, Monica Brick Peres.

Moratória. No caso de tubarões e raias ameaçadas de extinção, o biólogo Otto Gadig, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), é favorável à proibição. “A situação desses bichos é tão grave que tem de proibir mesmo; precisa ter moratória.”

Ainda que o manejo seja uma opção teoricamente interessante, diz ele, sua implementação é extremamente difícil. “Na prática, o melhor é não pescar.”

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