TIAGO QUEIROZ/ESTADãO
TIAGO QUEIROZ/ESTADãO

Sistema privado para monitorar desmate tem alta resolução e alertas diários

Ministério do Meio Ambiente já testa tecnologia particular de monitoramento de desmate; satélite repete imagens várias vezes sobre um mesmo lugar

Giovana Girardi, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2019 | 03h00

O Ministério do Meio Ambiente tem testado uma tecnologia de monitoramento privado do desmatamento da Amazônia. Essas imagens, do sistema Planet, trazem vantagens para a produção de alertas de perda florestal porque são feitas com frequência diária e apenas 3 metros de resolução, ante 10 a 30 metros dos satélites Sentinel e Landsat, os principais usados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe)

O instituto federal faz o acompanhamento da Amazônia hoje. Questionamentos da gestão Jair Bolsonaro ao trabalho do Inpe levaram à demissão de Ricardo Galvão, diretor do órgão. A saída de Galvão do cargo motivou críticas de cientistas do Brasil e do exterior ao governo. 

O satélite Planet repete imagens várias vezes sobre um mesmo lugar, aumentando as chances de se registrar um determinado desmatamento sem a cobertura de nuvens, e pode vê-lo com muito mais detalhes.

Mas a desvantagem é que se trata de um serviço pago, e caro, diferentemente dos outros dois, que são de graça. E que demanda uma alta capacidade de processamento.

“Ele tem alta resolução e alta frequência, permite ver detalhes e a sequências das coisas. Mas tem tanta resolução que acaba gerando muito dado. É preciso muito mais capacidade de processamento para poder avaliar tudo”, explica o engenheiro florestal Tasso Azevedo, coordenador do MapBiomas, projeto de mapeamento do uso do solo do Brasil que envolve uma rede colaborativa de especialistas de universidades, institutos e ONGs que trabalham com sensoriamento remoto no País.

A iniciativa trabalha, entre outros, com os dados fornecidos pelo Inpe e utiliza imagens selecionados do Planet para poder validar e qualificar a informação. “Compramos imagens para lugares específicos onde o Deter já identificou um desmatamento. É possível, claro, fazer isso para a Amazônia toda, mas é algo bastante custoso. Se o governo tem recursos para comprar isso, deveria entregar essas imagens para o Inpe. Ninguém tem melhor capacidade para processar isso hoje no Brasil do que eles”, complementa Azevedo.

Ele também diferencia o que é a compra só de imagens da contratação de todo um sistema para gerar dados sobre o desmatamento – exatamente o que tinha sido oferecido ao Pará e que agora está sendo feito no MT, mas que já é feito pelo Inpe. 

“As imagens poderiam ser usadas por qualquer órgão público. Hoje o Inpe não compra porque os sensores que usa são o suficientes para o trabalho realizado. O Inpe já envia milhares de alertas por ano. Só no ano passado foram 150 mil e muita coisa nem é averiguada em campo. Com mais resolução, o Planet vai enxergar ainda mais coisas a cada dia. Inclusive coisas que não são desmatamento. No Pará (onde o sistema Planet foi testado) se percebeu isso, que ele alertava até para uma árvore cortada”, aponta Azevedo.

O pesquisador ressalta ainda que hoje o MapBiomas já faz um uso mais selecionado do Planet para ver com mais detalhes áreas que foram alvo de alerta do sistema Deter, do Inpe. “Pegamos os dados e fazemos um foco em alguma área de interesse, trazendo dados mais refinados para o local. E isso é oferecido de graça para quem quiser usar”, diz.

Pará

O secretário de Meio Ambiente do Pará, Mauro Almeida, afirma que esse foi um dos motivos pelos quais o Estado decidiu não comprar o sistema Planet, após um período de testes. Segundo ele, o custo seria de R$ 3,5 milhões iniciais pelo serviço, mais R$ 4,5 milhões por ano em imagens. 

“Para nós, o que vem do Inpe foi considerado suficiente. Se eu tenho plataformas gratuitas, inclusive com o trabalho do MapBiomas, que contemplam o que eu preciso, não vou gastar essa fortuna”, disse Almeida.

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