Setor de energia hidrelétrica teme futuro sem geleiras

Na geleira situada na nascente do rio Rhone, o glaciologista Andreas Bauder se coloca ao lado de uma estaca de 3 metros de altura enfiada no gelo e aponta para algum lugar acima da cabeça.

EMMA THOMASSON, REUTERS

22 Outubro 2009 | 15h13

"Isso é aproximadamente o derretimento de um mês", diz ele, enquanto seus colegas cientistas perfuram o gelo. "Eu tenho uns 2 metros de altura".

Do Himalaia aos Andes, geleiras que derretem com rapidez representam oportunidades no curto prazo -- e riscos no longo prazo -- para a energia hidrelétrica e para a indústria da construção civil e o setor de engenharia impulsionados por ela.

A energia hidrelétrica, que é a forma de energia renovável mais usada no mundo, supre mais da metade das necessidades energéticas da Suíça. À medida que os verões trazem a seca e recedem as geleiras (que ajudam a mover as turbinas com as águas de degelo), essa parcela deve cair.

Um estudo feito pela universidade técnica EPFL, de Lausanne, prevê um declínio da hidroeletricidade de 46 por cento até 2035 dos cerca de 60 por cento atuais, à medida que a precipitação diminuir e o uso mundial de energia aumentar.

Da mesma forma que o Himalaia é a "caixa d'água da Ásia", a Suíça é a fonte dos maiores rios da Europa, sustentando agricultura e hidrovias e resfriando reatores nucleares.

A água escorre pelas fendas brancas e azuladas e o gelo racha e estala enquanto Bauder -- que passa entre 20 e 30 dias por ano trabalhando nas geleiras suíças para a universidade técnica de Zurique -- explica que a maior parte da imensa geleira do Rhone terá desaparecido até o final do século.

"A natureza pode se adaptar às circunstâncias", disse ele. "Mas as pessoas são muito mais frágeis com relação às condições de vida".

Mais de um bilhão de pessoas no mundo vivem em bacias hidrográficas abastecidas por geleiras ou pelo derretimento da neve.

As geleiras vêm recuando de forma drástica desde o fim da Pequena Era do Gelo, no século 19, em especial no Himalaia, onde abastecem rios como o Mekong e o Yang-tsé e garantem água e energia para economias de rápido crescimento.

A falta de água para a energia hidrelétrica já é "crítica" na Bolívia, no Peru, na Colômbia e no Equador, de acordo com o Painel Intergovernamental de Mudança Climática da Organização das Nações Unidas (ONU), que também vê riscos ao abastecimento de água no sul da Califórnia, decorrente da perda da banquisa de Sierra Nevada e da bacia do rio Colorado. Na Europa, 20 por cento da eletricidade vem da água.

Bauder aponta para uma área de terra pedregosa e pequenos lagos além da geleira do Rhone:

"Quando eu era um garoto, lembro que a geleira era bem maior".

Mais conteúdo sobre:
CLIMA GELEIRAS*

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.