Setor de eletroeletrônicos discute metas para logística reversa

Reunidos no Conama, representantes da indústria, de ONGs, da academia, do governo e das empresas de reciclagem tentam chegar a um acordo

Karina Ninni,

27 de julho de 2010 | 23h30

O termo soa esquisito e, por enquanto, só frequenta o vocabulário de especialistas. Mas a logística reversa, prevista na Política Nacional de Resíduos Sólidos aprovada este mês pelo Senado, pode mudar as relações de consumo. Por meio dela, empresas ficam obrigadas a recolher o resíduo do que fabricam e o consumidor, a devolver produtos usados para reciclagem. Quando o projeto for sancionado, na segunda-feira, isso já será obrigatório para itens como pilhas, baterias, pneus e eletroeletrônicos.

 

O caso dos eletroeletrônicos é o que mais carece de regulamentação. Reunidos hoje no Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), representantes do governo, de toda a cadeia de produção e reciclagem, de universidades e ONGs tentam definir como pôr em prática a logística reversa. O principal embate no grupo de trabalho, criado em 2009, é o estabelecimento de metas.

 

“Na resolução dos pneus, editada em 1998 pelo Conama, foram estabelecidos metas e prazos. Na resolução das pilhas e baterias, do mesmo período, não”, diz a doutoranda Ângela Cássia Rodrigues, da Faculdade de Saúde Pública da USP, que integra o grupo de trabalho.“No caso dos pneus, rapidamente se montou uma estrutura para coleta e reciclagem. Com pilhas e baterias a gente continua dependendo do voluntarismo dos fabricantes e dos consumidores.”

 

“Governos, ONGs e academia gostam de falar de metas. Mas a sociedade não está educada ainda. O brasileiro extrapola em uma vez e meia o grau de obsolescência de um produto. Quanto a indústria vai gastar para educar esse cidadão?”, alega o relator do grupo de trabalho e diretor de Responsabilidade Socioambiental da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), André Luiz Saraiva.

 

Para Saraiva, a regulamentação do setor é urgente. “Temos Copa do Mundo em 2014. E as vendas vão parar nas alturas”, prevê, com base nos números do primeiro semestre deste ano, quando quase 7 milhões de famílias adquiriram aparelhos de TV.

 

As empresas evitam falar em quem vai pagar a conta da logística reversa. “A solução é reduzir impostos”, diz Saraiva.Ângela defende que o custo da gestão de resíduos seja embutido no preço dos produtos. “A melhor forma é atribuir o custo aos fabricantes. Quando eles planejam o lançamento de um produto, têm de planejar a destinação final.”

 

Com a regulamentação, pessoas como Paulino Pereira de Andrade, dono da empresa Mundinho Azul, terão de ser incorporados à cadeia da logística reversa. Paulino, que recolhe sucata eletrônica nas residências com dois veículos sem custo para quem requisita o serviço, quer se capitalizar com os eletroeletrônicos. “Vejo uma grande oportunidade nesse mercado. Quando abrir minha primeira loja, em dois ou três meses, quero me credenciar para ser o parceiro de grandes empresas que vão ter de cumprir a lei”, diz Paulino.

 

É de se esperar que, por conta do grau de pirataria que reina no mercado de eletroeletrônicos, empreendedores como Paulino sejam bem-vindos, já que ninguém poderá garantir que a indústria vá se ocupar de equipamentos “piratas”. “Ele até pode operar, credenciado. O que eu acredito que vá acontecer é que as indústrias vão capacitar suas redes de assistência técnica para receber usados”, prevê Saraiva.

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