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Brasil produz 500 bilhões de itens descartáveis de plástico por ano, o equivalente a 15 mil itens por segundo. EnriqueTalledo/Oceana

Brasil produz 500 bilhões de itens descartáveis de plástico por ano, o equivalente a 15 mil itens por segundo. EnriqueTalledo/Oceana

Sem controle, Brasil lança 325 mil toneladas de plástico no mar por ano

Maior parte desse material não é recolhido e quase 5% vai parar no fundo do oceano; indústria tem ignorado o assunto e deixado de buscar alternativas que possam reduzir o uso e consumo do polímero

André Borges , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Brasil produz 500 bilhões de itens descartáveis de plástico por ano, o equivalente a 15 mil itens por segundo. EnriqueTalledo/Oceana

BRASÍLIA - Todos os dias, 890 toneladas de plásticos são despejadas no mar brasileiro. Em apenas 24 horas, bilhões de itens de plástico escorrem pelos esgotos e acessam os rios, até invadirem o litoral. São embalagens abandonadas em lixões, sacos plásticos carregados pelas chuvas, materiais deixados sobre as areias das praias que acabam nas águas do Atlântico. Parte desse volume colossal de lixo tem sido ingerida por animais marinhos, que morrem contaminados. Outra parte é engolida por você. Esse plástico, após anos de exposição à água e à luz, acaba convertido em pequenos fragmentos, microplásticos que vão parar dentro de peixes de todas espécies, incluindo aquelas levadas à sua mesa  em um belo almoço de domingo com a família.

A dimensão da poluição marinha causada pelo Brasil acaba de ser medida em um estudo inédito feito por cientistas e estudiosos da organização Oceana. Durante um ano e meio, os pesquisadores reuniram estudos técnicos e dados oficiais do próprio governo para traçar um perfil sobre o impacto que o plástico tem causado no mar brasileiro. O Estadão teve acesso exclusivo a esse relatório, que expõe a profundidade do problema gerado pelo descarte irregular do plástico e a urgência em se achar uma solução para o assunto.

O Brasil é o maior produtor de plástico na América Latina, responsável por colocar 6,67 milhões de toneladas desses itens na vida cotidiana das pessoas todos os anos. A maior parte desse material não é recolhido e quase 5% vai parar no fundo do mar. São 325 mil toneladas de lixo plástico por ano despejadas no Atlântico.

O cruzamento de informações revela que nada menos que 500 bilhões de itens descartáveis de plástico são produzidos anualmente pelo País. Isso equivale a 15 mil itens por segundo. São copos, talheres, sacolas e embalagens para todo tipo de uso. O problema se avoluma no momento em que grande parte desse material não é reutilizada, mas sim convertida em objeto de contaminação no minuto seguinte ao seu descarte.

Dada a pouca reciclagem do plástico, o material fica acumulado em aterros e lixões, isso quando não vai parar diretamente no meio ambiente, em áreas naturais, como o mar. As informações reunidas no relatório “Um oceano livre de plástico - desafios para reduzir a poluição marinha no Brasil” mostram que há taxas divergentes sobre o alcance da reciclagem de plásticos, mas confirmam que ao menos 77% do resíduo de plástico nacional está, de fato, acumulado em aterros, lixões ou disperso no meio ambiente.

A cientista marinha Lara Iwanicki, uma das responsáveis pelo relatório, explica que parte do problema se deve, de fato, à conscientização e educação da população sobre como lidar com o plástico. Antes disso, porém, Iwanicki chama a atenção para o papel crucial da indústria em geral, que tem ignorado o assunto e deixado de buscar alternativas que possam reduzir o uso e consumo do polímero.

“Fica conveniente transferir essa responsabilidade de tratamento e descarte só para o consumidor e os municípios, ignorando o fato daquilo que é colocado por toda a indústria no mercado. É preciso se voltar, também, para o início do problema, com o objetivo de reduzir a quantidade de plástico descartável produzida na fonte”, diz a cientista. “Incentivar a criação de outras alternativas de embalagens, por exemplo, tem o poder de impulsionar inovação, criar novos mercados para soluções criativas. Tem uma economia nova atrás disso.”

 

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No mundo, um caminhão de plástico é lançado no mar por minuto

Dados consolidados pela Oceana mostram que, em 2018, foram produzidas globalmente 359 milhões de toneladas de plástico, um aumento de 3,2% em relação ao ano anterior

André Borges, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2020 | 11h00

BRASÍLIA - Dono de uma costa marítima com 10.959 quilômetros de extensão, o Brasil dá uma ajuda considerável para amplificar o problema mundial do tratamento do plástico. A checagem dos tipos de materiais recolhidos em praias brasileiras mostra que 70% dos fragmentos são de plásticos, principalmente embalagens.

Hoje, ao menos 8 milhões de toneladas de plástico vão parar nos oceanos em todo o mundo. Isso equivale a um caminhão de lixo por minuto. É como se, a cada dia, 1.440 caminhões abarrotados de plástico fossem até a beira das praias mundo afora e despejassem uma montanha desse material nos oceanos.

Os dados consolidados pela Oceana mostram que, em 2018, foram produzidas globalmente 359 milhões de toneladas de plástico, um aumento de 3,2% em relação ao ano anterior. A China respondeu sozinha por 30% desse volume. A América Latina contribuiu com 4% do total. Não bastasse o fato de a produção aumentar, a maior parte desses itens não é reutilizada. Hoje, no mundo, apenas 9% de todo o resíduo plástico é reciclado.

“Sem mudanças imediatas na maneira como a sociedade está submetida ao uso do plástico descartável, a quantidade desse resíduo que entra no ambiente marinho triplicará nos próximos 20 anos, causando ainda mais danos ambientais, sociais e econômicos”, diz o diretor-geral da Oceana, Ademilson Zamboni.

As estimativas dão conta de que, desde o início da produção industrial dos primeiros polímeros, nos idos de 1907, até o ano de 2017, foram produzidas cerca de 9,2 bilhões de toneladas de plástico. Mais da metade desse volume, no entanto, foi produzido nos últimos 20 anos. As expectativas mais otimistas dão conta de que pelo menos 5 bilhões de toneladas de resíduos de plástico estão acumuladas. Muito desse material foi parar nos oceanos.

“Infelizmente, a reciclagem não acompanha o volume e a velocidade de produção de plástico descartável no País. O que agrava esse cenário é o fato de que esse processo não tem como alvo grande parte dos produtos descartáveis como canudos, talheres, pratos, copos e vasilhas para transporte de refeições”, diz a cientista marinha Lara Iwanicki.

No Brasil, das 2,95 milhões de toneladas de plásticos de uso único produzidas todo ano, 87% correspondem à categoria de embalagens em geral. Os demais 13% são produtos descartáveis como pratos, talheres, copos, sacolas plásticas e canudos. O descaso com a destinação desse material está refletido no mar.

A projeção é de que existem, pelo menos, 5 trilhões de pedaços de plásticos nos mares. A maior parte desse material está dispersa e é formada por pedaços pequenos demais (até um milímetro) para serem coletados por limpezas de praia ou em alto-mar. Como é biodegradável, leva centenas de anos para se decompor. Esse número tende a aumentar, uma vez que mais plástico continua a ser produzido. Mantido o ritmo atual, haverá 33 bilhões de toneladas de plástico em todo o planeta até 2050.

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Sem saber, ser humano já consome plástico até na cerveja

Cidadão do mundo ingere, por ano, algo entre 74 e 121 mil partículas desse material; não há consenso sobre como esse material tem afetado a vida humana

André Borges, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2020 | 11h00

BRASÍLIA - Não há como escapar. Está no ar, no açúcar, no sal, na água de torneira, na cerveja gelada. A presença de micropartículas de plásticos já faz parte do cotidiano de qualquer cidadão do mundo, que ingere, por ano, algo entre 74 e 121 mil partículas desse material.

Em agosto do ano passado, a Organização Mundial da Saúde divulgou o relatório (Microplastics in drinking-water), no qual analisa mais de 50 estudos sobre a presença de partículas e fibras plásticas em águas naturais, potáveis e de esgoto para avaliar os riscos à saúde humana. Não há consenso sobre como esse material tem afetado a vida humana. Partículas acima de 150 micrômetros são facilmente excretadas pelo organismo humano e, assim, não representariam grande risco à saúde. O que se sabe é que temos ingerido essas micropartículas por meio de ingestão e inalação. E comer plástico não parece a melhor das ideias.

Entre os dados consolidados pela Oceana estão resultados de uma pesquisa feita no ano passado por cientistas do Departamento de Biologia da Universidade de Victoria, no Canadá, que analisou as quantidades dessas partículas e diversos produtos e substâncias. A água engarrafada aparece no topo da lista daqueles que apresentaram maior presença de microplástico, seguida por cerveja, ar, água de torneira, frutos do mar, açúcar e sal.

Um estudo da Divisão de Gastroenterologia e Hepatologia da Universidade de Medicina de Viena, na Áustria, encontrou partículas de microplásticos em fezes humanas em indivíduos em oito países diferentes: Finlândia, Itália, Japão, Holanda, Polônia, Rússia, Reino Unido e Áustria. “Todos eles tinham tido contato com comida embalada por plástico e seis haviam comido peixes e frutos do mar durante o período de observação do experimento. Cerca de 95% das fezes continham 20 partículas de microplástico a cada 10 gramas”, afirma o relatório.

Os dados sobre a vida marinha são mais visíveis. Entre 2015 e 2019, foram feitas 29.010 necropsias de aves, répteis e mamíferos marinhos encontrados ao longo das praias das regiões Sul e Sudeste do Brasil. Desse total, 3.725 animais - entre golfinhos, baleias, aves e répteis - tinham ingerido algum tipo de detrito plástico. Aproximadamente 13% tiveram a morte diretamente associada ao consumo desses materiais.

 

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Gestão de plástico tem vácuo legal que precisa ser preenchido no Brasil

Especialistas afirmam que País tem hoje uma legislação frágil, que não traz efeitos práticos para controlar a produção desse material

André Borges, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2020 | 11h00

BRASÍLIA - A solução passa pelo Congresso Nacional. Os especialistas afirmam que o Brasil tem hoje uma legislação frágil, que não traz efeitos práticos para controlar a produção de plásticos no País, tampouco incentiva a busca de outras alternativas para substituir o material do dia a dia da população.

“O Brasil está bastante atrasado nessa discussão. Não existe pressão popular, enquanto vemos países desenvolvidos e em desenvolvimento aprovando legislação restritivas ao plástico”, diz a cientista marinha Lara Iwanicki. “A China é o maior produtor de plástico no mundo e aprovou uma legislação para reduzir o consumo interno até 2025. Países como a Índia proibiram a sacolinha de mercado. O mesmo aconteceu na União Europeia. Nos Estados Unidos, um projeto que está no Senado prevê, inclusive, o congelamento de novas plantas de produção de plástico.”

Em março do ano passado, o Ministério do Meio Ambiente lançou o seu Plano Nacional de Combate ao Lixo no Mar. O plano faz parte dos seis eixos da “Agenda Nacional de Qualidade Ambiental Urbana”, que inclui ações para qualidade do ar, águas, áreas contaminadas, áreas verdes urbanas e a gestão de resíduos.

Em junho deste ano, anunciou que coletou cerca de 400 toneladas de resíduos em praias do País, com mais de 200 ações de limpeza de praias, rios e mangues, em mais de 100 municípios, nos 17 Estados da costa nacional. Na avaliação dos especialistas, o governo tem apenas “enxugado o gelo”, em vez de tomar medidas mais efetivas de controle.

“Há lentidão na execução de recursos. Fora isso, não temos nenhuma lei que mire a produção, responsável por gerar um volume gigantesco. Faz parte da narrativa da indústria colocar a culpa no consumidor. Mas o fato é que as empresas de bens de consumo só colocam no mercado produtos altamente dependentes de plástico”, diz Lara Iwanicki. “É preciso abrir caminhos para uma transição, ter uma lei nacional que regulamente a oferta e o uso do plástico descartável, incentivando a substituição de produtos descartáveis por versões mais sustentáveis e recicláveis. Mais de 40 países já aprovaram legislação restritiva a esses itens.”

A palavra “plástico” tem origem no verbo grego plassein, que significa “moldar ou modelar”. A expectativa dos especialistas é de que essa mesma capacidade de flexibilidade chegue às leis federais, para que estas mudem e se adaptem à necessidade urgente de se tratar do plástico.

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