Kazuhiro Nogi / AFP
Kazuhiro Nogi / AFP

Sem coleta, cidade japonesa separa lixo em 45 categorias

São os próprios habitantes da vila de Kamikatsu, a sudoeste de Tóquio, que classificam seus resíduos. O objetivo final é reciclar tudo

Redação, AFP

23 de junho de 2019 | 21h02

Não há coleta de lixo na cidade de Kamikatsu, no Japão. São seus 1.500 habitantes se deslocam para o aterro sanitário, onde, pacientemente, classificam seu lixo em 45 categorias. O objetivo final é reciclar tudo. "Sim, é complicado", admite Naoko Yokoyama, um morador de 39 anos, no meio de um labirinto de contêineres e caixas no centro de classificação. "Mas desde que me mudei para cá há um ano, presto mais atenção ao meio ambiente."

As categorias variam de travesseiros a escovas de dentes, garrafas (dependendo do tipo de vidro), recipientes, objetos de metal. Localizada nas montanhas, a 530 quilômetros a sudoeste de Tóquio, a vila de Kamikatsu pretende reciclar todo seu lixo sem ter de enviar mais nada para os incineradores até 2020.

Embora os funcionários do centro de resíduos estejam lá para ajudar, não é pouco o trabalho dos locais, uma vez que, para facilitar a reciclagem, precisam lavar e secar sacos, embalagens e recipientes, enquanto alguns objetos exigem desmontagem. Em um canto, por exemplo, um homem usa um martelo para extrair as partes metálicas das prateleiras que ele trouxe. Em outro, os trabalhadores do centro de triagem cortaram uma mangueira longa de borracha em pedaços para mantê-la em uma das caixas. Para latas e plásticos, o centro dispõe de compressores.

Para facilitar a tarefa, um impresso sobre a aldeia, ilustrada com uma fotografia que a descreve como a mais bela do Japão, apresenta, em 16 páginas, uma infinidade de fotografias e desenhos de produtos, acompanhada por uma foto do recipiente ou da caixa a ser utilizada em seu descarte. Muitos municípios no Japão exigem a classificação de lixo, mas, geralmente, dentro de um pequeno número de categorias (plástico, latas, papel) e a maior parte do lixo doméstico é incinerado.

Kamikatsu não fugia à regra até que em 2.000 recebeu um ultimato: por não cumprir as normas antipoluição, uma de suas duas incineradoras deveria ser fechada. "Foi quando concluímos: se não podemos queimar, vamos reciclar", conta um funcionário da cidade, Midori Suga. "Custa menos do que incinerar."

Com uma taxa de reciclagem de 80% de suas 286 toneladas de resíduos produzidos em 2017, bem acima da média nacional de apenas 20%, a cidade se aproxima de sua meta. Por se situar em uma região montanhosa, imprópria para aterros, por enquanto, todo o restante é queimado.

Embora o Japão produza menos resíduos per capita do que a maioria dos países desenvolvidos, o País é o líder em resíduos plásticos per capita, logo atrás dos Estados Unidos. Até recentemente, o arquipélago exportava parte deles, especialmente para a China, mas Pequim não quer mais plástico japonês, gerando um acúmulo do material.

Os habitantes de Kamikatsu não têm ilusões. O sistema "funciona porque somos apenas 1.500 pessoas", explica Yokoyama, natural de Kyoto."É claro que incinerar é fácil", conta Saeko Takahashi, lavando as caixas de leite e amarrando seus jornais. "Mas é melhor reciclar, para não desperdiçar." No mais, ele utiliza um recipiente de fertilizante para restos de carne e peixe e joga as cascas de frutas e legumes diretamente no seu jardim. "Os alimentos duram mais tempo embrulhados em plástico, mas não há necessidade de aumentar o número de camadas", diz o morador.

Segundo Kazuyuki Kiyohara, de 38 anos, gerente de aterro, o plástico é o material que mais chega ao local e seu consumo diminuiu pouco. "Nosso modo de vida depende do plástico", afirma ele. "Os consumidores podem reduzir o desperdício até certo ponto, mas sempre teremos algum, enquanto produzirmos plástico".

As caixas para refeições que são usadas maciçamente, o envoltório de bananas ou tomates, os sacos, as colheres ou canudos distribuídos em todos os lugares. O Japão está longe de ver eliminado o plático. No entanto, em 2018, o governo anunciou a meta de reduzir por um quarto, até 2.030, sua produção anual de resíduos, que foi de 9,4 milhões de toneladas.

Empresas privadas tomam iniciativas, mas dentro de um cronograma que parece estar muito aquém das disposições já adotadas em outros países, de modo a não alarmar, abruptamente, fornecedores e clientes. "Não devemos nos concentrar apenas nos resíduos", diz Suga. "Precisamos de políticas que limitem sua produção", conclui.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.