JORGE SILVA/REUTERS
JORGE SILVA/REUTERS

Secretário-geral da ONU muda de postura climática

Frustrado com as negociações para cortar emissões, Ban Ki-moon vai focar sua agenda em energias renováveis e sustentabilidade

The Guardian

27 Janeiro 2011 | 17h34

O secretário-geral da ONU Ban Ki-moon, que fez do aquecimento global sua missão pessoal, está encerrando seu envolvimento nas negociações internacionais para as mudanças climáticas.

 

Em uma transição estratégica, o secretário vai redirecionar seu discurso atual, focado na negociação de metas internacionais para o clima, para uma agenda mais abrangente, que promova energia limpa e desenvolvimento sustentável, segundo oficiais das Nações Unidas.

 

A mudança se deve à percepção de que, após o intenso involvimento de Ban Ki-Moon na fracassada COP-15 do clima em Copenhague, em 2009, os líderes mundiais ainda não estão preparados para entrar em acordo sobre o aquecimento global.

 

“É bem evidente que não haverá um grande acordo a curto prazo”, disse Robert Orr, secretário-assistente das Nações Unidas para o planejamento estratégico e um conselheiro chave de Ban Ki-Moon. Os oficiais da ONU afirmam também que ele não se envolverá a fundo nas negociações da próxima Convenção sobre Mudanças Climáticas da entidade, que acontece em dezembro de 2011, em Durban, na África do Sul.

 

“Ele vai continuar a encorajar os líderes a focar em metas ambiciosas, mas não terá mais o compromisso com negociações do dia-a-dia”, afirmou outro funcionário da ONU. Ban vai focar em questões mais gerais acerca da sustentabilidade, que serão discutidas principalmente na Rio +20, conferência sobre ecodesenvolvimento que será sediada no Rio de Janeiro em 2012, 20 anos depois da Eco92, também no Rio.

 

Os principais negociadores climáticos globais, que acompanham o andamento das discussões, insistem que Ban Ki-moon não está deixando o compromisso de encontrar uma solução para o efeito estufa de lado. A conclusão do secretário-geral da ONU parece influenciá-los também: o foco em tecnologias para a energia limpa e eficiência energética tem sido adotado entre os países, e acredita-se que ele pode fazer mais pela redução de emissões a curto prazo.

 

“A ideia de que o mundo vai entrar em um acordo e determinar metas de emissão entre todos os países é provavelmente utópica nesse ponto”, disse Reid Detchon, vice presidente de clima e energia da United Nations Foundation, instituição de pesquisa de Washington.

 

A equipe de Ban Ki-moon para o clima, que tinha doze pessoas, diminuiu para cinco. Já a equipe de assessores para o desenvolvimento sustentável vai passar a ter doze pessoas até a Rio +20.

 

“O que se movimenta mais rápido são os investimentos em energias renováveis, que podem promover mudanças mais rapidamente”, disse Tariq Banuri, diretor da divisão de desenvolvimento sustentável do departamento da ONU de relações sócio-econômicas.

 

A mudança de postura do secretário-geral também espelha o pensamento de Washington, onde os ambientalistas estão tentando conseguir progresso nas votações sobre mudanças climáticas no Congresso ou ajuda regulatória da Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês).

 

Ban disse repetidamente que vê o aquecimento global como o grande desafio desta geração. Em Copenhague, chegou a afirmar que os ministros de meio ambiente e burocratas não poderiam assinar acordos climáticos e afirmar compromisso se as economias dos seus países não fossem repensadas.

 

A postura anterior do secretário-geral funcionou em 2007, quando ele conseguiu prevenir um colapso do encontro do clima em Bali, por conta da recuusa do ex-presidente americano George W. Bush em cortar emissões. Porém, as esperanças elevadas por um acordo final em Copenhague resultou em frustração. Uma tentativa de última hora para o entendimento entre os grandes poluidores não foi completamente aceita pelos 190 países envolvidos na conferência.

 

Em Cancún, no ano passado, as discussões aparentemente foram colocadas de volta aos trilhos. Alguns veem o aparente descompromisso de Ban Ki-moon como um sinal de confiança no processo de negociação.

 

“Esta nova fase de negociações está mais amadurecida, com perspectivas de definição de regras”, disse Jennifer Morgan, que dirige o programa de clima e energia no World Resources Institute, entidade de pesquisa também sediada em Washington. “O sucesso moderado de Cancún vai permitir que o processo volte a ser o que normalmente é.” 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.