Seca de rio e búfalos afetam sustento de comunidade babaçueira

A professora Maria Antônia dos Santos tem 72 anos e nunca tinha visto um rio secar. Este verão foi inédito: o Igarapé dos Mistérios, riacho da região de Cajari, no Maranhão, sumiu. Mesmo pouco profundo, o canal era fundamental para a atividade de pesca e transporte de pessoas entre as ilhas da região.Os campos ao redor de Cajari, dentre eles o da ilha do Quilombo de Camaputiua, também sofrem com a presença de mais de 500 búfalos nas terras de lavoura e nas margens de canais. Os animais são mantidos ali por fazendeiros, que destinam seu gado ao corte de carne e à produção leiteira. E viraram motivo de preocupação para os moradores, que responsabilizam os búfalos pela devastação de lavouras e pela poluição dos riachos, os igarapés.O animal tem hábitos incompatíveis com o bioma amazônico e sua presença provoca impactos socioeconômicos graves, ao prejudicar a pesca, a extração do coco de babaçu e o cultivo de milho e mandioca, seja para o consumo próprio ou para a venda. “A poluição já diminuiu a quantidade de peixe aqui no igarapé, e nossa renda também, né?”, diz Maria Antônia. A cada três refeições que se faz na região, duas têm o peixe como alimento principal. Nas épocas boas, o quilo do pescado mais barato custa R$ 6. Entre dezembro e março, período chamado de verão seco, o valor pode duplicar.Aposentada há três anos, ela é uma das líderes do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) e busca recursos no Programa de Pequenos Projetos Ecossociais para preservar a região. O objetivo é fazer plantios nas áreas degradadas dos babaçuais e igarapés. “Sem a vegetação e a água, a gente fica sem comida e sem renda”, diz Maria Antônia sobre a Ilha de Camaputiua, onde vive desde que nasceu.O Quilombo de Camaputiua tem área de 364 hectares. Sem saneamento básico, a questão da água ali passa por falta de política pública, invasões de fazendeiros que cercam as nascentes, falta de fiscalização e descuido de parte da população. “Por diversos motivos, as populações padecem de desinformação, o que gera atitudes que muitas vezes comprometem os recursos naturais”, diz Mara Regia Di Perna, apresentadora dos programas Natureza Viva e Viva Maria, transmitidos pelas emissoras de rádio Empresa Brasil de Comunicação. Ambos discutem a sustentabilidade no cotidiano das mulheres da Amazônia.Mara Regia, que acompanha os processos da região há 30 anos, acredita que não há ali projetos de educação continuada com as mais de 130 famílias do quilombo, num total que quase mil pessoas. A apresentadora diz que algumas ações na região demonstraram que o consumo consciente da água precisa, antes de tudo, do reconhecimento das culturas, tanto pelos próprios moradores quanto pelas instituições. “Isso promove apoio à economia sustentável praticada por esses povos”.* Sara Abdo é aluna da PUC-SP e finalista do 3º Prêmio Tetra Pak de Jornalismo Ambiental 

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