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Schurmanns veem o mundo se modificar

Família que navega há 30 anos pelo planeta enxerga o impacto das mudanças climáticas e da proliferação do lixo nos locais que visita

Giovana Girardi, O Estado de S. Paulo

12 Outubro 2015 | 03h00

SÃO PAULO - Com a experiência de mais de 30 anos velejando pelos mares do mundo, a família Schurmann começa a colecionar exemplos das mudanças que o planeta vem sofrendo. De impactos que parecem resultado do aquecimento global à proliferação da poluição e do lixo e à redução da oferta de peixes, o grupo liderado pelo capitão - e pai - Vilfredo Schurmann tem buscado ao longo de sua nova viagem, batizada de Expedição Oriente, alertar o Brasil e o mundo para a necessidade de proteger melhor os oceanos.

Uma das coisas que mais impressionaram a família foi o sumiço de uma plataforma de gelo na Patagônia chilena. “Há 17 anos passamos pelo glaciar Pio XI, um dos maiores do mundo, e ele vinha até o mar. Uma torre de 30, 40 metros de altura e 3 km de largura. Era o maior glaciar dos 48 do Campo de Gelo Sul - a terceira maior extensão de gelo continental do mundo, depois da Antártica e Groenlândia”, lembra Vilfredo, que afirma ter enfrentado muito gelo e temperaturas muito baixas na primeira vez em que esteve no local.

“Agora foi um susto. Há uma praia de 500 metros onde antes era gelo”, registrou quando a família voltou à região, no mesmo período do ano em que tinham ido originalmente.

A expedição a bordo do veleiro Kat começou em 21 de setembro do ano passado e continua até dezembro do ano que vem, período em que eles devem passar por quatro oceanos, cinco continentes e 50 portos no Hemisfério Sul.

Observações como a do glaciar Pio XI, além de relatos de moradores das regiões que experimentam mudanças, estão sendo registrados em vídeos divulgados no site do Observatório do Clima, coalizão brasileira com mais de 30 organizações da sociedade civil.

Ainda no Chile, Vilfredo conta que se espantou com a quantidade de salmoneiras - criadouros artificiais de salmão. “Antes não havia tantas. A maioria até segue um rigoroso padrão de qualidade, mas ainda assim pode haver contaminações.”

Do lado argentino da Patagônia, a família relata que as fêmeas de pinguins parecem estar se deslocando em distâncias cada vez maiores para pescar. “Os filhotes ficam muito tempo sozinhos. Filmamos um tentando ir ao mar desesperado buscando comida, mas os adultos acabavam expulsando ele”, conta Vilfredo.

Da costa oeste da América do Sul, eles subiram até a Ilha de Páscoa, onde ouviram de Sebastián Paolla, pesquisador e guia turístico, como os antigos moradores acabaram com todas as florestas do local. “O que aconteceu em Páscoa é o que está acontecendo com o mundo. Páscoa é exemplo mundial de como uma população que chegou ao seu esplendor, com todas as tecnologias possíveis em um lugar, terminou se destruindo por inabilidade do homem, por sua incompetência, por não saber administrar os seus recursos de forma sustentável”, disse Paolla aos exploradores.

Lixo. O passo seguinte foi a Ilha Ducie, no Pacífico, onde a família registrou uma quantidade enorme de lixo, principalmente plástico e boias.

Outra história que lhes chamou a atenção foi o Atol de Mopélia, na Polinésia Francesa, onde os moradores contaram para os exploradores que a maré mudou. “Antigamente, a maré subia e descia, mas temos dias em que ela sobe e chega a ficar até três dias altas sem baixar. E sobe muito mais do que antes”, relatou Adrienne Raioho. Segundo ela, o clima está muito mais quente e já afeta a reprodução dos pássaros. “Com temperaturas mais elevadas, alguns ovos de pássaros e alguns filhotes acabam não resistindo.”

Outras mudanças nos oceanos foram sentidas na própria rotina dos exploradores. “Lembro que, na nossa primeira viagem, a gente colocava a linha para pescar e em pouco tempo já pegava dois ou três peixes. Agora, já navegamos por quase 6 mil milhas e pegamos no máximo seis peixes ao longo de todo o período. Nos parece que tem menos peixe e muito mais lixo no oceano”, conta Vilfredo.

Ele reconhece que não trabalha com dados científicos. Mas, como diz, o mar é o quintal de sua casa. “Sabemos que hoje as coisas podem ainda não estar dramáticas, mas, em 50 anos, podem ser fatais se nada for feito para evitar a degradação e as mudanças climáticas.”

Pesquisa. Durante esta expedição, a família Schurmann deu início também a um trabalho inédito com o pesquisador Rubens Lopes, do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo (USP), para coletar e fotografar amostras de plâncton ao longo de todo o trajeto que eles vão fazer.

Um pequeno sistema de monitoramento foi acoplado à embarcação para capturar imagens dos organismos microscópicos que estão na base da cadeia alimentar marinha, além de partículas em suspensão na água. Ele também mede temperatura e salinidade da água e vai permitir avaliar, após cruzamento com imagens de satélite que apontam as cores dos oceanos, a concentração de fitoplâncton nas diversas partes por onde o veleiro passar.

O trabalho é um piloto que, se bem-sucedido, poderá ajudar no desenvolvimento de um tipo de plataforma de amostragem que possa ser disseminada para outras embarcações de modo a possibilitar um monitoramento em escala global. “Poderá ser uma ferramenta para entender as mudanças climáticas.”

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