Satélites em hora extra, alerta para a Amazônia

Risco de pane em dois equipamentos que fornacem dados sobre a floresta pode afetar monitoramento em 2011

Herton Escobar, O Estado de S. Paulo

29 Setembro 2010 | 13h05

O ano que vem será tenso e potencialmente caro para o monitoramento da Amazônia. O satélite americano Landsat-5, que produz as imagens usadas pelo Inpe para gerar os mapas e calcular as taxas de desmatamento na região está com problemas técnicos e pode pifar a qualquer momento. “A situação é real, e é preocupante”, diz o diretor do Inpe, Gilberto Câmara.

 

O satélite indiano Resourcesat-1, que seria a alternativa imediata ao Landsat, está em situação semelhante. Ambos estão cumprindo hora extra no espaço, com prazo de validade operacional expirado há vários anos. Se pararem de funcionar antes de agosto de 2011, o Inpe será obrigado a comprar imagens de satélites comerciais para fazer o Prodes do ano que vem.

 

O Prodes calcula a taxa anual de desmatamento comparando imagens selecionadas do período julho-agosto de um ano a julho-agosto do ano anterior, preferencialmente. Isso porque os satélites não enxergam através de nuvens, e esses são tipicamente os meses de menor nebulosidade na Amazônia.

 

As imagens do Landsat-5 e do Resourcesat-1 são gratuitas – um fator essencial para a continuidade dos trabalhos no Inpe. Calcular o desmatamento usando imagens comerciais, segundo Câmara, custaria cerca de US$ 2 milhões só para o Prodes, sem contar os outros programas de monitoramento, como Deter e Degrad, que também dependem desses satélites para qualificação de dados. “Se isso acontecer, porém, será só por um ano”, ameniza o diretor do Inpe.

 

Para cumprir esse prazo, Câmara conta com o lançamento do novo Satélite Sino-Brasileiro de Recursos Terrestres (CBERS-3), previsto para daqui a um ano – mas que já foi adiado diversas vezes, de 2008 para 2009, de 2009 para 2010, e agora, para outubro de 2011. Equipado com quatro câmeras de diferentes resoluções (duas delas melhores que a do Landsat), o CBERS-3 terá tecnologia suficiente para servir tanto o Prodes quanto o Deter. Se não for lançado ou não funcionar como previsto, porém, o País continuará a depender de dois satélites moribundos para calcular o desmatamento na Amazônia.

 

O Resourcesat-2, substituto do Resourcesat-1, deve ser lançado ainda este ano, mas não há garantia de que o Brasil terá acesso livre às suas imagens. E o próximo Landsat só deverá chegar ao espaço em 2012, deixando o CBERS-3 como única opção “garantida” de imagens gratuitas para o Prodes em 2011. “Será um ano crítico”, reconhece Câmara.

 

Também está em construção no Inpe o satélite Amazônia-1, equipado com uma câmera de 40 metros de resolução e com lançamento previsto para 2012. Juntos, o CBERS-3 e o Amazônia-1 darão ao Inpe a capacidade de obter imagens de toda a Amazônia, em alta resolução, a cada três dias. Uma capacidade vital para a continuidade do programa Deter, à medida que o desmatamento se torna cada vez mais pulverizado. As imagens usadas atualmente, do sensor Modis (com resolução de 250 metros), só permitem detectar desmates maiores do que 25 hectares. E com precisão mesmo, só acima de 50 hectares.

 

Cientes disso, os desmatadores mudaram de estratégia. Em 2002, os desmates menores do que 50 hectares eram cerca de 30% do total. Agora, passam de 70%. “Estão matando o Deter”, alerta o coordenador do Programa Amazônia do Inpe, Dalton Valeriano. “Precisamos nos adaptar a essa nova realidade.”

 

Sem nuvens

 

A partir de 2011, segundo Dalton, o Inpe também começará a usar imagens de radar do satélite japonês Alos, que permite enxergar através das nuvens. O Ibama já faz isso desde 2008, por meio de uma parceria com a Agência de Exploração Aeroespacial Japonesa, para complementar as imagens do Deter. “Só olhamos o que está debaixo de nuvens, para não perder tempo refazendo o trabalho do Inpe”, diz o coordenador de Monitoramento Ambiental do Ibama, George Porto Ferreira.

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