Russos estão a cinco metros do maior lago subterrâneo da Antártida

Cientistas acreditam que o Lago Vostok esconde formas de vida pré-históricas ou ainda desconhecidas

Reuters

04 de fevereiro de 2011 | 20h01

Por 15 milhões de anos um lago escondido pelo gelo ficou inacessível no coração da crosta congelada da Antártida, escondendo possivelmente formas de vida pré-históricas ou ainda desconhecidas. Agora, cientistas russos estão prestes a penetrar no local, revelando seus segredos.

"Falta só um pouquinho para chegarmos", afirmou Alexei Turkeyev, chefe da estação polar russa Vostok. Sua equipe perfurou camadas de gelo por semanas em uma corrida para alcançar o lago, a 3.750 metros de profundidade, antes do final do breve verão antártico.

Ali foi registrada a menor temperatura já observada na Terra - menos 89.2 °C. Com a rápida chegada do inverno, os cientistas serão forçados a sair da região no último vôo da estação, no próximo dia 6.

"Está menos 40 °C lá fora, mas aconteça o que acontecer, estamos trabalhando. Estamos nos sentindo bem até agora. Só faltam cinco metros para chegarmos ao lago e esperamos que seja em breve."

Os cientistas suspeitam que as águas do lago vão revelar novas formas de vida, além de mostrar como era o planeta antes da era do gelo e como a vida evoluiu. Acham ainda que o local pode possibilitar um vislumbre das condições para desenvolvimento de vida na lua de Marte e Júpiter - chamada Europa.

"É como explorar um outro planeta onde ninguém esteve antes. Não sabemos o que iremos encontrar", afirmou Valery Lukin, do Instituto Russo de Pesquisas dos continentes Ártico e Antártico.

Corrida exploratória

Cem anos depois da primeira expedição ao Pólo Sul, a descoberta de uma rede de lagos subterrâneos via imagens de satélite nos nos anos 1990 provocou uma nova febre exploratória entre os cientistas ao redor do mundo.

Exploradores americanos e ingleses estão na trilha dos cientistas russos com missões de chegar a outros lagos subterrâneos, alguns dos últimos locais inexplorados do planeta.

 

"É um ambiente de características extremas mas deve ser habitável. Se for, nossa curiosidade nos levará a entender o que existe lá. Que tipo de vida?", pergunta-se Martin Siegert, chefe da Faculdade de Geociências de Edimburgo, que está comandando uma expedição britânica para um lago polar um pouco menor.

Os especialistas dizem que a camada de gelo atua como um edredon, aprisionando o calor geotérmico da Terra e impedindo que os lagos congelem. Os sedimentos do lago podem levar os cientistas a voltar no tempo em milhões de anos, para uma época préhistórica tropical.

Oásis sob o gelo

O Lago Vostok, mais ou menos do tamanho do Lago Baikal, na Sibéria, é o maior, mais profundo e isolado dos 150 lagos subglaciais encontrados na Atrártica. Está supersaturado com oxigênio, não sendo conhecido, na Terra, nenhum outro ambiente do gênero.

"Os russos estão iluminando o caminho com uma tocha", afirmou John Priscu, da Universidade do Estado de Montana, chefe da expedição americana que explora outro lago. "Acredito que o Lago Vostok seja um oasis de vida sob o gelo. Seria realmente incrível que tivéssemos amostras de lá. Mas até que saibamos como chegar ao sistema lacustre da forma menos impactante possível, isso permanece como uma questão a se discutir."

As edificações e torres de rádio da estação Vostok foram construídas sobre a capa de gelo que protege o enorme lago. O poço que serve à estação usa querosene e freon para se manter sem risco de congelamento e está suspenso sobre o lago intocado.

Os exploradores agora estão diante do seguinte desafio: como chegar ao lago sem danificá-lo e sem correr o risco de trazer à tona algum vírus desconhecido?

"Estou muito animado com as perspectivas. Mas sabemos que, uma vez consumada a iniciativa, não há volta", diz Alexei Ekaikin, cientista da expedição russa ao Lago Vostok.

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