Rússia quer transferir excedente de créditos para novo acordo

A resistência do terceiro maior emissor mundial por produção de energia pode prejudicar negociações

Philip P. Pan, do Washington Post

01 Dezembro 2009 | 13h50

A Rússia está no caminho certo para ultrapassar em muito as suas metas de redução das emissões de gases de efeito de estufa no Protocolo de Kyoto, mas o seu sucesso poderia descarrilar os esforços para alcançar um novo acordo global contra o aquecimento, de acordo com analistas que acompanham as negociações. 

 

O que está em questão é o enorme excedente de créditos de carbono que a Rússia - o terceiro maior emissor mundial de gases de efeito estufa relacionados a produção de energia - está acumulando, por manter as emissões bem abaixo dos limites generosos previstos no Protocolo de Kyoto.

 

O Kremlin tem insistido que os créditos devem continuar válidos para um novo acordo, mas ambientalistas dizem que isso poderia aleijar qualquer tratado, tornando muito mais barato para os países comprar créditos do que cortar emissões. "Você tem um elefante na sala, e ninguém está prestando atenção", disse Samuel Charap, um especialista em Rússia do Centro de Progresso Americano, em Washington, argumentando que o governo Obama precisa discutir a questão com os líderes russos. 

 

É improvável que isso seja resolvido quando os líderes mundiais estiverem reunidos no próximo mês em Copenhague para o encontro internacional sobre mudanças climáticas, e Charap e outros alertam que o acúmulo de créditos da Rússia pode contribuir para estragar as negociações na última hora. "Se você quiser um acordo ambicioso, então a resistência potencial da Rússia pode ser extremamente prejudicial", disse ele.

 

Quando o Protocolo de Kyoto expirar, em 2012, a Rússia deverá registrar a maior queda absoluta nas emissões, a partir dos níveis de 1990, do que qualquer um dos países que assinaram o tratado. Mas a queda é quase inteiramente resultado do colapso da economia soviética em 1991, e não de medidas ambientais por parte do governo. Críticos dizem que Moscou não merece manter seus créditos de carbono, porque não os conquistou por nenhum esforço especial. 

 

A Rússia diz que a forma com que as suas emissões despencaram é irrelevante. E o que importa, para negociadores russos, é que a redução foi real e substancial - grande o suficiente para anular o aumento das emissões nos Estados Unidos durante o mesmo período. Eles retratam o assunto como uma questão de justiça e de orgulho nacional, relacionando muitas vezes a redução de emissões à grave situação econômica que o país sofreu em 1990. 

 

"Pode não ter sido intencional, mas passamos por muitos momentos difíceis e pagamos um alto preço por essa redução", disse Igor Bashmakov, diretor do Centro para a Eficiência Energética em Moscou, que

aconselhou o Kremlin sobre as políticas para mudanças climáticas. "Nós já fizemos, enquanto outros países estão apenas falando sobre isso." 

 

Ele disse que é importante estender a validade do superávit de carbono da Rússia para reconhecer a sua contribuição ao esforço global e estabelecer uma "reserva estratégica" de créditos que permita aos líderes russos comprometer-se a novas reduções de emissões com confiança. 

 

Tal como as nações em desenvolvimento do mundo, a Rússia disse que precisa prosseguir com políticas de crescimento rápido, que aumentam as emissões, porque o padrão de vida russo ainda é inferior ao dos países mais ricos. 

 

Em junho, a Rússia ofereceu limitar, até 2020, suas emissões em mais de 10% a 15% abaixo dos níveis de 1990, uma meta modesta amplamente criticada por grupos ambientalistas, pois teria permitido uma aceleração no crescimento das emissões. Mas os líderes europeus disseram este mês que o Presidente Dmitry Medvedev havia sinalizado, a portas fechadas, uma vontade de comprometer a Rússia a permanecer 20% a 25% abaixo dos níveis de 1990 até 2020. 

 

Para atender a essa nova meta sem desaceleração do crescimento econômico, Bashmakov disse que a Rússia precisa cumprir os ambiciosos planos de melhorar a eficiência energética e ampliar o uso das energias renováveis. Como essa tarefa é muito difícil, disse ele, a Rússia precisa manter o seu excedente de carbono como uma reserva. 

 

Mas o co-presidente do grupo ambiental local Ecodefense, Vladimir Slivyak, disse que a Rússia deveria estabelecer uma meta mais desafiadora - manter os níveis atuais de emissões até 2020 - e desistir de seu excedente de carbono. "Nós não precisamos dele, e isso não nos ajuda a cortar emissões", disse ele. 

 

Ao utilizar os níveis de 1990 como linha de base, o tratado de Kyoto, na verdade, deu passe livre para a Rússia e outras nações do ex-bloco soviético, porque as emissões das suas indústrias já enfraquecidas

já se encontravam muito abaixo desse nível quando o pacto foi assinado em 1997. 

 

Sob os termos do sistema de troca de carbono de Kyoto, um país que tenha dificuldade de atingir sua meta de redução pode comprar créditos de outro que reduziu as emissões para além da sua meta. Em teoria, o total da redução global continuaria o mesmo. Mas os subsídios generosos concedidos às antigas nações comunistas criaram o que os críticos chamam de `` ar quente '' - créditos não associados a nenhuma nova redução. 

 

O diretor do Center for Clean Air Policy em Washington, Ned Helme, disse que se a Rússia tiver permissão para manter seu superávit, a Polônia e outros países do Leste Europeu também podem insistir em fazê-lo - e a União Européia se opõe a isso. 

 

O superávit russo deverá crescer de 5 a 6 bilhões de toneladas de dióxido de carbono até 2012, e outras nações do Leste Europeu poderiam aumentar seus excedentes totais de créditos para 7 a 10 gigatoneladas, de acordo com Anna Korppoo, pesquisadora sênior do Instituto Finlandês de Assuntos Internacionais. Para ela, se fosse transferido, o excedente "desafiaria a integridade ambiental do pacto" por forte aumento das emissões globais. 

 

Sergei Tulinov, um membro da equipe de negociação russo, disse que é muito cedo para discutir o superávit porque não está claro que tipo de sistema de comércio de carbono seria estabelecido por um novo tratado. "A questão é muito importante para nós, mas uma discussão construtiva só é possível se houver acordo sobre os elementos gerais do regime", disse ele. 

 

A Rússia também exigiu que um novo tratado deverá reconhecer o papel que suas vastas florestas desempenham na absorção de emissões de carbono. Ambientalistas são céticos, questionando as estatísticas oficiais sobre o tamanho das florestas russas e avisando que incêndios florestais imprevisíveos poderiam rapidamente prejudicar os cálculos. 

 

Mas o diretor do Centro de Economia Ambiental na Universidade Estatal de Moscovo, George Safanov, disse que o pedido representa um oportunidade para a cooperação com os Estados Unidos, um dos poucos países restantes com florestas consideráveis do tipo que possa absorver as emissões. Os dois países podem trabalhar juntos para elaborar normas de preservação e promover uma melhor gestão das florestas, disse ele.

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