Rodolfo Pongelupe/Fundação Amazônia Sustentável
Vista aérea da comunidade ribeirinha que recebeu o projeto piloto de energia solar em Santa Helena do Inglês, no Rio Negro, em Iranduba (AM)  Rodolfo Pongelupe/Fundação Amazônia Sustentável

Em iniciativa pioneira, ribeirinhos captam e utilizam energia solar na Amazônia

Sistema de 132 painéis, implementado em cidade próxima de Manaus, garante luz para 32 familias

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2021 | 14h00

Na comunidade de ribeirinhos de Santa Helena do Inglês, localizada a 40 quilômetros de Manaus, uma iniciativa pioneira leva conforto e praticidade aos moradores que sonhavam com uma convivência sustentável com o ambiente amazônico. Desde junho, ribeirinhos locais começaram a receber luz de um sistema de captação de energia solar.

Integrante também da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Rio Negro, no município de Iranduba (AM), o projeto é parte de um programa chamado "Sempre Luz", uma parceria da Fundação Amazônia Sustentável (FAS) com a empresa Unicoba.

De acordo com o projeto, o sistema foi instalado em todas as casas e propriedades privadas, além de consumidores de energia como igreja, centro comunitário, escola e iluminação pública. A luz por energia solar beneficia 32 famílias, cerca de 100 pessoas, que moram na comunidade, por meio de uma solução de tecnologia considerada inovadora e sustentável e aprovada pelos ribeirinhos e comunidades indígenas.

O sistema de captação solar tem 132 painéis, 54 baterias de lítio e 9 inversores híbridos de última geração, informam os técnicos da FAS. A central de energia solar fica em uma área aberta da comunidade. O projeto está ainda na fase piloto, mas já em funcionamento, fornecendo energia do sol para Santa Helena do Inglês.

De acordo com informações da FAS, as baterias de lítio apresentam vantagens em relação às de chumbo, que também são usadas nos sistemas. A FAS sustenta que o material é menos agressivo, tem maior durabilidade, segurança e a tecnologia permite o monitoramento remoto e a garantia de seu correto funcionamento.

O projeto pretende avaliar e documentar o uso como forma de validar a utilização do sistema também em outros locais. Pelos planos da FAS, a ideia é que até dezembro a energia solar alcance outras comunidades, como Boa Frente, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) do Juma, em Novo Aripuanã, além da comunidade do Bauana, RDS de Uacari, em Carauari; e na aldeia Munduruku, em Nova Olinda do Norte.

 

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Produtos da floresta, ecoturismo e parcerias: caminhos para proteger a Amazônia

Iniciativas solidárias, pesquisas e parcerias apontam formas de recuperar principal bioma do Brasil

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2021 | 14h00

Em um cenário de devastação ambiental da Amazônia, têm surgido ações que mostram que é possível salvar a maior floresta tropical do mundo e ainda lucrar com isso. São iniciativas que servem como inspiração para o presente e o futuro da Amazônia, mesmo diante das adversidades.

A destruição alcançou 813 mil km² em 2020, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), com o número de focos de fogo chegando a 130 mil no ano. Os efeitos da devastação aparecem no amplo estudo “Fatos da Amazônia”, publicado no site Amazônia 2030, plataforma que reúne documentos sobre a crise ambiental. Os estudos mostram a destruição da natureza no Brasil em dois macroambientes: o bioma Amazônia e Amazônia Legal.

Segundo o estudo dos pesquisadores Daniel Santos, do Centro de Empreendedorismo da Amazônia; Rodney Salomão, consultor; e Adalberto Veríssimo, pesquisador associado, do Imazon, a Panamazônia tem área de 7,8 milhões de metros quadrados que abrange nove países, com população estimada em 38 milhões. É um “conjunto de ecorregiões, fauna, flora e dinâmicas e processos ecológicos similares”, com florestas tropicais úmidas, extensa rede hidrográfica e enorme biodiversidade. Só o Brasil tem metade do bioma.

O tamanho da crise ambiental e os impactos provocados pela devastação na região são gigantescos, mas florescem na sociedade civil brasileira entidades que lutam pela preservação do verde e têm ações em busca de soluções para evitar uma tragédia ecológica sem volta. Mesmo enfrentando resistências legais, pressão crescente por desmatamento e cortes no volume de recursos públicos, há iniciativas solidárias, pesquisas e parcerias apontando o rumo da recuperação do ecossistema. Entre os bons exemplos estão cooperativas, ribeirinhos que captam e utilizam energia solar, ecoturismo e novas técnicas de produção que mostram como produzir mais carne sem grilagem. Veja mais detalhes nessa reportagem especial.

Produtos da floresta

Uma cooperativa de 172 pequenos e médios produtores rurais de Tomé-Açu, 240 quilômetros ao sul de Belém, explora recursos naturais da Amazônia. Com um faturamento na casa dos R$ 46,5 milhões anuais, a Cooperativa Agrícola Mista de Tomé-Açu (Camta) produz e vende polpa de frutas, pimenta-do-reino e cacau, sementes oleaginosas para produção de manteigas de cupuaçu e maracujá.

A produção é para São Paulo, além de Argentina e Japão. Este ano, apesar da pandemia, a Camta cresceu 10 a 15%. Mas o movimento já foi bem maior: em 2015, chegou a R$ 80 milhões, diz o seu gestor de agronegócios Márcio Siqueira Moura. Ele explica que a cooperativa atua com produtores rurais do lugar, gerando emprego e renda. O número de beneficiados pode chegar a 5 mil pessoas.

De acordo com o professor Salo Coslovsky, brasileiro que ensina na Universidade de Nova York e pesquisa o tema, há hoje uma cesta de 64 produtos que podem ser explorados na floresta sem provocar danos ao meio ambiente. Para o pesquisador, que publicou estudo sobre o tema no site Amazônia 2030, quando se fala de desenvolvimento, na região, se fala de crédito de carbono, na descoberta de moléculas, enzimas e fármacos, que estão escondidos na floresta.

Agregar valor. “Há também o que se chama de agregação de valor, ou seja, processar localmente os produtos. Ou seja: em vez de vender o óleo, fazer o xampu. Em vez de vender o cacau, produzir o chocolate. E também criar um comércio justo, que é a empresa remunerar melhor os fornecedores.”

Mas o professor acha que “é preciso fazer mais e melhor o que já é feito”. Ele analisou bases de dados sobre exportações com ênfase na Amazônia e os comparou com o exterior, verificando “quem vende o que e para quem”.

São 5 mil produtos de um catálogo unificado. Na pesquisa, observou cerca de mil produtos que a Amazônia já exporta. Dez são os pesos-pesados, como minério de ferro, cobre, alumínio, soja, gado. Mas há uma lista de cerca de 950 em quantidades menores feitos com qualidade. E encontrou 64 que são compatíveis com a floresta em pé – castanha, açaí, cacau, pimenta, dendê, abacaxi, manga, além de temperos, como a pimenta. “Descobri no estudo que esses 64 produtos já trazem uma receita de quase US$ 300 milhões por ano.”

Segundo ele, o mercado global desses produtos atinge hoje quase US$ 180 bilhões. E a Amazônia brasileira, com 30% das florestas tropicais do mundo, tem uma participação abaixo de 0,2%.

Parcerias

Montar uma política de parcerias para combater o desmatamento e as desigualdades. Com essa abordagem, é possível reduzir o impacto danoso da devastação na Amazônia, defende Virgilio Viana, superintendente-geral da Fundação Amazônia Sustentável (FAS).

“É possível, sim, recuperar a Amazônia”, afirma Viana, apontando dados de um gráfico que mostra uma redução de 61% no desmatamento em unidades de conservação do programa Floresta em Pé, atendidas por iniciativas com amplo apoio de governos europeus e de uma extensa rede de empresas brasileiras – como Samsung, Bradesco, Petrobrás, Coca-Cola, Lojas Americanas. Essa rede da FAS reúne 183 instituições em oito países da Pan-Amazônia e tem mais de 300 parceiros institucionais.

Entidade sem fins lucrativos, de utilidade pública e com uma gestão profissional de recursos e ações que seguem regras de “compliance”, a FAS atua em pelo menos 16 áreas de proteção natural da Amazônia, envolvendo atualmente 7,5 mil comunidades ribeirinhas, além de periferias urbanas de Manaus e áreas de proteção do modo de vida indígena. São cerca de 40 mil beneficiados.

“No nosso relatório deste ano, são 582 comunidades, com 39.352 pessoas diretamente afetadas pelo programa Floresta em Pé. Na Aliança Covid, chegamos a 385 mil pessoas envolvidas”, destaca Viana. “Atuamos com comunidades que ficam a 15 dias de barco.” Com parcerias apoiadas pela ONU e governos estrangeiros, mais a participação daquelas empresas que têm programas para a região, a FAS tem um orçamento anual de cerca de R$ 40 milhões.

“Atuamos em 583 comunidades”, ressalta. “Nós acreditamos que há, sim, um caminho para reduzir o desmatamento e aumentar a renda. A gente conseguiu aumentar a renda médias das comunidades em 202%, em valores corrigidos desde 2009. Houve melhora de todos os indicadores”, O que falta, adverte, “é vontade política dos governos, como o governo federal, que hoje está desalinhado com o básico”, argumenta.

Viana alerta, porém, que a pressão é crescente sobre a região. E cita a situação de Lábrea com o asfaltamento da BR 319, “onde ocorre uma dupla dinâmica de grilagem de terras e extração ilegal de madeira”. “Quando eu fui secretário, a gente reduziu de 1.600 quilômetros quadrados por ano para 360 quilômetros quadrados por ano. Conseguimos uma redução de 66% nas taxas de desmatamento”, resume.

Coordenador da Rede de Soluções para o Desenvolvimento Sustentável da Amazônia, da ONU, Viana pondera que o País tem de adotar um objetivo audacioso. “Pensar em investimentos na casa dos R$ 10 bilhões não com ações de polícia, mas sim com um plano de prosperidade verde, sustentável, e valorização das populações indígenas e ribeirinho.”

Ecoturismo

Um pequeno negócio para explorar o potencial turístico da região amazônica tem sido parte do cotidiano de amazonenses em busca de renda. Vivendo da atração das águas da Amazônia e dos encantos com os mistérios da floresta, a família da empresária Marília Costa aposta no ecoturismo da lagoa de Acajatuba, a 60 quilômetros de Manaus, com seus passeios de barco e expedições de canoa pelo Rio Negro, em Manacapuru. Essa tem sido a rotina da família proprietária do Hotel Manati Lodge, uma pousada de oito quartos, construída sobre seis metros de uma palafita dentro da Unidade de Conservação da natureza Reserva de Desenvolvimento Sustentável Rio Negro.

A pandemia do coronavírus derrubou o movimento do hotel, mas a atual temporada já começa a apresentar uma retomada de turistas. “Tivemos muitas dificuldades na pandemia, dispensamos funcionários, mas a procura já está voltando”, diz a proprietária, que administra acomodação para aventureiros no hotel. A pequena empresa familiar hospeda interessados em curtir a vida ao natural amazônico e promove passeios de barco e canoa e visitas a comunidades locais. Antes da pandemia, conta Marília, empregava cinco pessoas da comunidade e o forte da procura acontecia em julho e agosto. “Recebemos turistas interessados em conhecer a vida real da Amazônia”, explica a proprietária.

Os clientes são viajantes de centro e sul do País. Antes da pandemia, Marília chegava a ter um faturamento anual em torno de R$ 500 mil. O carro-chefe das visitas é o passeio de canoa organizado nas águas da lagoa e no próprio Rio Negro. “Nosso negócio aqui é mesmo imersão no ambiente natural”, afirma ela.

As casas do conjunto da pousada, quartos e espaços de serviços são construídas sobre palafitas para oferecer a experiência da vida amazonense nas áreas alagadas da região. “Somos nativos da região, conhecemos muito bem a importância de mantermos este grande manto verde em pé”, destaca a proprietária do hotel, referindo-se à floresta que cerca a unidade de conservação. O hotel foi criado em 2008. “Eu sou nascida em Belém, no Pará, mas vivo aqui no Amazonas desde menina”, conta a dona do empreendimento.

O Manati Lodge fica a uma hora de carro de Manaus, pela AM 070, mais uma travessia de lancha de 25 minutos durante as cheias. Na baixa das águas, a lancha pode demorar até 45 minutos para chegar ao local.

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Novas técnicas de produção mostram como produzir mais carne sem grilagem

Há caminhos para criar gado de corte sem prejudicar o ambiente. Mas técnico alerta: sociedade precisa exercer pressão sobre o setor

Pablo Pereira, O Estado de S.Paulo

04 de setembro de 2021 | 14h00

"A conta está chegando", afirma o engenheiro florestal Paulo Barreto, pesquisador associado do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), analisando os impactos do desmatamento no meio ambiente da região. Autor de estudo sobre uma exploração econômica sustentável da criação de gado na região, Barreto lembra que a demanda por carne deve crescer nos próximos dez anos no País, mas sustenta que é possível produzir sem desmatar e com gasto menor, melhorando a produtividade. 

"A conversa que a gente ouve é sempre assim: vamos dar crédito e assistência técnica e está resolvido. Esse é um diagnóstico simplista", disse o engenheiro florestal em entrevista ao Estadão na semana passada, na véspera da publicação do estudo "As políticas para uma pecuária mais sustentável na Amazônia". No trabalho, ele defende que é possível produzir gado de corte sem devastar o ambiente local. Barreto justifica que para aumentar a produção sem derrubar a floresta já há recursos de crédito. 

Para avançar, explica, os produtores precisariam de um valor que pode variar entre 3% e 9,5% do crédito rural contratado para a região em 2020. É dinheiro aplicado na compra de novos animais, mas que poderia ser destinado à recuperação das pastagens degradadas.

Mas o pesquisador não duvida de que, para a fórmula funcionar, além de mudar a distribuição do crédito rural apostando na recuperação das pastagens degradadas, é necessário que haja a pressão da sociedade sobre o Estado no combate à grilagem de terras. "É preciso fechar essa fronteira da grilagem, essa ocupação desgovernada na Amazônia", diz. "Ela cria várias distorções porque sempre o grileiro pressiona para ter regularização depois, com anistia. Essa regularização é, geralmente, um presente porque ele paga um preço mais baixo do que o preço de mercado da terra", conta o pesquisador. "Há uma competição injusta", afirma.

Bom exemplo

Mas ele pondera que há áreas no ambiente amazônico nas quais produtores seguem as melhores técnicas de produção. "Na região de Paragominas, por exemplo, ou no Mato Grosso, que adotam práticas como a reforma de pasto, o pastejo rotacionado e o confinamento, com bons resultados", cita. No estudo, ele mostra que entre 1974 e 2019, o rebanho bovino nos municípios da Amazônia Legal cresceu quase dez vezes e atingiu 89 milhões de cabeças. Nesse período, o rebanho da região saiu de 9% para 42% do total do Brasil. 

O autor do estudo argumenta que o desmate não considera o custo ambiental da derrubada. E que além disso há um custo global maior já detectado, como os incêndios, além da diminuição de água no ecossistema e os impactos das secas em outros ambientes de outros Estados.

Legislação

Um dos principais entraves na proteção do bioma da Amazônia é uma tentativa constante de enfraquecimento do conjunto de leis e normas de fiscalização imediata para contenção da pressão na região. A opinião é da advogada Brenda Brito, pesquisadora do Imazon. "Mais do que buscar aprimoramento da legislação, o momento é de defesa do que já foi conquistado e que está sob forte ameaça", afirma. Na gestão Jair Bolsonaro, o total de multas pagas por crimes ambientais na Amazônia despencou 93%, mostrou estudo da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). 

Um exemplo claro desse quadro ameaçador, adverte, é a ocupação fundiária. "Hoje temos leis para reconhecer as ocupações, mas essas leis, especialmente as estaduais, acabam incentivando o processo de ocupação de terras públicas", argumenta a advogada.

Ela cita ainda o exemplo dos prazos legais. "A maioria das leis não tem um prazo. Precisamos definir prazos nas leis", critica. Em Estados como Amazonas, Acre, Tocantins e Maranhão "não há esses prazos". E quando há, pode ser alterado para permitir regularizações. 

A pesquisadora do Imazon acrescenta que é preciso reforçar a legislação no campo da grilagem de terras. Ela explica que o País tem a lei 4.947/66, mas alerta que as penas são baixas. Segundo ela, esse é outro ponto que não anda no Congresso, o que termina por incentivar a prática da grilagem de terras. "É necessário que isso seja observado logo para que se possa combater a grilagem com urgência", defende a advogada.

 

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