Rafael Valadao/ICMBIO
Rafael Valadao/ICMBIO

Ribeirinho traz tartaruga de volta à Amazônia

Pesquisa de ingleses e brasileiros mediu efeito de ações de proteção de espécie ameaçada no Rio Juruá; 70 mil filhotes a mais nascem todos os anos

O Estado de S.Paulo

13 Novembro 2018 | 22h53

A tartaruga-da-amazônia, historicamente ameaçada pela caça, está voltando aos rios da Amazônia brasileira graças a ações de proteção de comunidades locais. É o que mostra um estudo inglês, em parceria com pesquisadores brasileiros. A pesquisa também destacou que, como resultado do trabalho desses grupos, outras espécies também voltaram a aparecer nas praias protegidas da região.

A pesquisa foi liderada pela Universidade de East Anglia, na Inglaterra, e contou com a colaboração do centro universitário de Anglia Ruskin, no mesmo país, e com a Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e a Universidade Federal do Amazonas (Ufam). O estudo foi publicado nesta terça-feira, 13, na revista científica Nature Sustainability.

Os cientistas analisaram dados dos últimos 40 anos sobre as populações de tartarugas-da-amazônia que fazem ninhos nas praias ao longo do Rio Juruá, importante afluente do Rio Amazonas. Também investigaram as regiões de praias desprotegidas ao longo de uma faixa de mil quilômetros do mesmo rio e estudaram os ninhos de espécies de tartarugas, aves, iguanas, jacarés, peixes, botos e populações de insetos durante a estação seca. 

Os resultados mostraram que as populações de tartaruga-da-amazônia estão se recuperando por completo em praias protegidas pelas comunidades, do mesmo modo que aves migratórias como o talha-mar (Rynchops niger) e animais como o jacaré-negro (Melanosuchus niger), o golfinho de água doce, a iguana verde e o bagre. As ações de proteção no Rio Juruá são realizadas pelos moradores da região apoiados por organizações não governamentais e pelo governo.

Hoje, nessas praias nascem nove vezes mais tartarugas do que em 1977, o que equivale a um aumento anual de mais de 70 mil filhotes. Segundo o estudo, dos mais de 2 mil ninhos de tartarugas em praias monitoradas pelos grupos locais, só 2% foram atacados por caçadores ilegais. Nas áreas desprotegidas, esse porcentual chegou a 99% dos 202 ninhos analisados, segundo o estudo.

Os investigadores esperam que suas descobertas estimulem as autoridades a apoiar a conservação local, aspecto fundamental para que os programas de restauração ecológica tenham sucesso. 

Ameaçada

A tartaruga-da-amazônia, cujo nome científico é Podocnemis expansa, é uma espécie semiaquática, apelidada de “gigante” por ser a maior dos pleurodiros, o grupo das tartarugas de pescoço longo. Na estação chuvosa, elas entram nas florestas alagadas para se alimentarem de frutas que caem nas águas. Já na seca, vão para os rios em busca de praias arenosas para se reproduzir. A espécie pode ser encontrada na Colômbia, Venezuela, Equador, Guianas, Peru e Bolívia. No Brasil, ocorre na Região Norte e em Goiás e Mato Grosso. 

O animal está historicamente ameaçado. Houve um declínio populacional da espécie de cerca de 30% nos últimos 90 anos, segundo dados do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Em 1967, o Brasil aprovou leis que proíbem sua captura, o que não impediu que no final da década de 1970 os números de exemplares alcançassem níveis preocupantemente baixos.

Segundo o ICMBio, a carne e os ovos da tartaruga são consumidos pela população ribeirinha, restaurantes e comércio desde a época de ocupação da região. Calcula-se que mais 200 milhões de ovos tenham sido usados no século 19 para obter produtos derivados do seu óleo. /AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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