Reunião de clima da ONU acaba com revolta de 'pobres'

Críticos dizem que encontro avançou pouco rumo a acordo de redução de emissões.

Eric Brücher Camara, BBC

13 Dezembro 2008 | 03h03

Uma revolta de última hora dos países em desenvolvimento, na madrugada deste sábado, marcou o encerramento da reunião sobre mudanças climáticas das Nações Unidas em Poznan, na Polônia, depois que a Colômbia acusou os países desenvolvidos de "crueldade" nas negociações. "Estamos muito tristes e desapontados. É um mau sinal para Copenhague", disse o ministro do Meio Ambiente colombiano, Juan Lozano. O pomo da discórdia foi a tentativa frustrada de usar uma porcentagem do mercado de carbono para ampliar o financiamento do Fundo de Adaptação, um instrumento criado pelo Protocolo de Kyoto em 1997 para ajudar países pobres a combater as conseqüências do aquecimento global. Ao fim da conferência de 12 dias, o secretário-executivo da convenção sobre o clima da ONU, Yvo de Boer, voltou a se referir à "reunião braçal" da Polônia como um sucesso, mas admitiu que a impossibilidade de chegar a um acordo criou "mágoas". "Isso mostra que, daqui para frente, é para valer. Os países mergulharam em negociações sérias", disse de Boer. Apesar da polêmica, o fundo foi desbloqueado e já nos próximos meses deve começar a liberar recursos - que atualmente somam cerca de US$ 80 milhões, mas podem chegar a US$ 300 milhões por ano até 2012. No encontro do ano passado, em Bali, ficou acertado que, até 2009, quase 190 países fechariam um acordo global para a redução de emissões para substituir o Protocolo de Kyoto, que expira em 2012. Meio do caminho Em meio à crise econômica mundial e à transição americana, a conferência de Poznan marcou a metade do caminho entre o suado consenso de Bali e um aguardado novo acordo, marcado para Copenhague, Dinamarca, em 2009 - entre a fase de apresentação de idéias e de negociação final. "Esperávamos que a estrada fosse pavimentada, mas os buracos continuam. Pelo menos agora já enxergamos o caminho", afirmou à BBC Brasil Paulo Adario, diretor para a campanha da Floresta Amazônica do Greenpeace. De um lado, países em desenvolvimento como Brasil, China, México e Peru, entre outros, apresentaram propostas claras para redução de emissões, que são consideradas pré-condições para que os países desenvolvidos adotem metas de redução mais audaciosas. De outro, pouca coisa mudou do lado dos países desenvolvidos. A União Européia, depois de semanas de suspense, aprovou em Bruxelas a sua estratégia de energia e meio ambiente, e manteve as intenções anunciadas em 2007 de cortar emissões em 20% até 2020. Já os Estados Unidos, mesmo antes da entrada em cena da equipe do presidente eleito Barack Obama, acenaram com a proposta de diminuir as suas emissões aos níveis de 1990 até 2020 - o que na prática significaria uma redução de cerca de 16% (que foi o crescimento nas emissões do país no período). Decepção O projeto dos EUA foi considerado pouco ambicioso por países como Brasil e China, mas não chegou a ofuscar a expectativa em torno do novo governo americano. "Os países em desenvolvimento já tomaram os seus assentos à mesa. Agora, aguardam os Estados Unidos assumirem o seu lugar", afirmou Duncan Marsh, da organização ambientalista Nature Conservancy. Para os ambientalistas da organização Amigos da Terra Internacional, os países ricos decepcionaram e ameaçam a meta de chegar a um acordo em 2009. "Em vez de tomar a liderança, eles (desenvolvidos) continuam a driblar as suas obrigações de transferências financeiras e tecnológicas para com os países em desenvolvimento", afirmou a coordenadora para Clima da ONG, Stephanie Long. Apesar da polêmica, o desbloqueio do Fundo de Adaptação está entre as questões consideradas avanços em Poznan. O ministro do Meio Ambiente do Brasil, Carlos Minc, afirmou que o governo planeja aplicar a verba em Estados do Nordeste, no Rio de Janeiro e em Santa Catarina. Entre os pontos mais criticados pelas organizações não-governamentais que acompanharam o encontro, está a exclusão de menções a direitos de populações indígenas e tradicionais no texto que orienta a redução de emissões decorrentes de desmatamento e degradação de florestas (Redd). BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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